*Djamila Ribeiro

Ela nasce do medo de Adão da liberdade de Eva.

“Se o teu marido não te responde, é em ti que está a falta.”

“Que falta, pai?”

A voz dele é áspera e corrosiva como veneno espalhado ao vento. Fala com desprezo, como quem diz: “Ó, menina, não me traz mais problemas, que já tive tantos nesta vida”.

E continua o seu discurso: “As mulheres de hoje falam muito por causa dessa coisa de emancipação. Falas demais, filha. No meu tempo, as mulheres não eram assim”.

“Foi difícil aceitar o que estava a ouvir. A minha esperança morreu, sou um caso perdido. Os problemas de uma mulher são classificados no arquivo das insignificâncias, caprichos, incapacidades.

São assim os pais. Sempre educando os filhos para serem tiranos e as filhas para aceitarem a tirania segundo a ordem do universo.”

Ilustração inspirada na pintura renascentista “Nascimento de Vênus”, de Botticelli, onde uma mulher negra está cercada de livros, com a concha aberta atrás.

Esse é um diálogo entre a personagem Rami e seu pai no livro “Niketche: Uma História de Poligamia” (Companhia das Letras, 2004), da escritora Paulina Chiziane, a primeira mulher moçambicana a publicar um romance. Um diálogo que resume muito a condição feminina vista com falta de alteridade. A insistente mania de culpar a mulher pelo problema do homem em não enxergá-la. A mulher é a falta, a oposição.

Beauvoir afirmou que o drama da mulher é se querer essencial em um mundo que a vê e a quer como inessencial. Assemelha-se ao que Rami fala em outra parte do livro: “Para as mulheres o eterno conselho é: segura, fecha, cobre, esconde. Para os homens é: larga, voa, abre, mostra – pode alguém compreender as contradições deste mundo?”.

Lembrei-me da fala de Edir Macedo em um culto, divulgada nesta semana. Afirma que mulheres não devem estudar mais que os homens e proibiu as próprias filhas, que estavam ao seu lado, de fazer ensino superior antes do casamento, pois elas deveriam casar com um macho, o cabeça da relação. “São assim os pais. Sempre educando os filhos para serem tiranos e as filhas para aceitarem a tirania segundo a ordem do universo.”

Lembrei-me também do caso de um avô que estuprou a própria neta de nove anos. Ao ser preso, disse que a neta o provocava. “Era uma diaba”, afirmou.

Uma criança é colocada no lugar do algoz quando é uma vítima indefesa. Nenhuma menina é poupada da visão da Eva que provocou Adão, a responsável pelo pecado original. As netas também são criadas para aceitar a tirania segundo a ordem do universo.

Daí quando as mulheres aceitam as tiranias, posto que assim foram ensinadas, receberão a culpa pela própria escravização. Ou ainda, serão naturalizadas no lugar do corpo sem a cabeça, das frivolidades, da busca incessante por amor, dos filmes românticos da mulher que necessita ter um homem, já que essa é a falta.

As mães criam os próprios filhos assim, vão dizer os amantes de fórmulas fáceis, como dizia Beauvoir, mas sem refletirem que o gênero se impõe à mulher antes que ela possa se pensar como livre, sem assumirem a autoria das construções que os beneficiam.

“Um pai é segurança, diz-se. Que segurança? Meu pai não quer que disturbe a sua meditação perpétua. Sou o fel que se pretende afastado do peito. Um espinho a remover, a afastar, a aparar. Os sentimentos das filhas não passam de grão de areia. Simples poeira. Insignificantes. Olha, pai, vou-me embora, digo-lhe. Deus me livre de ficar mais um minuto diante deste velho”, diz Rami, em outro trecho do livro.

O sentimento é de insuficiência, de uma vida que deve ser negligenciada. A aceitação do drama entre se saber humana e não ter condições concretas para restituir sua própria humanidade. Ou o drama de saber as consequências por enfrentar as tiranias que nos fizeram acreditar ser segundo a ordem do universo.

“Que vergonha eu sinto. Estou desesperadamente a pedir socorro e respondem-me com histórias de macho.”

A vergonha que a personagem sente pode ser entendida como uma espécie de vergonha original. A vergonha por ser reduzida. A vergonha do fingimento. A vergonha por aturar insignificâncias. A vergonha de ser agredida. A vergonha do corpo. Todas as vergonhas criadas a partir da imposição de um olhar que nos vê e quer como objetos. A vergonha por não sabermos, muitas vezes, nem saber identificar certas vergonhas.

Sobretudo, a vergonha original nasce da necessidade de tirania e controle daqueles que também se reduzem a machos por medo de aceitarem as complexidades próprias do humano. A vergonha original nasce do medo de Adão da liberdade de Eva.

*Mestre em filosofia. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 27/09/2019.
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