Quinta-feira, 10/12/2015, às 16 horas e alguns minutos. Como de hábito, abri o computador para checar os e-mails do dia e tomei um susto: meu amigo historiador Antônio Loureiro, presidente do IGHA, informava o falecimento do nosso confrade Ozório Fonseca. Ocupante da Cadeira nº 42, de Pero Magalhães Gandavo (1540-1579), na qual fora empossado em 12/12/2014, o bravo e culto cientista amazonense ainda não completara um ano como membro da instituição. Sua morte seguiu-se à de sua irmã, Neide de Menezes Fonseca, ocorrida há duas semanas.

O poeta Elson Farias, ao acusar a mensagem do presidente Loureiro, reportou-se nos seguintes termos:

Ozório e Neide, sua irmã, foram meus colegas de classe no Grupo Escolar Coronel Cruz, em Itacoatiara, onde sua mãe Prof. Francisquinha, se não me falha a memória, era a Diretora, e sua tia Zazá [Izabel Rodrigues de Menezes] foi professora. Depois nossos caminhos tomaram novos rumos e permaneci em contato mais frequente com a Neide, que faleceu também há poucos dias. Lamento muito a perda dessas duas figuras importantes de nossa vida sócio-cultural.

  Nascido em Manaus, aos 10/03/1939, Ozório José de Menezes Fonseca foi uma figura destacada entre seus coestaduanos: graduado em História Natural (1965-1969) pela UNESP-Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho; especializado em Micologia Médica (1970-1971) pela USP-Universidade de São Paulo; mestre em Ecologia (1982-1984) pela UFRS-Universidade Federal do Rio Grande do Sul; e doutor em Ecologia e Recursos Naturais (1986-1990) pela UFSCa-Universidade Federal de São Carlos/SP.

Pesquisador do INPA (1971-1982), onde começou como simples estagiário e chegou a Diretor-Geral (1995-1999), e professor visitante da UFRS (1983-1995), deixou mais de 90 trabalhos científicos entre livros, capítulos de livros, artigos científicos, relatórios técnicos, etc., e cerca de 300 artigos de divulgação científica em jornais, revistas e meio eletrônico. No período 2002-2012 foi docente da UEA fazendo parceria com outro ilustre amazonense, natural de Itacoatiara, o ex-reitor e professor emérito da UFAM, doutor Walmir de Albuquerque Barbosa. No Programa de Direito Ambiental da Universidade amazonense, Ozório Fonseca ministrou a disciplina “Pensando a Amazônia”, de que resultou o célebre livro de sua autoria, sob o mesmo título.

Além de titular do IGHA e da Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas, e membro honorário da Academia Amazonense de Medicina, foi agraciado pela Presidência da República com a Ordem Nacional do Mérito Militar e a Ordem Nacional do Mérito Científico. Por muitos anos articulista do Jornal do Comércio e do Portal Amazônia, e colaborador deste Blog desde o final de 2012, onde publicou um total de 94 artigos.

Exemplo de homem austero, afável e competente, pensava a Amazônia “refletindo, principalmente, sobre suas diversidades, pois são elas que configuram um macrodescritor regional muito mais representativo do que a expressão planície amazônica que é apenas uma das feições da diversidade físico/natural”. Corajoso e um severo crítico do que considerava o claudicante ‘progresso’ do Amazonas, para ele a Zona Franca de Manaus era uma fraude. Graças à sua postura claramente independente, certos setores da política (assim mesmo em minúsculo!) devotavam-lhe antipatia. Talvez por isso, a mídia local não registrou a sua morte. Ao abordar temas sensíveis, de sua especialidade, o fazia de forma direta, sem meias palavras e às vezes de maneira cáustica. Como no artigo “Construindo o futuro”, há seis meses postado neste Blog:

O futuro sustentável passa, obrigatoriamente, pelas nossas diversidades sociais, étnicas, culturais naturais e, principalmente, pela diversidade biológica e dos ecossistemas. E por isso, o encaminhamento e a solução só podem partir de mentes intelectualizadas, pois o abandono desse caminho levou a região ao fim do ciclo da borracha, com os dirigentes ignorando as advertências de homens de visão. E quando tudo acabou, a elite política e rica vendo os lucros se esvaírem, escafederam-se para outas plagas…

Parece-me prudente estabelecer, dentro do cenário científico das várias ciências da sustentabilidade, o melhor caminho para configurar um modelo diferente daquele do ciclo da borracha que se esvaiu, e do modelo Zona Franca que está se esvaindo. Ambos concentraram renda e distribuíram miséria, sem conseguir formatar uma sociedade mais justa, presidida pelas liberdades e igualdades substantivas.

