Os portugueses sabiamente afastaram a única força suficientemente poderosa, capaz de por em xeque o seu modelo de Integração colonial. E, tendo expropriado do Índio certa técnicas Indispensáveis para a vida na Amazônia, ofereceu como herança a vergonha castradora que procura manter a região submetida a uma sociedade de caricatura, que Bluntschili recusa como solução.

Em contraste com os espanhóis, enriquecidos pelo ouro e com uma Igreja Católica mais ativa, com uma educação menos reprimida, os portugueses confortaram-se em confiar no trabalho duro de seus servos mestiços e Índios pacificados. Região difícil para a incipiente tecnologia da época, a aglomeração urbana que Mário Ypiranga descreve pouco tem a ver com as cidades do Sul do Brasil e mesmo com as comunidades espanholas. A vida desta Manaus (Lugar da Barra) crepuscular não Impressionava ninguém. Tudo era resolvido através das trocas, os homens se sedentarizavam e pareciam abandonados a uma eterna sorte de pioneiros esquecidos, Impotentes para superar o grande desafio regional. Não há qualquer florescimento espiritual nesses anos que antecedem a Independência. São anos de graves incidentes políticos e a repressão se torna catastrófica e obscurantista.

O equilíbrio do mercantilismo na Amazônia dura o quanto pode, quase cinquenta anos de rotina e recuos, com soluções vindas de cima para baixo, até que uma crise administrativa e econômica se instala. A região se desgarra e os sucessores de Lobo D’Almada não são capazes de solucionar os novos desafios. Recorrem às taxações excessivas sobre os produtos naturais e cultivados, fazendo recrudescer a velha diferença entre cabocos e brancos, e levando a província à decadência.

Tudo isso desencorajava a produtividade, fomentava a Inquietação. Evidentemente que a expropriação do índio não foi pacífica e as constantes rebeliões como já foram visto, foram sufocadas pela repressão armada. Em 1729, não se pode esquecer, vinte mil e oitocentos índios mura foram trucidados por um comando militar português. E a resistência do tuxaua Ajuricaba, na região do rio Negro, Sabemos que foi tratada com os rigores de uma rebelião, e todos os principais cabeças perderam a vida no final. Belchior Mendes de Morais, um dos encarregados de fazer a repressão ao tuxaua Ajuricaba, inaugura sua tarefa subindo pelo rio Urubu e destruindo aproximadamente trezentas malocas e dizimando a ferro e fogo mais de quinze mil índios entre homens, mulheres, velhos e crianças. Se de um lado os colonizadores encontravam a adesão pacifica de povos exauridos, outros recusavam essa aliança e mantinham o colonizador cercado e ameaçado. Quando o remédio do salvacionismo cristão não surtia efeito, a pólvora dos arcabuzes abria uma perspectiva.

Os militares portugueses, para enfrentar a resistência nativa, jogavam tribo contra tribo, e as punições genocidas completavam o enfraquecimento indígena em sua rarefeita unidade. A velha Amazônia milenar dos povos indígenas terminou nesse vendaval de pólvora e orações que durou dois séculos e meio de sofrimentos indescritíveis.

Um ponto comum na história cultural das Américas é a diversidade de relações que pode ser encontrada sob o significado geral que se denomina como experiência colonial. A Amazônia não foge a regra, e o estudo das relações entre o Ocidente e seus Outros culturalmente dominados, em suas mutações amazônicas, pode servir para a compreensão qualitativa de formas culturais, como os relatos etnográficos, os textos científicos, o discurso político, o romance, a poesia, a arquitetura e a organização urbana. Afinal, muito mais do que os gestos desesperados dos conquistados, foi através de formas culturais que o imaginário do Ocidente criou a Amazônia.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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