… o julho de 1924 teria sido dedicado a urna intensa reviravolta na política amazonense, salvando os cofres públicos e destituindo a oligarquia, mas os pesquisadores ainda estão devendo urna revisão desses fatos notadamente pela ótica dos vencidos …

Passou em silêncio, no recente dia 23 de julho, o aniversário de 95 anos da revolução tenentista de 1924 em Manaus que libertou o Amazonas de uma das mais complexas teias oligárquicas, precisamente aquela que retirou do podero então governador César do Rego Monteiro, homem bem formado, jurista, político, professor de direito, mas que se achava perdido por entre os interesses menores dos favores para familiares e amizades íntimas, repugnando o bem do Estado.

O que apresentamos como cenário político-administrativo da época é a tradução, em síntese, da opinião de muitos historiadores que, naquela fase da vida estadual, sofreram com o atraso de salários, a necessidade de venda de seus vencimentos para recebimento de uma parcela muito pequena, o descaso do governo e da prefeitura com os interesses coletivos e o comando da família do governador em todos os postos chaves do Estado e do Município, todos eles, sem exceção.

É de estranhar o silêncio conferido a tal episódio de nossa história, principalmente porque durante muito tempo, em 23 de julho, a festa era grande. Ainda tenho na lembrança de menino e quase rapaz, que havia um enorme foguetório nas bandas da Cachoeirinha, amplo noticiário de imprensa, discursos nas casas legislativas, visitação cívica ao busto de Ribeiro Júnior na Rua Floriano Peixoto, e até missa festiva para as comemorações pela dita e proclamada “libertação do povo amazonense” e muitos dos adeptos da revolução mantinham a tradição dos eventos considerados motivo de honra.

Na verdade, Alfredo Augusto Ribeiro Júnior, então tenente do 27° Batalhão de Caçadores, que se impôs como o principal líder do movimento assumindo como interventor militar por alguns dias e promovendo todo o bota abaixo que, dizem, se fazia necessário, tornou-se tão notável que terminou eleito deputado federal mas teve o mandato tomado pela comissão de verificação de poderes, algo estranho que existia e servia aos oligarcas de plantão e ao partido do governo federal.

E o que mais me chamou a atenção para o silêncio sepulcral de que trato é que nos últimostempos sabe-se que um conjunto de dissertações, teses e outros trabalhos acadêmicos foram realizados a respeito desse importante movimento militar, recheado de civismo e amazoneidade, ocorrido depois da declamação do discurso da Canção de Fé e Esperança proferido por Álvaro Maia no Teatro Amazonas, um grito que ecoou grandemente e que se consolidou quando Álvaro assumiu o poder e liderou o Amazonas na fase getulista.

Desta forma é que vão desaparecendo os nossos marcos referenciais e históricos. Neste caso, em particular, todos nós, amazonenses de nascimento ou de coração, deveríamos, sempre do sempre, manter acessa a chama libertária do tenentismo de 1924, não só pelo movimento em si mas também pela repercussão social, econômica e moral e as consequências políticas que redundaram em intervenção federal no Estado em seguida, a um acordo de “cavalheiros” que pactuaram a pacificação partidária e a escolha de um candidato único ao governo estadual em duas oportunidades, 1926 e 1930, tranquilidade rompida com a revolução getulista.

O que diziam os mais velhos desde há muito, que o julho de 1924 teria sido dedicado a uma intensa reviravolta na política amazonense, Salvando os cofres públicos e destituindo a oligarquia, mas os pesquisadores ainda estão deve do uma revisão desses fatos notadamente pela ótica dos vencidos, para que a as narrativas se aproximem aindamais da verdade dos fatos.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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