Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes

Terra preta da Amazônia, criada artificialmente há séculos, modificou diversidade de espécies da floresta.

Numa das muitas elegias sobre o passado lendário que fazem do romance de fantasia “O Senhor dos Anéis” uma leitura inesquecível, o elfo Legolas dá voz às pedras. Ao passar por uma região que um dia foi habitada por grandes arquitetos de seu povo, Legolas diz que é como se as próprias rochas ali falassem dos antigos habitantes: “Fundo nos escavaram, belas nos edificaram; mas eles se foram”.

O lamento rochoso seria improvável na maior parte da Amazônia, já que paredões de pedra são escassos por lá, mas o chão amazônico também tem memórias profundas de seus primeiros habitantes. São lembranças gravadas na própria composição química do solo, em sua fertilidade e nas árvores que crescem nele, conforme têm mostrado vários estudos ao longo dos anos.

Refiro-me ao que se costuma chamar popularmente de “terra preta de índio”, um tipo de solo escuro (como o apelido indica), rico em matéria orgânica e certos minerais que costuma destoar da terra avermelhada e acidificada que caracteriza a maior parte da Amazônia brasileira. Segundo algumas estimativas, até 3% do território amazônico corresponderia às manchas de terra preta existentes hoje, o que só parece pouco quando se esquece do tamanho colossal da região; na verdade, é muita coisa.

Tudo indica que a terra preta começou a se formar com mais intensidade na maior parte da bacia amazônica nos primeiros séculos da Era Cristã, numa espécie de relação simbiótica com os assentamentos indígenas, cada vez mais numerosos e populosos nessa época. (Esqueça a ideia da Amazônia pré-colonial “vazia”: calcula-se que, no momento do contato com os europeus, havia quase 10 milhões de pessoas vivendo na região.)

Ao que parece, diversos processos de manejo ambiental foram intensificando a formação desse tipo de solo. Descarte de fezes humanas e de carcaças de animais estão entre eles, assim como o de fragmentos de cerâmica, mas talvez o mais importante tenha sido a queima parcial e controlada de restos vegetais, o que encheu o solo de um tipo de carvão que ajuda a reter os nutrientes no solo.

A alquimia resultante dessa combinação de fatores foi tão poderosa que até hoje populações ribeirinhas da Amazônia, e até moradores de cidades, usam a terra preta para turbinar suas hortas. E um novo estudo indica que até a composição de espécies de árvores da floresta parece ter sido influenciada por esse solo produzido pela ação humana.

Na pesquisa, publicada na revista Global Ecology and Biogeography, Edmar Almeida de Oliveira e Ben Hur Marimon-Junior, da Universidade do Estado de Mato Grosso, junto com colegas da Universidade de Exeter (Reino Unido), estudaram trechos de terra preta em várias localidades dos territórios mato-grossense e paraense. Avaliaram o número de espécies e as características das plantas na vizinhança do solo “artificial” e em áreas de mata sem terra preta no entorno, bem como os detalhes do solo propriamente dito.

A equipe comprovou que as manchas de terra preta são mais férteis que os solos naturais próximos e verificou diferenças na composição de espécies: mais árvores com frutos comestíveis, como jatobá e taperebá, no solo escuro. Isso provavelmente vale para outras regiões da Amazônia, uma floresta cuja riqueza, em grande parte, é a de um imenso pomar indígena.

(PS: o trecho de “O Senhor dos Anéis” foi traduzido por meu colega Ronald Kyrmse.)

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo inserida no Caderno Ciência, de 27/06/2020.
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