Nosso futuro está ameaçado e sem alternativas imediatas, pela implantação de uma Zona Franca no agreste pernambucano, estado de origem do atual ministro ao qual a Suframa está subordinada. E este novo polo industrial por ser mais promissor tanto do ponto de vista eleitoral como pela visão logística e estratégica, vai jogar nosso Estado em um novo período de penúria similar ao fim do ciclo do ouro negro.

Entendo que nossa redenção – sem sangue – só virá com a utilização de saberes verticais, na formatação de um projeto de Estado que valorize nossas amazonidades, criando polos de bioindústrias distribuídos dentro de critérios sadios de um Zoneamento Ecológico Econômico formatado de acordo com a distribuição endêmica das espécies de nossa biodiversidade, e distante da minúscula política do toma lá dá cá.

Há três meses, ao participar de uma mesa redonda sobre políticas públicas na Assembleia Legislativa do Estado, afirmou:

Nossas amazonidades, desde muito tempo, deixaram de fazer parte do planejamento político, de governo e das configurações do futuro. A classe política caminha em caminhos diametralmente opostos às nossas raízes, nosso modus vivendi, nossa realidade não apenas por desconhecê-las, mas principalmente, porque nelas não cabem as negociatas sujas e malévolas do caminhar dos partidos políticos que apenas pensam no poder como meio de encher os bolsos dos apaniguados. Com isso, toda vez que um político com mandato popular abre a boca, é preciso jogar o que foi dito na fossa da história amazônica e, principalmente, amazonense. Mesmo alguns que deveriam manter sua cultura advinda da vida no barranco dos rios, cedem ao império da desfaçatez e abandonam nosso futuro em beneficio de seu próprio caminhar.

E no trabalho “Paris e Mariana”, o último que postou neste veículo eletrônico, em 23/11/2015, asseverou:

Perdoem-me os que optaram por tingir suas fotos no Facebook com as cores francesas, mas gostei mais das pessoas que se cobriram de lama e foram para a frente da Vale do Rio Doce, no Rio, sujar as paredes da empresa que já estão imundas de usura e de desrespeito ao Brasil, aos brasileiros e à natureza. E como diz um princípio assentado na teoria do risco, o responsável pelo dano é aquele que tira lucro ou proveito derivado do dano e fundamenta-se no princípio do “ubi emolumentum ubi ônus” = do lucro nasce o encargo.

Construímos – ele e eu – uma amizade solidificada no espraiar dos temas ITACOATIARA e AMAZÔNIA. Trocávamos e-mails quase todas as semanas; e foram inúmeros deles. Além do invariável “Amigo, aí vai mais um texto para seu blog”, aqui e ali ele externava a grande paixão que devotava à Cidade da Pedra Pintada, que a denominava de PRINCIPADO DE ITACOATIARA. Muitas de suas mensagens são registros para a História. Exemplos mais recentes:

