Quem pensar que isso foi modificado nos anos getulistas se engana redondamente, posto que, nessa fase, além da brigalhada havia a censura rigorosa e sem piedade.

Não é de hoje que a imprensa brasileira, pelo País todo, vem sendo carimbada de partidária ou apartidária deste ou daquele político ou políticos que estejam em evidência, ou de vinculação a qualquer agremiação que esteja no poder ou venha a disputá-lo. A respeito, ao que se sabe, há muitas histórias a contar, algumas das quais, no caso amazonense, remontam a tempos do Império do Brasile que chegam ao empastelamento de jornais, incêndio proposital de oficinas, prisão de seus diretores, jornalistas e proprietários, e até a baita surra aplicada em meio a Avenida Eduardo Ribeiro, em forma de corretivo.

Foi assim com os conservadores no governo quando os liberais partiam para cima com tacape, arco e flecha, ou quando, no sentido inverso, os liberais estavam em posição de mando e os conservadores não titubeavam em assacar todas as agressões – verdadeiras ou não, contra os seus líderes. E, certa feita, isso se deu até mesmo entre as divisões internas do Partido Liberal em disputas que levaram a uma luta quase sanguinária entre os próceres da mesma entidade política e foram capazes de inviabilizar uma ou algumas administrações liberais na província do Amazonas.

Esse cenário não se modificou com a República, e, de certo modo, foi ampliado de forma agressiva principalmente entre os Democratas e os Nacionais, partidos que se formaram logo após a notícia do golpe militar de 15 de novembro de 1889, ali pelo dia 25, dois ou três dias depois dos manauenses tomarem conhecimento de que havia sido implantada a República e Deodoro da Fonseca era o chefe da Nação. Por toda a chamada Primeira República (1889-1930), essa foi a tônica, especialmente nas maiores cidades do país e, notadamente, nas capitais de estados.

Quem pensar que isso foi modificado nos anos getulistas se engana redondamente, posto que, nessa fase, além da brigalhada havia a censura rigorosa e sem piedade; e no período constitucional iniciado em 1946 a situação foi agravada, principalmente porque a posição de muitos dos órgãos de imprensa não ficava bastante clara para os leitores, dependendo, sempre, dos grupos políticos que estivessem no poder e de suas relações.

Uma diferença importante que pode ser destacada na apreciação do assunto, sem dúvida, é a mudança radical que se passou da Monarquia e Império para a República, precisamente quando os jornais – que eram os principais veículos de informação geral ao público, muitos deles com grande prestigio nacional, inclusive – os jornais deixaram de registrar na capa de suas edições, a qual partido político estavam vinculados, como sucedia no período imperial.

Essa indicação oficial facilitava a compreensão que o leitor poderia fazer sobre o tom e o fundo das matérias, o conteúdo dos textos dos articulistas, a razão de ser do editorial, enfim, havia uma clara definição de linha do jornal, a ponto de não deixar dúvidas ao leitor comum.

Um aspecto que pode ser considerado como relevante no pós constituinte de 1988 é a multiplicação de interesses empresariais que podem, em certos casos, estar contidos em matérias jornalísticas, assim porque a grande maioria dos grupos de comunicação social estenderam seus tentáculos comerciais a outros setores da vida nacional, sem que seja possível identificar, com clareza, essas ramificações, e podem, independentemente da vontade e percepção do profissional de imprensa (o verdadeiro jornalista em si), valer-se dos seus veículos de imprensa para conduzir a opinião pública a favor de maior fortuna, e não da verdade e da notícia de interesse coletivo.

o mesmo modo, não há que se desconsiderar a malícia, a estratégia e o conjunto de vontades e interesses políticos – no sentido pessoal e não coletivo – que pode estar rondando as posições defendidas pelo líder de governo ou chefe de partido, ludibriando a opinião e boa fé pública ao carimbar a imprensa como partidária de outrem.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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