*Laura Mattos

Machado de Assis e outros estavam entre vetados em Rondônia; governo teve de revogar decisão, mas seu recado às escolas está dado.

O ímpeto censório de governantes brasileiros definitivamente saiu do armário. Quem tiver alguma dúvida da cara de pau do autoritarismo deve ler o memorando do governo de Rondônia, distribuído às escolas nesta quinta-feira (6), que ordena o recolhimento de mais de 40 livros de autores consagrados, entre eles Machado de Assis, Mário de Andrade, Carlos Heitor Cony, Euclides da Cunha e Rubem Fonseca.

O documento, encaminhado aos coordenadores, já escancara o assunto: “Recolhimento de Livro”. No texto, determina que a ação se dê “imediatamente”.

O motivo, explica, são os “conteúdos inadequados às crianças e [aos] adolescentes”. Nem vamos aqui perder muito tempo para dizer o óbvio, que, ao contrário do fantasma da inadequação (como sempre) invocado para justificar a censura, esses são livros relevantes para a formação dos estudantes, muitos dos quais cobrados em vestibulares –quem sabe os governos não devam também controlar todas as provas?

O comunicado recruta os coordenadores das escolas para a cruzada censória: “Ressaltamos a importância de estarem atentos as [sic] demais literaturas já existentes ou que chegam nas [sic] escolas”.

As obras devem ser “analisadas”, para que sejam “assegurados os direitos do estudante de usufruir” delas “sem constrangimentos ou desconfortos”. Soa curiosa, aliás, no mínimo, essa ideia de que livros, esse amontoado de “muita coisa escrita”, não devem causar constrangimento ou desconforto…

O memorando é acompanhado da lista, com o título todo em letras maiúsculas: “Relação dos livros a serem recolhidos”.

Lista e memorando que pede recolhimento de livros ‘inadequados’ em Rondônia – Reprodução

São três colunas, a primeira numera as obras, de 1 a 43, a segunda, os títulos, e a terceira, os autores. Abaixo da planilha, uma “observação: Todos os livros de Rubem Alves devem ser recolhidos”.

Ou seja, mais do que proibir uma obra específica, veta-se um escritor. Não seria das mais fáceis a tarefa de expurgar Rubem Alves por completo das bibliotecas.

Morto em 2014, aos 80 anos, o renomado intelectual, que foi colunista desta Folha, escreveu mais de 120 livros de filosofia, educação, literatura infantil e educação, entre outros temas.

Um de seus pilares era o de que as escolas deveriam ser menos massacrantes, mais estimulantes aos alunos e buscar uma maior conexão entre os conteúdos pedagógicos e a vida cotidiana. Inadequado para crianças e jovens? Constrangedor? Desconfortável?

Somando-se, portanto, toda a produção de Rubem Alves, não seriam 43 livros, e sim mais de 160 a comporem o index, para usar o nome dado às listas de livros proibidos pela inquisição, que levava à prisão perpétua e à fogueira quem propagasse ideias que causassem à Igreja Católica, digamos, constrangimentos ou desconfortos.

Por falar em desconforto, o livro “O Ato e o Fato”, que reúne as famosas crônicas críticas à ditadura militar publicadas por Carlos Heitor Cony no “Correio da Manhã”, está entre os vetados no estado de Rondônia, governado pelo coronel Marcos Rocha (PSL), aliado do presidente Jair Bolsonaro.

O jornalista começou essa série em 2 de abril de 1964, no dia seguinte, portanto, ao golpe. Sem ainda ter formulado uma legislação que pudesse justificar uma censura ao jornal, e temendo que, àquele momento, restringir a liberdade de imprensa vinculasse a sua imagem à da ditadura Vargas, o novo regime fez uma manobra para prejudicar o colunista “desconfortável”.

Ele escrevia comédias para a TV Rio, que exibia a primeira telenovela de sucesso no país, “O Direito de Nascer”. A ameaça veio nos bastidores: ou Cony era demitido ou a novela das oito teria de mudar as 23h30.

O diretor Walter Clark o demitiu e, anos depois, em sua autobiografia, escreveu: “Como os caras não podiam foder o Cony no ‘Correio da Manhã’ sem agredir a liberdade de imprensa, decidiram pegá-lo na TV.”

Ferramenta de manutenção do poder, a censura é sempre assim, tem inúmeras facetas, acontece com ou sem lei, em ditaduras e em governos democráticos, de direita ou de esquerda, desde que haja um caldo cultural na sociedade que a sustente.

O recolhimento dos livros em Rondônia foi revogado após questionamentos da imprensa, mas seu recado já estava dado. Educadores foram avisados, não precisam mais de memorando para saber que devem f… com os livros. Ou eles é que se f…

*Jornalista. Matéria na Folha de São Paulo, de 07/02/2020.
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