“Tudo era feito sem medida e critério para a propagação da imagem do líder popular e, no caso brasileiro, do pai dos pobres e redentor dos trabalhadores”. 

Para o presidente Getúlio Vargas e seus liderados não bastaram a deposição do presidente da República e a ruptura das oligarquias ‘pelo País afora depois de consolidada a revolução de 1930. Era preciso fixar a imagem do presidente como grande líder nacional e transformador.

Com este objetivo, além dos discursos em cadeia de rádio para amplo alcance, da ocupação sistemática dos jornais, não só nos grandes centros urbanos como nas pequenas cidades e nas capitais de estado, espalhou-se homenagens com denominação de Vargas para ruas, praças, jardins e qualquer outro tipo de logradouro público,

Como se não bastasse, enquanto isso, seja por iniciativa dos palacianos, a pedido do próprio ditador ou por bajulação de artistas, era comum a circulação de enormes quadros em óleo sobre tela com o ditador em pose presidencial, e, quase que ao mesmo tempo, a ampla distribuição de escultura, tipo busto, do chefe da Nação.

Em Manaus, por exemplo, além da denominação de avenidas, ruas, praças, parques, vielas, becos e bairro que proliferou, dos que conheço, há três bustos distribuídos no Centro Cultural Palácio Rio Negro, no Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas e no Centro Cultural Palácio Rio Branco, este que foi sede do departamento – das Municipalidades, secretaria de Justiça, Museu de Numismática e Assembleia Legislativa.

O busto foi elaborado por Hildegardo Leão Veloso, importante escultor que deixou significativas obras como o mausoléu da Marinha Brasileira, monumento á Pinheiro Machado, estátua equestre do general Osório, estátua de Tamandaré, todos no Rio de Janeiro, e adornos ao túmulo de Cruz e Souza, em Santa Catarina.

O busto de Vargas foi multiplicado em centenas de cópias para ampla distribuição, até por cemitérios, em muitos dos quais foi costume, no dia 24 de agosto, haver romaria em razão de ser a data de seu falecimento, e no dia definados ainda é comum que haja o comparecimento de pessoas para orações eacendimento de velas.

Curioso saber que juntamente com telas primorosas de Portinari, amostras de madeiras, minérios, tecidos, tapetes, goiaba em calda, café e obras da Coleção Brasiliana levadas para a Feira de Nova lorque e em exposição no pavilhão de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, também estava lá o grande Getúlio, não se sabe se como símbolo ou como produto nacional.

Foi o que viram todos os que. ali compareceram naquele dia 30 de abril de 1939, quanto da Inauguração da feira.

Era de tal ordem o esforço de propagação de seu nome e imagem que chegaram a fazer broche para lapela de paletós com a miniatura do seu busto, adereço social que foi bastante utilizado por muitos anos, mesmo depois que ele deixou o poder e após sua morte, notada mente pelo mais apaixonados trabalhistas e varguistas.

Não era invenção brasileira. Outros líderes ditatoriais da época também adotaram esta providência.

A imposição da palavra pelos alongados discursos retransmitidos e repetidos com insistência, as fotos em jornais, revistas e panfletos, e até filmes conforme as possibilidades da tecnologia daqueles anos.

Tudo era feito sem medida e critério para a propagação da imagem do líder popular e, no caso brasileiro, do pai dos pobres e redentor dos trabalhadores.

A repercussão da imposição da imagem dos governantes chega aos dias atuais, mesmo com menor ‘incidência, mas isso serve para sinalizar uma época, demonstrar a força de sua expressão política e social, reforçar os conceitos mais modernos de impedimento da promoção da imagem dos agentes públicos conforme a Constituição, em ‘contraste com uma tradição da história brasileira que ainda se traduz, de forma disfarçada, pela aposição dos retratos dos prefeitos, governadores e presidentes da República em repartições e escolas.

O que sucedeu com Vargas foi muito além disso.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

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