Sua ação, à luz da sabedoria, nos revela uma mulher forte e até nos ensina pela força de sua inteligência do conhecimento de trabalho e de amealhar recursos da forma de seu esforço.

Nina Siqueira Benchimol – Porto Velho, 1920. Foto: Acervo de família

Na verdade ao lado de um homem encontra-se uma grande mulher, cujo trabalho promove ações luminosas. Esse foi o caso de Nina Siqueira Benchimol, que atuou sobre a vida dos filhos, alguns nascidos na floresta. Sua ação, à luz da sabedoria, nos revela uma mulher forte e até nos ensina pela força de sua inteligência do conhecimento de trabalho e de amealhar recursos da forma de seu esforço. De fato, tudo isso foi fortalecido na intimidade de uma vida a dois.

Foi a marca da mulher, cuja, existência foi definida por meio do trabalho, amparo aos filhos e ao marido, de baixo de tanta luz da religiosidade e dentro de tanto verde, com bondade e vocações solidárias.

Ela concordava com o trabalho, porém não com a condição de vida, intimamente condicionada aos acontecimentos marcados pelo crescimento dos dois filhos, sempre com a intenção de transformá-los em doutores e não seringueiros.

A respeito disso, escreveu seu capítulo de trabalho, costurando as roupas para o seringueiro, cujos pagamentos era com pequenas bolas de látex (sernambi), determinando assim uma acumulação de capital.

Na varanda, Nina Benchimol com Israel. Foto: Acervo de família

Toda sua atividade de costureira era guardada em um pequeno barracão no fundo quintal alimentando o sonho de sair do seringal. Os judeus, quais outras tantas raças buscaram lugares remotos na Amazônia para sobreviver.

Durante esse período, os dados históricos nos revelam que, quantitativamente, a maior contribuição dos seringueiros foi de natureza espontânea. Essa contribuição, tanto no domínio econômico, quanto técnico, profissional e cultural, é um tema que devemos entender como de suma importância para conhecer fatos históricos da nossa região.

Amealhando alguns recursos no trabalho de costureira depois de alguns anos sem ver os filhos, que se encontravam em companhia do tio em Belém do Pará, ela resolveu viajar para a capital paraense. De certa forma, foi o início de um novo momento naquela cidade. Logo em seguida, Isaac Israel Benchimol também deixa o seringal em fortaleza do Abunã e viaja para Belém.

Havia sinais de retorno à realidade, ao apregoar uma politica, não mais de valorização, mas, de uma estabilidade nos preços do látex. Nos meios políticos falava-se de uma progressiva, mas total extinção do tributo sobre a borracha, que seria substituída por um imposto sobre grandes posses:

Fortaleza do Abunã em 1930. Fonte: Alice Benchimol, memória fotográfica da Família Benchimol

“… A mudança de tom é fácil de compreender quando se lembram os efeitos nefastos e brutais eventos sobre finanças públicas. A receita do estado do Pará, que era de 20.255 contos de réis em 1910, reduz-se a 8.887 em 1915 e a 8.517 em 1920; a do Amazonas, de 18.069, cai para 7.428 e 5.888 respectivamente.”

 SANTOS, Roberto Araújo de Oliveira. História Econômica da Amazônia: 1800 à 1920. São Paulo: Editora T. Q. Queiroz, 1980. Pág.: 240.

 Nina Siqueira Benchimol e Israel Benchimol. Foto: Acervo de Família

As consequências foram tão profundas na econômia que tanto no Amazonas como no Pará apresentavam elevadas dívidas internas e externas. A política do Pará para conter ao máximo as despesas internas, mesmo as essenciais, para atender ao serviço do capital tomado no exterior, em meio a grande desordem das finanças domésticas. No Amazonas, não era diferente: a desordem financeira vinha de longe e tronou-se caótica. Isaac Israel Benchimol enfrentou, em Belém do Pará o desemprego; tudo isso mostra a dramaticidade da situação financeira que acompanhava a situação gumífera do período como recordaria Samuel Benchimol muitos anos mais tarde:

“… Quando eu nasci meu pai era um homem de posses, como se dizia então. Empresário, aviador de estivas e seringalista, com interesses ligados a seringais na fronteira do sudoeste amazônico, no Rio Abunã, lá para as bandas lindeiras de Rondônia e Acre.”

MARCOVITCH, Jacques. Pioneiros e Empreendedores: A Saga do Desenvolvimento do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. Saraiva, 2007. Pág.: 237.

 Avenida Sete de Setembro em Porto Velho na década de 70 — Foto: Museu da Memória Rondoniense/ Luiz Brito/ Reprodução

No decorrer de três anos, a família estava à beira da falência. Viviam no seringal Fortaleza do Abunã, Isaac, sua esposa, dona Lili e os filhos Israel, Rafael, Samuel e Alice.

Naturalmente, todo o desenrolar dessa década foi marcado por dificuldades econômicas graves em diversos anos, ocasionando importante queda da receita amazonense, a confusa administração financeira do Estado do Amazonas, a suspensão parcial dos pagamentos a magistrados e funcionários públicos, o descumprimento de obrigações comerciais por parte do governo. A queda dos preços do látex também lançava mais dificuldades neste cenário.

É nesse cenário, longe da família, que Isaac Israel Benchimol teimosamente acreditava salvar o que restava do seringal, à espera da possibilidade da retomada dos preços do látex. Um acidente forçou a decisão de abandonar o seringal. Descia o Rio Abunã no comando de uma barcaça carregada de látex e castanha resultado da produção, quando a embarcação foi ao encontro de alguns rochedos e acabou por naufragar.

Houve perda total da carga. Assim, perdeu tudo, foi à falência, não lhe restando outra saída se não partir ao encontro de sua esposa e filhos que já se encontrava em Belém do Pará, na casa da avó materna dona Alice Siqueira, na Travessa São Mateus, 165.

O Palácio Presidente Vargas foi inaugurado em janeiro de 1954. Até 2015 funcionou como a sede administrativa do Governo. – Foto: Museu da Memória Rondoniense/ Reprodução

“… Nesse ano negro de 1932, o preço da tonelada borracha caiu para trinta e quatro libras, a exportação baixando para 6.244 toneladas, no valor de 10.626.000$, comparando-se coo o auge do boom em 1910, quando o valor tonelada foi de 655 libras, a quantidade produzida de 38.547 e o valor total em mil réis foi de 376972000$, chega-se facilmente à evidencia da dimensão da catástrofe. Entre 1910 e 1932, a Amazônia havia perdido acima de 97% de seu produto interno bruto em termos de borracha, isto é, as 10926000$, de 1932, representavam nessa altura, menos de 3% do valor global de 376972000$ de 1910.”

MARCOVITCH, Jacques. Pioneiros e Empreendedores: A Saga do Desenvolvimento do Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. Saraiva, 2007. Pág.: 238.

 A essa fase dos acontecimentos, Samuel Benchimol já tinha idade para avaliar a grave situação que vivia sua família. Seu pai já não podia viver negociando por conta própria e a maioria dos empregos de contador como outros tantos, havia desaparecido no processo de crise do látex. A família encontrava-se estabelecida em Belém do Pará.

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Abrahim Baze
*Amazonense de Manaus. Graduado em História pelo Centro Universitário do Norte e pós-graduado em Ensino à Distância pelo Centro Universitário UNISEB-COC, de Ribeirão Preto/SP. Recebeu o título de Notório Saber em História, pelo CIESA, de Manaus/AM. Fundador e organizador dos museus da Sociedade Beneficente Portuguesa do Amazonas, Luso Sporting Clube, Rede Amazônica, Memorial e Biblioteca Senador Bernardo Cabral, Centro Cultural Luso Brasileiro do Amazonas, Centro Universitário Luterano de Manaus, Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos e do Atlético Rio Negro Clube. Diretor do Instituto Cultural da Fundação Rede Amazônica e apresentador dos Programas de TV: Literatura em Foco e Documentos da Amazônia. Autor de mais de 65 títulos sobra História da Amazônia. Membro da Academia Amazonense de Letras, Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, Academia de História do Amazonas, Academia de Medicina do Amazonas, Academia Maçônica de Letras do Amazonas, Associação Nacional de Escritores (Brasília), Associação dos Escritores do Amazonas e Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas.

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