“Somente agora o povo, em sua maioria, começa a tomar conhecimento do nome oficial da conhecida Praça do Congresso …

Estivéssemos em 1908, portanto, há mais de cem anos, a população da pequena cidade de Manaus estaria comentandoa inauguração da Praça do Bituca, no alto da principal avenida da cidade, nas cercanias do Largo da Saudade, formando um corredor de circulação de bondes que passaria pelo Largo de São Sebastião até chegar àPraça da Constituiçãoao fazer uma espécie de circular.

É que. o velho e honrado governador Antônio Clemente Ribeiro Bittencourt que exerceu relevantes cargos na administração estadual e na política, e que em uma daquelas manobras sórdidas da política da época foi rejeitado pela Comissão de Poderes do Senado mesmo tendo sido eleito pelo povo amazonense, era chamado de Bituca, como uma forma carinhosa e familiar de ser tratado pelos mais próximos.

Como a restauração se deu neste ano de 2012, somente agora o povo, em sua maioria, começa a tomar conhecimento do nome oficial da conhecida Praça do Congresso como ficou alardeado o logradouro público que daria solenidade ao Palácio do Governo projetado por Eduardo Ribeiro e dinamitado por Ramalho Júnior, Esta denominação popular decorreu da realização do Congresso Eucarístico Diocesano de 1942.

A praça do Bituca foi inteiramente restaurada conforme o desenho original traçado nos anos 1900, com quatro módulos, vias internas em pedra do tipo “jacaré”, quatro jardins e um passeio central no qual sempre esteve a Bandeira Nacional, elevada em mastro que podia ser visto à distância. Os bancos em cimento rebordado e os postes de ferro com globos também foram restabelecidos, trazendo de volta um pedaço de Manaus que havia se perdido no tempo, e que representa muitas recordações para grande parte dos amazonenses.

Tal como se encontra aquelelogradouro está propício para o passeio de fins de tarde e as conversas largadas que todos gostamos de travar. As “ienas”, como dizia tia Lila Borges de Sá, ou as normalistas cantadas em música popular, podem voltar a desfilar por ali para encanto dos ginasianos, espalhando charme e elegância.
Os artistas afeitos à boêmia intelectual também podem fazer as suas composições poéticas e dedilhar a música nos violões bem afinados espalhando sons de alegria por toda a região, tal como fizeram Anibal Beça, AlexandreOtto, Lourenço Braga, Osman Nasser, Bastos, Pato Feio, Jorge rato branco, Nestorzinho, Zequinha Damasceno, Sebastião Guimarães, Mathias, Luiz ouro, Arsonval, Roosevelt Braga, Nelson Ferreira, Antônio Maurity, todos encantados pela descoberta das madrugadas sossegadas de uma cidade pacata e ordeira, bucólica e acolhedora. Como o leitor pode ver cada recanto de Manaus tinha seus ícones. Na praça do IEA o sonho do amanhã se traduzia em poesia e música, e a certeza de transformar o mundo era o elo que reunia a juventude de alguns anos passados em constante alegria.

Devolvida ao povo com os traços históricos reconstituídos e recursos modernos de tecnologia e segurança, a Praça Antônio Bittencourt volta a ter vida e, por certo, servirá a novos encantos juvenis, abraços apaixonados, acordes musicais, versos de amor, festas cívicas, desfiles de elegantes normalistas, espaço de contemplação e lazer para os idosos, desafio paraas crianças, visitação para os turistas. Tudo como havia sido por muitos anos e restava assim na saudade de muita gente.

Como se vê, aos poucos, mas com êxito, vamos reconstruindo a cidade que é nossa paixão, desmantelada pelo progresso que quase sempre fere e ofende a história, e muitas vezes se traduz em modernidade vesga ao negar o passado.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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