A distribuição espacial da população nas diferentes regiões das cidades
A distribuição espacial da população nas diferentes regiões das cidades
claudio bernardes
*Claudio Bernardes

Centros urbanos mais ricos tendem a ser menos densos que os mais pobres.

As disparidades existentes na distribuição espacial da população nas cidades, em muitos casos, têm fortes fundamentos econômicos. A capacidade financeira das famílias de adquirir imóveis em determinadas regiões define o padrão de ocupação regional estratificado por renda.

As desigualdades espaciais de renda diminuem a probabilidade de que membros de diferentes grupos interajam socialmente uns com os outros, limitando a mobilidade econômica. Uma proporção significativa de empregos é encontrada por contatos pessoais, especialmente entre jovens e trabalhadores pouco qualificados.

Segundo relatório publicado pelo Banco Mundial, a estrutura urbana monocêntrica tradicional evoluiu para uma nova distribuição espacial à medida que os empregos começaram a se deslocar para fora de regiões centrais das cidades, formando estruturas urbanas policêntricas.

Nos EUA, a proporção de empregos nas dez maiores regiões metropolitanas –cidades centrais– diminuiu de quase 70% em 1970, para 57% em 1980, 51% em 1990 e 47% em 2007. A suburbanização e a policentricidade não estão tão avançadas em outros lugares, mas a tendência é que as cidades dos países em desenvolvimento tenham trajetória semelhante.

Há também diferenças regionais relacionadas às características étnicas. Tem sido comum, em várias cidades, imigrantes de uma mesma origem geográfica se aglomerarem em determinadas regiões. Ainda segundo o relatório publicado pelo Banco Mundial, em Paris, por exemplo, 32% de todos os residentes teriam de ser realocados para que fosse possível conseguir uma mistura residencial uniforme entre franceses e imigrantes na cidade.

Outro fator importante na distribuição espacial das cidades é a densidade populacional. Pesquisadores da Wisconsin Schoolof Business, nos EUA, estudaram por mais de duas décadas a mobilidade da densidade populacional no espaço intraurbano e outros fatores associados em 57 cidades de 32 países com diferentes níveis de desenvolvimento.

Os resultados mostram que muitas cidades de grande porte têm as maiores densidades localizadas a um ou dois quilômetros da região central, uma vez que, pelo seu modelo de desenvolvimento, utilizam grande parte da área de seus centros financeiros para escritórios e outros usos não residenciais. Os dados indicaram também que as cidades mais ricas tendem a ser menos densas que as mais pobres.

As cidades que mais se afastaram do modelo padrão foram aquelas onde mecanismos regulatórios de uso e ocupação do solo definiram-se sem nenhuma conexão com as regras de mercado, como Moscou e São Petesburgo.

A Cidade do Cabo, na África do Sul, que teve seu desenvolvimento orientado pelo apartheid, também se afastou das premissas de mercado, o mesmo acontecendo em Brasília, planejada como novo centro urbano. Outras também se afastaram do modelo, como Seul, capital da Coreia do Sul, que, embora caracterizada como economia de mercado, apresenta ambiente regulatório de uso e ocupação do solo extremamente complexo.

Outra conclusão importante foi que a estabilização dos gradientes de densidade ocorre de forma bastante significativa: à medida que a renda se torna mais uniforme, a população se estabiliza e diminuem os custos com transporte.

Esses estudos e conclusões são de extrema importância para o conhecimento mais abrangente dos mecanismos que orientam a forma de distribuição da população nas diferentes regiões na cidade. Isso permitirá que sejam desenvolvidos modelos eficientes para prever os resultados de determinadas ações de planejamento, que objetivam orientar a melhor distribuição espacial no tecido urbano.

*Engenheiro Civil. Artigo na Folha de São Paulo, de 23/07/2018.
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