*Sylvia Colombo

No centenário de João Cabral de Melo Neto (1920-1999) é de se louvar que estejam sendo publicadas, no Equador, em uma edição bilíngue, suas poesias escritas na época em que foi embaixador do Brasil naquele país andino (entre 1979 a 1981).

A edição de “Viviren Los Andes”, sob responsabilidade do atual embaixador e também escritor João Almino, tem tradução ao espanhol por Iván Carvajal. Com uma tiragem de mil exemplares, foi lançada na última Feira Internacional do Livro de Quito, em dezembro, e terá distribuição no Brasil, por meio do Itamaraty, a universidades e bibliotecas.

A passagem de Melo Neto pelo Equador é pouco conhecida, pois é mais comum que se relacione sua obra a Pernambuco e Espanha. Mas, em visita recente que fiz a Quito, tive o privilégio de escutar do atual embaixador João Almino, também ele escritor e membro da ABL, como Melo Neto, anedotas interessantes. Como sua busca pela misteriosa janela de onde Melo Neto contava em um poema como era o vulcão Cotopaxi, um dos mais importantes a circundar Quito (“un cone perfeito de neve”, em sua descrição). Esta visão, porém, já não é mais possível, me contou Almino, por conta do crescimento da cidade e da construção de muitos prédios em torno da residência da embaixada.

Almino também contou como encontrou manuscritos do próprio poeta, guardados na embaixada por um funcionário que vinha trabalhando ali havia muitos anos e convivera com ele.

Os poemas equatorianos reunidos em “Viviren Los Andes” não são inéditos, foram publicados inicialmente no livro “Agrestes”, de 1985. Mas nunca tinham recebido um tratamento especial, com tradução e textos analíticos, de Antonio Carlos Secchin, do próprio João Almino e de Iván Carvajal. Trata-se de 10 poemas.

Neles, estão presentes o indígena e seu lugar conflituoso na sociedade _um tema ainda muito atual e que era o motivo de eu ter ido ao Equador nessa ocasião, há algunsmeses_ e a grandiosidade dos vulcões, que encantavam o poeta e o levavam à reflexão.

Uma observação interessante é que Melo Neto já não era tão jovem, tinha 60 anos, quando chegou a Quito, uma cidade localizada a 2.850 metros sobre o nível do mar e que é um desafio para a respiração de qualquer ser humano. E essa sensação de sufoco parece haver influenciado sua obra (“no ar rarefeito como a vida, vai a vida do índio formiga”, diz um de seus versos).

Há um lindo poema sobre o mais famoso vulcão local, o Chimborazo.

Chama-se “O Chimborazo Como Tribuna”:

“Talvez [a montanha] seja mesmo a tribuna/que mandou reservar o tempo/para um Bolívar que condene/quem fecha a América ao fermento.”

Ou outro, que descreve o indígena que vive na Cordilheira dos Andes: “o índio anda sempre correndo/ como se fugisse do fogo;/ mas, se não faz parar o carro,/ não está à procura de socorro./ quem sabe, anda sempre correndo/ para fugir do alto colosso/ e descer para as poças de ar/ que não pode levar no bolso.”

Quem quiser ler mais, deverá esperar que a edição chegue logo ao Brasil. E não seria uma má ideia se alguma editora brasileira se animasse a fazer dessa obra artesanalmente tão bem cuidada uma edição comercial.

*Repórter especial da Folha de São Paulo. Matéria no Caderno Ilustrada, de 09/01/2020.
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