“Agora sei que o homem é capaz de grandes ações. Mas se não for capaz de um grande sentimento não me interessa”. A peste, de Albert Camus, Nobel de Literatura.”

A angústia existencial que tomou conta da Humanidade, castigada pela pandemia, nos isolou e paralisou a muitos, escurecendo os horizontes, nos empurrando à reflexão ou à intuição de que, diante de uma peste, como a Covid-19, somos iguais. Jusdem farinae, farinha do mesmo saco, como diziam os latinos. Alguns de nós não suportam essa descoberta. Tombam com a ansiedade, são tragados pela depressão e não conseguem sorver as lições que este momento nos tem oferecido. Lições importantes que, se assimiladas, nos transformariam em outras pessoas, mais conscientes da finitude da vida, da diferença entre o acessório e o essencial e convencidos que a felicidade não mora nas gôndolas. E é nesse momento que cabe perguntar: “como encontrei o mundo e de que forma vou deixá-lo?”. Em outras palavras, o que fiz para deixar a vida melhor do que a encontrei? Passado o tsunami viral, se essas indagações nos invadiram, provavelmente iremos ficar mais focados na simplicidade da existência, mais atentos ao que realmente importa e capazes de responder à questão sobre o que é perene e o que é banal ou descartável na galeria dos valores. Numa palavra, podemos ser, tomara!, menos exaltados, oxalá, mais humildes!

Legados de sabedoria

E o que significa ser mais humildes? Os latinos, entre os legados de sabedoria que nos deixaram, deram força e raiz para alguns termos. Beber dessa fonte de inspiração é certeza de chegar mais perto do enigma humano. Por isso, é senso comum dizer que eles aplainaram os caminhos que nos levam a descobrir a alma, condenada a se mover pela força da paixão e pela compaixão, propriamente, isto é, aquilo que nos move em direção à vida, à energia de viver e conviver. E é na herança latina, referendada e influenciada pela Boa-Nova do Nazareno, temos a chave para decodificar o sentido mais fecundo do termo humildade e sua conexão com a etimologia da solidariedade.

Homo-humus-humilis

O escritor Antônio Farjani, no livro “A Linguagem dos Deuses”, infere que no cotidiano do Olimpo a ordem é compartilhar, sem outras intenções, os saberes e inquietações da condição humana. E o pano de fundo dessa linguagem/verdade, onde não há lugar para vaidade nem hipocrisia, decorre da equação: Homo-humus-humilis, isto é: a existência humana se origina da Terra, húmus, e a ela retornará. Essa ilação dos latinos se inspira e amplia o sentido do primeiro livro das Sagradas Escrituras, o Gênesis: “Tu és pó e ao pó retornarás”. Daí decorre o termo humildade, valor de quem conhecer as próprias limitações e fraquezas e atua de acordo com essa consciência. É a qualidade daqueles que não tentam se projetar sobre as outras pessoas, nem mostrar ser superior a elas.

Se temos o mesmo Pai

Por essa condição, vem à tona o sentido do maior equívoco das pessoas ao longo da história da humanidade: a patologia humana de querer ser melhor do que seu semelhante. Para os teólogos, este é o maior pecado do mundo, pois – se temos um Pai comum, que é Deus – somos todos iguais, entre os que professam a mesma compreensão religiosa, embora a origem da condição humana supere a dimensão religiosa e suas diversas interpretações. O reconhecimento da humildade, contrariando os paradoxos darwinista da origem das espécies, é essencialmente uma atribuição humana, demasiadamente humana, como diria Nietzche. Achar-se melhor do que o outro significa que eu posso fazer com ele o que bem entendo, usá-lo, enganá-lo, excluí-lo… Afinal, eu sou o cara e ele não! E isso é a mais tosca das distorções.

“Há algo de inefável”

Quando Einstein se deparou com o enigma do universo, num de seus insights memoráveis, em lugar de apressar-se com uma explicação inconsequente, que iria ser aceita pela força de seu prestígio, foi honesto e humilde ao afirmar: “por detrás da matéria há algo de inexplicável”. Ser humilde é admitir as próprias limitações e renunciar à vaidade de dizer a todos: “Eu sou e eu moro fora da caixa”, no sentido narcisista, ególatra e dogmático da expressão. Hélder Câmara, um bispo nordestino identificado com a humildade de sua (nossa gente), num sermão em praça pública, município de Jaboatão dos Guararapes, nos idos dos anos 70, assim cutucou a arrogância humana: “Não existe rico que não tenha o que aprender nem pobre que não tenha o que ensinar”. A frase marcou minha juventude e reverbera em minha mente até os dias de hoje.

Somos todos iguais (?)

Se todos nos originamos do pó, e a ele retornaremos, somos todos irmãos, não apenas na condição humana, mas na diversidade de talentos e habilidades, que nos foram doadas pela Vida. Esse legado, porém, não se destina a humilhar ninguém, enterrar (esconder, eliminar…) ou fazê-lo voltar, por nossa arrogância, à condição de pó, como se de nada valesse. Estar atento a esse princípio, abrir a mente para ampliar sua compreensão, provavelmente resultará no aumento da tolerância, expansão da acolhida e cultivo da humildade, o maior nutriente da solidariedade. Isso se aplica no trato das relações pessoais mas bem poderia virar parâmetro da necessária superação das desigualdades regionais entre o Norte e o Sul do país. Assim procedendo, juntos e comprometidos, teríamos tudo a ganhar a partir de uma solidária interlocução, sem preconceito nem discriminação. Afinal, somos ou não queremos ser uma Nação?

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Alfredo Lopes
*Escritor amazonense, com 11 títulos sobre a Amazônia, e mais de 2 mil ensaios. Formado em Filosofia com pós-graduação em Administração e Psicologia da Educação. Consultor eventual do BID, Grupo Simões, do CIEAM e diretor da FIEAM.

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