Que relação existe entre a definição dos caminhos que queremos para a Ciência, Tecnologia e Inovação no Amazonas com as manifestações de milhões de brasileiros pelas ruas do país, neste 15 de março, tão simbólico para a retomada da Democracia?  Os manifestantes gritavam nas ruas sua indignação com a corrupção assustadora que tem açoitado o Brasil nas últimas décadas. Entre as lições do evento, ficou a certeza de que é possível aplainar caminhos mais adultos e conscientes do exercício democrático e fazer da indignação uma ferramenta de mudança. De quebra, restou a percepção de que a política não é necessariamente corrupta e que seu desempenho em outro nível pode ser a chave dos avanços da participação social. Cabe lembrar, a propósito,  uma frase de Marina Silva, ex-petista e conhecedora, em sua história, dos meandros da exclusa social e do poder: “A corrupção não é um problema da Dilma, do Lula, do Fernando Henrique, nem do Collor, nem do Sarney. A corrupção é um problema nosso. Enquanto se achar que o problema é deles, vamos continuar a ter corrupção feia. No Brasil, quando decidimos que a escravidão era um problema nosso, acabamos com a escravidão e quando decidimos que a ditadura era um problema nosso, reconquistamos a democracia”. Apenas acrescentaria: quando decidirmos, em conjunto, os caminhos da mudança, que implica numa conversão de atitudes, iremos formular em mutirão um Programa/Plano Estadual/Regional/Amazônico de Ciência, Tecnologia e Inovação, transformando-o em fator de um novo tempo.

Após semanas de conflito em cima da hipótese de eliminação da pasta de Ciência, Tecnologia e Inovação, um dos mais afoitos críticos do governo,  verdadeira trombeta a gritar contra a junção racional de Planejamento, com Ciência e Tecnologia, é premiado com a Secretaria Nacional de Ciência, Tecnologia e Inclusão social do governo federal. A decisão implica, mantido o paradigma reinante, a permanência do tratamento hostil no trato com os atores estaduais. Essa tem sido uma conduta – atestado da imaturidade democrática reinante – que tem-se repetido na leitura e atitude vesga da relação entre política e gestão pública, onde atores do pacto federativo, que divergem na área política partidária, tratam-se como inimigos na gestão do interesse público. São condutas próprias daqueles que fazem do serviço público uma área de seu quintal. É importante lembrar ainda que esta foi a metodologia de esvaziamento da Suframa, onde os atores misturaram os alhos da questão eleitoral com os bugalhos da gestão cotidiana daquela autarquia, ajudando na perda do bonde da legalidade e a autonomia de sua autoridade para usar as verbas não-orçamentárias que recolhe, para cumprir o que a Constituição lhe confere.

A ZFM se desindustrializa e não há tempo nem faz sentido priorizar a futrica política em detrimento do interesse comum. Os cientistas, educadores, os empresários padecem da mobilização proativa na busca de saídas, uma função do gestor público e da classe política como um todo. Afinal, é da ZFM que sai a maior parte do ganha-pão geral. Daí a importância de aproximar academia e setor produtivo, suas entidades e demandas. Além da UEA é preciso mobilizar as demais instituições de ensino, pesquisa e extensão para formular o Plano Estadual/Regional de Ciência, Tecnologia e Inovação, coerente com a bio e geodiversidade da identidade natural e cultural amazônica. Sem preconceitos nem arrogância no trato interpessoal e institucional. Antes de estabilizar o clima e proteger a floresta, parece que é preciso salvar a relação das pessoas, corrompidas por um individualismo obtuso. Essa corrupção micro pouco se distingue, na natureza, da macro distorção. Trabalhar pela correção da corrupção nossa de cada dia pode ajudar a evitar – com escolhas políticas transparentes – a corrupção que corrompe a brasilidade que somos nós. As manifestações de ontem demonstraram que somos capazes de defender objetivos comuns, portanto de ter esperança num país mais transparente, onde o outro somos nós e o que importa na relação é resguardar o interesse de todos, sagrados e assegurados na caminhada de cada dia.

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Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo e ensaísta. Consultor do Centro da Indústria do Estado do Amazonas - CIEAM.

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