Em 05/06/2015: “Estou repassando essa linda interpretação; ela me emocionou muito, pois desde meus tempos de menino ouvia meu pai solfejá-la. Uma delícia para os olhos e para o coração”; 09/06/2015: “Aí vai mais um texto que espero esteja no seu gosto e no de seus leitores”; 27/06/2015: “Aí vai uma muralha de imagens oportunizadas pela magia da natureza e a presteza do click. O segredo é a hora do click”; 03/07/2015: “Aí vai mais um texto. Viu a foto que postei do nosso Principado?”; 06/07/2015: “A foto do Principado publiquei no facebook. As fotos de papai e mamãe, estou enviando em anexo. Não tenho fotos da tia Isabel (Zazá). Ela detestava fotos”; 08/07/2015: “Acho que essa foto marcou a nossa despedida de Itacoatiara, de onde mudamos em 1947. Foi tirada da rua da frente, onde ficava a firma Ezagui & Irmãos (onde meu pai trabalhou, durante muitos anos, como guarda-livros) e a sede dos Correios e Telégrafos”; 09/07/2015: “Vez em quando coloco fotos antigas no facebook. Essas duas fotos mostram o prédio onde funcionou a firma Ezagui & Irmãos. A outra mostra onde era nossa casa, na rua da igreja… Tinha uma fachada muito simples e a rua era de chão batido. O único carro que havia em Itacoatiara era o ‘carro de luxo’ do Sr. Alípio, uma carruagem puxada por dois cavalos brancos que os mais abastados usavam para passear nos fins de semana”; 14/09/2015: “Amigo, estou com grandes problemas com uma irmã internada em um hospital desde 02 de julho. Não me sobra muito tempo, pois ainda estou lendo uma dissertação de mestrado (sou da banca), escrevendo um capitulo de um livro sobre mudanças climáticas e recursos genéticos, preparando minha participação em uma Mesa Redonda sobre Recursos Hídricos aqui na Assembleia e ajudando na configuração de uma Enciclopédia da Amazônia que tem como editor o Leonide Principe. De qualquer forma nesse final de semana publiquei um texto que remeto para você”; 02/10/2015: “Aí vai mais um texto para o blog dos itacoatiarenses”; 09/10/2015: “Amigo, aí vai mais um texto para os itacoatiarenses (quase como eu sou)”.

Ozório José de Menezes Fonseca era filho do ex-prefeito municipal de Itacoatiara, Osório Alves da Fonseca (1889-1960), e da professora Francisca de Menezes Fonseca (1906-1988). Nascido em Manaus, porém criado nessa cidade, estudou no antigo grupo escolar “Coronel Cruz”, então dirigido por sua genitora, fato que o tornava extremamente orgulhoso, a ponto de destacá-lo em sua biografia. A emoção sempre aflorava quando o saudoso amigo falava do ‘seu’ PRINCIPADO…

Em setembro de 2013, ao retornar de Itacoatiara, onde participou do lançamento de meu livro “Fundação de Itacoatiara”, explicou:

Passei minha infância vendo exemplos dignificantes de trabalho em prol da cidade e hoje, refletindo sobre aqueles tempos, conclui que aquela geração de homens e mulheres cujos nomes não cabem todos nesse espaço, e que lutavam heroicamente por Itacoatiara, era constituída de gente muito especial.

Por essa razão sempre me refiro à Velha Serpa como o Principado de Itacoatiara, não por conta de imaginários títulos nobiliárquicos, mas um Principado tipificado pela nobreza de caráter dos velhos políticos e dirigentes daquela época cuja principal marca é o fato de todos terem morrido pobres. Meu Principado tem seus alicerces no passado embora, no lançamento do livro de Francisco Gomes da Silva, eu tenha vislumbrado a possibilidade de um retorno àqueles tempos, ao ver tantos jovens ouvindo a conferência e buscando um exemplar do livro que conta parte da história daquela histórica cidade que meu pai tanto amou e adotou como sua cidade natal, embora tenha nascido em Manaus (in artigo “Viagem a Itacoatiara”, ao tempo publicado neste Blog).

E o então nostálgico caminhante prosseguiu em sua escrita:

 

LEMBRANÇAS

Itacoatiara, evidentemente, não é mais a mesma cidade onde passei minha infância. Pessoas que chegam, pessoas que se mudam ou que se vão para sempre, uma árvore cortada ou morta, casa desmoronada, novos muros, ruas abertas, tudo colabora para mudar o cenário gravado na memória.

Com a mente no passado, caminhei pela Velha Serpa, por lugares que marcaram minha vida, como o descaracterizado sobrado histórico onde moramos, a casa transformada que meu pai construiu, o local onde foi o grupo onde fiz o curso primário, a Matriz de Nossa Senhora do Rosário, onde me batizei e fiz a primeira comunhão. Fui ver e fotografar o lindo prédio onde funcionava a farmácia do Francisco Athayde ao lado da Padaria Bijou do Seu Brandão, casado com a professora Olga. Olhei cheio de tristeza o abandonado terreno onde morava a “vovó” Vigica e minha madrinha Mimi Pereira, que era  responsável pela Estação Meteorológica transferida não sei para onde para dar lugar ao auditório do Fecani.

