*Mirian Goldenberg

Muitos brasileiros se acham superiores por não se sentirem minimamente responsáveis pelas desgraças que estão acontecendo no país.

Na minha pesquisa tenho encontrado dois tipos de personalidades opostas: os “100% culpados” e os “sem culpa”.

Os “100% culpados” são aqueles que se culpam por tudo o que acontece com os outros e que se sentem os principais responsáveis por cuidar de todo mundo. Os “sem culpa” são aqueles que responsabilizam os outros por todas as suas mazelas e que nunca se sentem culpados por nada. Obviamente existem inúmeras variações entre os dois extremos.

Os “100% culpados” acham que são os maiores responsáveis pelos problemas e desgraças que acontecem ao seu redor. Sofrem por não serem “100% perfeitos”, como uma professora de 45 anos:

“Sempre acho que sou a principal culpada por tudo o que acontece de errado. Se meu filho fica resfriado, me culpo por ter saído com ele em um dia frio. Se minha mãe está deprimida, me culpo por não conseguir fazê-la feliz. Se meu marido quer transar, me culpo por estar exausta. Se um aluno não presta atenção na aula, me culpo por ser uma péssima professora. Me sacrifico demais para fazer tudo perfeito, mas nunca consigo. E sofro com o mínimo errinho que cometo. É uma tortura ficar o tempo todo me sentindo culpada: não fiz tudo o que podia, não fiz tudo o que devia, não fiz 100% certo, sou uma bosta.”

Já os “sem culpa” nunca admitem nem enxergam os próprios erros. Sempre acham que são os únicos que estão certos e que o mundo inteiro está errado. Como disse uma jornalista de 51 anos, eles não se sentem “nem 1% responsáveis pelas cagadas que fazem, acham que podem fazer qualquer merda e que se foda o resto da humanidade”:

“Minha prima fez um monte de cagadas e o marido acabou indo embora. Para ela, e só para ela, a culpa é 100% dele. Ela reclamava o tempo todo, brigava, exigia mais e mais, deixava o cara maluco. Ele fazia tudo o que ela queria, mas ela achava que merecia muito mais. Humilhava o coitado na frente de todos. Xingava de neurótico, doente, fracassado, mesquinho, muquirana porque ele não lhe dava uma mesada maior. Ela acha que é o centro do universo, e que todos devem fazer tudo o que ela quer. Tanta gente morrendo e ela só está preocupada com o próprio umbigo. É egocêntrica, narcisista, parece uma psicopata. Completamente cega para os próprios erros”.

*Antropóloga e professora. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Folha Corrida, de 07/10/2020.
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