*Claudia Costin

Com o fim de 2020, de forma ingênua ou não, nutrimos esperanças de tempos melhores.

Num livro publicado em julho de 2020, “Twilight of Democracy” (O crepúsculo da democracia, em tradução livre), Anne Applebaum, uma jornalista americana, conta sobre a grande festa de virada de ano em 1999 que organizou na Polônia, onde trabalhava. Lá, amigos poloneses e de diferentes partes do mundo confraternizaram e juntos desejaram novos tempos mais prósperos, harmoniosos e felizes.

Mas o novo milênio não traria harmonia entre os participantes da festa, segundo a premiada autora. Alguns anos depois, muitos dos amigos ali presentes não atenderiam seus telefonemas e ela mesma confessaria mudar de calçada quando os via na rua. A Polônia mudara para pior, e, infelizmente, boa parte do mundo também.

O que Applebaum busca analisar no livro é o que teria levado um mundo que começava a fortalecer instituições democráticas, uma estratégia de pesos e contrapesos, com um Judiciário independente e uma educação sólida para a construção de sociedades mais dinâmicas, em direção a uma distopia expressa em governos populistas, sociedades intolerantes e sistemas políticos polarizados.

Ao pensar no ano que inicia, lembrei-me dessa estranha comemoração na Polônia e suas sequelas, mas também de outras perdas que tivemos. As festas de despedida de 2020 foram restritas, dada a pandemia, e a tradicional sensação de ausências, tão bem descrita na composição de Sérgio Bittencourt em “Naquela Mesa” para homenagear seu pai, Jacó do Bandolim, foi aumentada pela falta dos que, embora vivos, pudemos ver só com auxílio da tecnologia.

Com o fim de 2020, de forma ingênua ou não, nutrimos esperanças de tempos melhores. O desejo de que a pandemia acabe, a logística da vacinação funcione, as aulas presenciais possam ser retomadas e a economia se recupere, mesmo que lentamente, está na mente de muitos.

No entanto, quero mais: que a brutal desigualdade social do país volte a diminuir, mesmo em tempos de Revolução 4.0, que a escola seja transformada e que o ódio reinante, nas redes sociais e fora delas, não se fortaleça. Que nunca mais alguém negue a dor do outro, ridicularizando quem sofreu tortura ou menosprezando os que perderam entes queridos para a Covid.

Para tanto, teremos que enfrentar o fenômeno que Anne Applebaum chamou de “o apelo sedutor do autoritarismo”, que, além de oferecer saídas simplistas ou mágicas para problemas complexos, discursa contra a própria corrupção que pratica e disponibiliza acesso privilegiado a postos na burocracia, e mesmo fora dela, em troca de lealdade, não de competência. Afinal a dura faina de governar não seria estritamente necessária…

*Professora. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 01/01/2021.
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