 

OUTRAS REMINISCÊNCIAS

Com pesar, vi a descaracterização de lugares e prédios históricos como o Bosque em frente à antiga Prefeitura, a casa dos Peixoto, dos Auzier, dos Perales, o sumiço da casa de Araújo Costa e, para agradável surpresa a preservação do prédio dos Ramos e o lar dos Menezes, um dos quais, com um defeito no pé, trabalhava nos Telégrafos e Correio que ela ali na rua da frente, bem próximo à firma Ezagui & Irmãos da qual meu pai era o guarda-livros.

Na semana seguinte da mesma época e neste mesmo espaço eletrônico, em seu generoso artigo “Itacoatiara, 330 anos de história”, Ozório Fonseca escreveu:

MINHAS RAÍZES

Passei minha primeira infância em Itacoatiara e foi lá que minha vida lançou e fixou suas primeiras raízes. Embora a vida me tenha levado para outros meridianos e paralelos, a ligação radicular manteve uma conexão muito estreita com aquele pedaço de chão amazônico cujos primórdios históricos agora se revelam nas páginas do livro “Fundação de Itacoatiara”, do historiador Francisco Gomes da Silva.

A HISTÓRIA

… aprendi que o historiador, ao registrar o passado, precisa de enorme perspicácia para encontrar os encontros e desencontros das múltiplas (talvez infinitas) trilhas e pistas do passado, para descrever o antigo cenário.

O livro credita ao padre suíço Jódoco Perez (Jodocus Perret), Gestor dos Jesuítas, o lançamento do alicerce embrionário de Itacoatiara, cuja marca maior é a celebração da primeira missa na aldeia dos índios Iruri, em 08 de setembro de 1683.

Entre os personagens dessa história inicial, o autor, destaca a figura do índio Mamorini, o poderoso tuxaua dos Iruri, um nome que lembra a samaumeira (Ceiba petandra) a mais frondosa árvore da várzea cujas raízes escorais (sapopemas) ao serem tocadas por um pedaço de pau emitem sons que se propagam pela floresta, servindo como meio de comunicação (Código Morse da Floresta).

A longa história prossegue contando marcos e marcas essenciais e relevantes entre os (as) quais destaco a migração do sítio inicial para o rio Abacaxis, a instalação da Vila de Serpa (1759), e a efetivação de Nossa Senhora do Rosário como padroeira de Itacoatiara.

O livro, para os que se interessam pela ocupação humana da Amazônia é fascinante e essencial. Sua leitura mostra o heroísmo dos passos importantes e das pessoas relevantes na construção de um núcleo habitacional confortável (Aldeia), dominando as dificuldades próprias do confronto entre as necessidades do homem e as leis da natureza. As 224 páginas do livro de Francisco Gomes da Silva contam, com detalhes, a elevação, em 1758, da Aldeia para a categoria de Vila de Serpa (nome lusitano imposto pelos colonizadores como fizeram com o nome Barcelos que substituiu Mariuá), sua transferência para o local atual por Mendonça Furtado e sua elevação à categoria de cidade em 25 de abril de 1874.

Esse livro é o primeiro volume de uma trilogia e, evidentemente não tenho a pretensão de ter feito uma sinopse ou resenha, mas de ter usado esse espaço para registrar uma das mais belas páginas dos primeiros anos da ocupação humana deste Estado. Vou esperar pelos outros dois, pois sou fascinado pela história de Itacoatiara, a cidade dos meus sonhos da infância que abriga minha idealização do Principado de Itacoatiara.

******

Aqui, rendemos nossas maiores homenagens ao eminente amazonense que teve uma existência adornada de episódios, historiada de lavores de civismo e amor à Pátria. Em vida, ele deu o melhor de suas energias para engrandecer a Amazônia que conhecia e amava mais do que a si mesmo.

Ozório José de Menezes Fonseca, além de destacado cidadão do Amazonas, foi um grande defensor e fiel amigo de Itacoatiara. À sua passagem para a Eternidade, após um breve silêncio, cantemos com Antero de Quental: “Dorme o teu sono, coração liberto, / Dorme na mão de Deus eternamente”.

Compartilhar

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui