Em primeiro lugar  nada mais démodé do que a lógica que ainda suporta a definição do pensamento política entre esquerda e direita. A hipótese é a seguinte: quem é de direita  e quem efetivamente é de esquerda? A dicotomia fazia sentido no tempo em que a honestidade de pensamento reformista combatia correntes imperialistas que só tinham em mente atropelar e sufocar nações e estratos sociais submissos.

O conceito advém das assembleias francesas do século 18. Nessa época, a burguesia procurava,  com o apoio da população mais pobre, diminuir os poderes da nobreza e do clero. Era a primeira fase da Revolução Francesa. A Assembleia Nacional Constituinte foi montada para criar a nova Constituição, e assim cunhou-se a noção de droite et de gauche.

As camadas mais ricas não gostaram da exaltação das mais pobres, e resolveram não se misturar, sentando separadas, do lado direito, a droite. Por isso, o lado esquerdo, à gauche, foi associado à luta pelos direitos dos trabalhadores e o direito ao conservadorismo e às classes altas.

Segundo o filósofo político Noberto Bobbio, os dois lados lutaram por reformas, a esquerda supostamente buscando a justiça social, e a direita, a liberdade individual.

Com o passar do tempo essa diferenciação perdeu sentido, pois nada mais conservador do que o imperialismo soviético, a ditadura do proletariado sob qualquer matiz.  E nada mais liberal, com viés social, do que o capitalismo inglês, francês, americano ou alemão, onde o fator mais importante diz respeito ao bem estar do cidadão, não a conquista de novos territórios, ou o massacre de forças políticas discordantes do status quo. Vide Cuba, Venezuela, Argentina, Coreia do Norte e outros regimes de força fundamentalistas.

As “esquerdas”, particularmente no Brasil, ainda buscam o elo perdido. Imaginaram havê-lo encontrado em 1917, na URSS, e em 1949, na China, de Mao, mas deu tudo errado. A queda do Muro, num caso, e as reformas de Deng Xiao Ping, no outro, deixaram claro e evidente que o caminho era outro. Aquele para o qual não importava a cor do gato desde que comesse o rato. Daí em diante tudo mudou no Reino do Meio, menos para o populismo expansionista putiniano, ao qual o Pt no Brasil é alinhado.

De fato, enquanto a China realiza uma tremenda reforma econômica e social, e, desta forma, assume a condição de segunda maior potência mundial, a Rússia e seus satélites ainda apelam para a velha lógica imperialista errática de crescimento territorial a qualquer custo como fator de desenvolvimento econômico.  A recente ocupação da Crimeia e as ameaças de invasão ao leste da Ucrânia constituem exemplos relevantes da lógica expansionista soviética.

O insólito da questão é que só eles, áulicos e seus seguidores sul-americanos (seguidores do bolivarianismo chavista) ainda se julgam ungidos pelo pensamento superior da sabedoria inconteste. Estão dando com os burros n’água mais uma vez.

O pressuposto Democracia x Comunismo explicita claramente que o poder no regime comunista é a ditadura, não a liberdade democrática. O Pt no Brasil deixou claro que, ao assumir o poder com Lula em 2003, tinha um projeto de poder, não de governo. Daí o desastre decorrente de seus governos que hoje relega o país às últimas posições de indicadores sociais e econômicos no ranking mundial – Idh, Ideb, Pisa, etc., e o alça ao topo dentre os países que lideram o índice de corrupção e carga tributária.

Por essa razão fundamental, porque sou visceralmente contrário a qualquer tipo de autoritarismo, desde os tempos de colégio jamais acreditei em suas premissas e objetivos ideológicos, ou seja, na coletivização, na ditadura do proletariado e em utopias semelhantes.

O sociólogo Chico Oliveira, um dos pais do Pt, do qual se desligou em 2003,  afirmava que o partido “como força transformadora foi engolido pelo atraso”.  Ele também dizia que os intelectuais brasileiros estudavam Marx, mas não conheciam o Brasil. Da mesma forma, o dramaturgo Nelson Rodrigues concisamente afirmava que toda unanimidade, como pretendem as “esquerdas”,  é burra. Quem pensa com a unanimidade, dizia, não precisa pensar. Basta seguir a manada.

Transpondo o assunto para o Brasil contemporâneo, há de se questionar: Afinal, o que é o PT? Responde-o Roberto Campos, economista, embaixador e ex-senador: “O PT é o partido dos trabalhadores que não trabalham, dos estudantes que não estudam e dos intelectuais que não pensam”.  Quanto às “esquerdas”, diagnosticando sua “árvore genealógica”, afirmava tratar-se “de filhos de Marx numa transa adúltera com a Coca-Cola”.

Somente isso pode explicar a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de “esquerda”, que admiram o socialismo, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar: Bons cachês em moeda forte, ausência de censura e consumismo burguês,  complementa o mestre Roberto Campos.

Esta, certamente, a “gênese” do Aerolula, das mordomias dos cartões corporativos, da fábrica de dossiês,  dos funcionários fantasmas do Senado, dos dólares na cueca, do mensalão, da compra de Pasadena, dos escândalos da Petrobras (o petrolão), das obras frustradas do PAC (começadas e jamais concluídas), da ocupação dos órgãos do governo por militantes do Pt e base aliada e os supersalários de Agências Reguladoras, dos escândalos que levaram à demissão de sete ministros, alguns reabilitados com todas as honras, da desmoralização do Congresso Nacional e do Poder Judiciário.

Enquanto o Pt se preocupa em apoiar o Hamas na Faixa de Gaza, o Bolivarianismo chavista, o controle da imprensa na Argentina, a política imperialista e expansionista da Rússia; tolerar a decapitação de jornalistas americanos por jihadistas  do Estado Islâmico no norte do Iraque e afastar-se dos países avançados em tecnologia, o Brasil enfrenta séria crise econômica que ameaça as conquistas do Plano Real, desde a proteção do sistema financeiro, à lei de responsabilidade fiscal e à estabilidade da economia, ora ameaçada pelos baixos índices de crescimento e a contínua elevação da inflação.

Pessoalmente, conheço e admiro diversos pensadores, escritores, historiadores, professores e pesquisadores esquerdistas honestos, estudiosos, trabalhadores, criativos e comprometidos com a verdade histórica, o pensamento filosófico e político como força da evolução do pensamento; como também conheci e conheço alguns “esquerdistas”  fanáticos, radicais e intolerantes que não admitem contraditório. Lobos camuflados em pele de cordeiro, usualmente professores improdutivos, administradores incompetentes e frustrados que nada constroem. Cavaleiros da desesperança, por se deixarem consumir pelo ódio ideológico às liberdades democráticas, encaixam-se perfeitamente sob essa carapuça.

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Osíris Silva
O economista Osíris M. Araújo da Silva é consultor de empresas, ex-secretário Municipal de Economia e Finanças da PMM, ex-secretário da Indústria, Comércio e Turismo e ex-secretário da Fazenda do Amazonas. É presidente da AMAZONCITRUS – Associação Amazonense de Citricultores, membro do Grupo de Estudos Estratégicos Amazônicos (GEEA), do INPA, e articulista econômico de A Crítica.

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