Criado o Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas por uma plêiade de intelectuais em sua maioria maçons de destaque, em março de 1917, era preciso dar-lhe vida. 

Todos os esforços passaram a ser dispendidos nesse sentido, inclusive usando de expediente bastante comum naqueles anos que era a compra de crédito de fornecedores e funcionários, junto ao tesouro do Estado.

Pode parecer incrível, mas havia credores privilegiados, e um desses foi o Instituto Histórico que, precisando de recursos para estruturar a sede e seu funcionamento, em junho de 1917 adquiriu por 375$000 (trezentos e setenta e cinco mil reais) o credito de 1:126$000 (Um mil, cento e vinte e seis contos de reis) que pertencia a João de Oliveira e Silva, Francisco Grillo  da Anunciação e Raimundo Soares de Souza, conseguindo, com isso, formar um caixa considerável porque, ao que se sabe, tal crédito  foi imediatamente pago por ordem do governador Bacellar. Ou seja, só havia recursos dos cofres estaduais para pagar alguns poucos e amigos preferenciais do poder, e nisso o IGHA se beneficiou naquela ocasião.

Com tais recursos, e outros que que foi conseguindo dentre os sócios, teve condições de equipar e mobiliar o prédio-sede, contratar seus primeiros funcionários que foram o amanuense Joaquim Gondim de Albuquerque Lins e o porteiro-zelador Antônio C. Carneiro; mandar fazer o escudo de ferro galvanizado na funilaria Italiana, de Francisco Celano Raphael, na Av. Eduardo Ribeiro, 59, a mesma que se encarregava de outros serviços como peixeiro, encanações de chumbo, cobre, ferro e realizava obras de funilaria; encomendar a tela pintada a óleo representando o belo diploma e a pintura do escudo para a fachada do prédio o qual ainda encontrei altivo na janela superior e central do prédio quando lá cheguei há mais de 44 anos.

Logo depois e com outros recursos foram adquiridas estantes, em madeira de lei, para livros, mapotecas e poltronas em palinha, tábuas, capachos e cabides comprados a Adrião, Barroco & Cia… Bem escolhidas foram as estantes para livros, tribuna para o salão nobre e vitrines com vidro e espelho, todos fabricados na Marcenaria Modelo, premiada na exposição internacional de Turim de 1911, montada em Manaus com as máquinas mais modernas para a época e movida a eletricidade.

Lamentável que tenha sido perdido com o tempo, sem que possua qualquer referência, o imponente quadro em óleo sobre tela do marechal Deodoro da Fonseca que foi transferido da sede da Guarda Nacional para o prédio do Instituto em junho de 1918, bem como um lote de objetos indígenas e uma lanterna fotográfica que foram adquiridos em leilão do agente José Camilo Ramos.

Os retratos de personalidades da história nacional, ainda agora dispostos no Salão Nobre Dom Pedro II – ali recolocadas quando tive oportunidade de restaurar o prédio -, foram comprados na Galeria Passe-partout, de Alberto M. Migueis, situada na Rua Barroso, fundada em 1912 e que fazia ampliações à foto-crayon e a óleo e utilizava molduras nacionais e estrangeiras. Logo em seguida foi realizada a ornamentação das paredes e forro do Salão, tal como ainda se encontra, ricamente decorado pela firma Manoel Mesquita que era armador e colchoeiro, situado na rua Municipal, 92.

Esses registros vêm a propósito de reconstituir os primeiros momentos de vida do Instituto que no próximo dia 25 de março completa o centenário de fundação, aliás a primeira instituição cultural a alcançar data tão relevante em nossa terra.

Compartilhar
Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ex-Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até 2017 e atual Presidente da Academia Amazonense de Letras.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário
Por favor informe seu nome aqui