Contardo Calligaris

*Contardo Calligaris 

Uma nação sem humanidades é uma nação na qual não vale a pena viver.

Duas vezes em pouco tempo, passei três dias internado num hospital. Isso não acontecia comigo desde os anos 1990. E eu tinha me esquecido de várias coisas sobre o estado de espírito pós-operatório. Iludido, na hora de preparar minha bolsa, peguei dois livros: “Sobre o Autoritarismo Brasileiro”, de Lilia Moritz Schwarcz, e “Le Premier Homme”, romance póstumo de Albert Camus.

Por que o Camus —um livro que eu já tinha lido quando foi publicado, nos anos 1990? Venho refletindo sobre minha contribuição ao Fronteiras do Pensamento, sobre o sentido da vida (que será em outubro).

Eu acho que algum sentido da vida só pode estar na vida mesma, não fora dela. Ou seja, não pode estar nos sonhos de vidas eternas, na beatitude ou nos sofrimentos punitivos do além; e não pode estar em misteriosos desenhos divinos para o universo.

Divido os pensadores em duas grandes categorias: os transcendentes, que acho quase sempre chatos e que são os que pensam que o sentido da vida está fora e acima dela; e os imanentistas, meus preferidos, que acham que o sentido da vida deve estar na vida concreta da gente, no que faz que valha a pena ser vivida ou não.

Os grandes imanentistas do século 19, para mim, são Marx, Nietzsche e Freud. Não sei, aliás, se os malucos que se preocupam com o “marxismo cultural” combatem a “esperança” social marxista (que já morreu faz tempos), ou se leram e entenderam mesmo que o extraordinário (e talvez, para eles, o mais grave) em Marx (como em Freud e em Nietzsche) é o esforço para pensar o sentido da vida como sendo parte da própria vida da gente.

Camus também é um imanentista. Li “O Mito de Sísifo” na adolescência e gostei: será que dá para encontrar, na própria vida, uma razão para vivê-la?

Mas, mesmo na época, Camus me incomodava um pouco porque me parecia transformar uma condição trágica (tudo bem, a vida não tem sentido) num dramalhão: olhem como sofro do absurdo da condição humana. Sempre pensei que uma vida absurda é mais leve e interessante do que uma vida carregada de sentidos inventados.

Enfim, Camus não deixava de ser uma boa leitura para uma internação com os pequenos riscos que ela comporta.

Outra coisa que eu tinha esquecido é a estranha temporalidade do pós-operatório em hospital. A equipe de enfermagem passa a cada duas horas, para administrar medicação ou para registrar os sinais vitais (frequência cardíaca, saturação etc.). A noite hospitalar é uma série de pequenos cochilos entre as interrupções. Talvez seja para que o paciente não tenha tempo para entrar na grande noite definitiva.

Por volta das 5h, o técnico entrou, trazendo uma dose de dipirona, e anunciou que tomaria meus “vitais”.

Ele viu meu Camus e perguntou em voz baixa, talvez para não acordar minha companheira, que dormia na cama de acompanhante: “Qual livro de Camus você prefere?”. A pergunta era inesperada. Precisei que ele repetisse.

Na terceira, sem esperar minha resposta, enquanto me ajudava a tomar uma água, ele me disse que o preferido dele era “A Queda”. Ele tinha abandonado “O Mito de Sísifo” porque era uma época em que ele estava triste demais. Mas ele retomaria.

Eu não disse nada – talvez porque em “A Queda” justamente o único que fala é Jean-Baptiste Clamence, o protagonista, que se confessa.

Será que meu enfermeiro, como Clamence, tinha caído nos vícios depois de uma falha passada? Clamence é perseguido pela lembrança de uma jovem suicida que ele não ajudou. E meu enfermeiro? Alguma desistência diante da tragédia de um ou uma paciente? Ele não disse, e eu não confessei nada (sempre suspeitei que Clamance se confessasse para levar quem o julga a fazer o mesmo).

De qualquer forma, naquela noite de hospital, eu recusaria com raiva qualquer conforto do tipo “força, vai estar tudo bem”, mas a conversa sobre Camus me devolveu para a humanidade: a fragilidade, o sofrimento, o efêmero da vida não tem sentido algum, mas a cultura pela qual tentamos examinar nossa estranha experiência, isso é o que nos define como humanos e o que temos de melhor.

Isso queria dizer a nosso ministro: uma nação sem humanidades é uma nação sem qualidade humana, na qual não vale a pena viver.

O Brasil não nos faz esses presentes com frequência. Mas tem futuro enquanto um enfermeiro de noite pode perguntar ao seu paciente: qual dos livros de Camus você prefere?

*Escritor e psicanalista. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada, de 06/06/2019.
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