O tema da castanha do Brasil, da Amazônia, ou do Pará, associado ao combate do Mal de Alzheimer, chama necessariamente à atenção num país onde os idosos cresceram 11 vezes nos 60 últimos anos, aproximando-se de 20% da população. Em 2025, serão 64 milhões. É preciso, porém, alertar sobre a dose diária do selênio existente na castanha, não mais que uma.   O aumento da dose não está associado ao aumento de seus benefícios. A pesquisa de Bárbara Cardoso, orientada por Silvia Cozzolino, farmacêutica da USP, utilizou as castanhas da Agropecuária Aruanã, de Itacoatiara, no Amazonas, que adota tecnologia de desidratação e controle recomendada pelos padrões internacionais de segurança alimentar. O projeto, de acordo com seu idealizador, Sérgio Vergueiro, tem sido acompanhado desde sua origem, há quase 4 décadas, pela Embrapa-Amazônia, desde quando se chamava Instituto Agronômico do Norte, na figu ra de Carlos Hans Muller, além do Inpa e USP. O selênio, um mineral especial na proteção do cérebro, é capaz de conter a farra dos radicais livres, e de retardar o surgimento de doenças neurodegenerativas, ajudar no combate à obesidade, diabete e doenças renais.  Em excesso, mais cedo ou mais tarde, o exagero rotineiro desembarca na toxicidade, o lado obscuro do selênio, dizem os cientistas. Cabe lembrar ainda que castanhas submetidas a altas temperaturas para desidratação perdem o teor dessa emblemática sustância. 

Em setembro, com pesquisadores locais, Silvia Cozzolino, a convite da UEA, vai debater os aspectos nutricionais da castanha e as demandas de pesquisas para ampliar o cardápio de benefícios da Bertholetia excelsa, cujas propriedades de rejuvenescimento se estendem à fitoterapia e dermocosmética, a indústria da beleza permanente, a vocação amazônica da bioindústria entre as mais rentáveis. Em dezembro, em parceria com as instituições locais, o ISIC, Instituto Schulman de Investigação Científica, especializado em Cosmética, vai promover também uma jornada de biotecnologia denominada bioindústria-escola, para atrair empreendedores e investidores no setor. Os tempos de recessão, dizem os indicadores, são os mais lucrativos para a indústria de beleza. O fenômeno, conhecido como “Índice Batom”, foi percebido com o aumento nas vendas em 2001, com os Estados Unidos devastados pela crise advinda com a queda das Torres Gêmeas. No Brasi l, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal e Perfumaria (Abihpec), no ano de 2010, quando a economia do país cresceu 7,5%, o setor faturou R$ 29,9 bilhões. Com a previsão para crescimento do PIB de 2014 em 0,15%, a expectativa confirmada do setor foi de R$ 42,6 bilhões. Ou seja, 42% a mais. 

Nutrição, entretanto, é o segmento prioritário da economia e principalmente da academia, na ótica da saúde pública. Obesidade, diabetes, cardiopatias, doenças hepáticas e gastrointestinais estão na raiz de nutrição inadequada onde os produtos industrializados – mesmo beneficiando itens naturais nobres em nutrientes e higidez – se destacam pelos danos provocados pela ênfase no critério do lucro, muito mais do que na  qualidade e a segurança alimentar que se impõem. Temos uma biodiversidade fecunda em alimentação saudável e deliciosa ao paladar à espera de uma aliança robusta entre o saber e o fazer, entre as pesquisas e a produção, seus benefícios e riscos. São múltiplas e promissoras as variações e promessas do açaí, guaraná, pupunha com sólido potencial de mercado. Além delas, o camu-camu, procurado por seu elevado teor de vitamina C, é uma das frutas amazônicas que faz parte da pesqui sa da Esalq -Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz,  da USP, com a intenção de aumentar o tempo de prateleira do produto e permitir que ele possa ser comercializado em outros Estados. Nesse portfólio estão ainda o abiu, a fruta do silêncio, que gruda os lábios da discrição, o bacuri ou bacupari, o araçá-boi, entre outras, que ilustram o sabor, as oportunidades nutritivas e as novas matrizes da economia sustentável amazônica, na rota da castanha-do-Brasil, da memória e do sonho de prosperidade geral.

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Alfredo Lopes
*Escritor amazonense, com 11 títulos sobre a Amazônia, e mais de 2 mil ensaios. Formado em Filosofia com pós-graduação em Administração e Psicologia da Educação. Consultor eventual do BID, Grupo Simões, do CIEAM e diretor da FIEAM.

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