*Paula Cesarino Costa

Tentativas de reescrever história exigem que se iluminem passado e presente.

O governo do presidente Jair Bolsonaro pôs em debate a tentativa de reconstrução da história, e não só da brasileira.

Primeiro, o presidente negou que tenha havido golpe militar em 1964, sugerindo que houvesse celebração da data de 31 de março, momento em que, segundo ele, Forças Armadas e sociedade teriam se unido contra a possibilidade de implantação do comunismo no Brasil.

Depois, em documento oficial enviado à ONU, o governo argumentou que “o Exército agiu para preservar as instituições nacionais, no contexto da Guerra Fria, com apoio da maioria da população”.

Foi acompanhado por seu ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, que afirmou que não houve golpe em 64 e que o regime que se seguiu não foi uma ditadura. Ele ainda anunciou que os livros didáticos seriam alterados progressivamente para que fosse resgatada uma versão da história, de modo que “as crianças possam ter a ideia verídica, real, do que foi a sua história”.

A líder do governo na Câmara, Joice Hasselmann, entrou na onda deformadora da realidade. Escreveu que o festejo de 31 de março de 1964 “é a retomada da narrativa verdadeira da história”.

Em outra declaração desvinculada dos fatos, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, definiu nazismo e fascismo como “fenômenos de esquerda”. Foi seguido pelo presidente que, ao ser questionado, afirmou que “não há dúvida” de que o nazismo foi um movimento de esquerda.

Ambos contrariam documentado consenso entre historiadores alemães e mundiais que inequivocamente afirmam que Hitler liderava uma corrente política de direita.

Mesmo entre os bolsonaristas, a tentativa de reescrever a história só encontra eco nos mais fanáticos. Cabe à imprensa desqualificar tais proposições. Tarefa fácil, na visão do historiador Luiz Felipe de Alencastro, porque a esmagadora maioria de historiadores, cientistas políticos e testemunhas diretas desmente as teses bolsonaristas.

No caso do golpe de 1964, a historiadora Maria Helena Rolim Capelato, da USP, diz que até há “pequenas discussões” se a qualificação mais precisa é dizer tratar-se de uma “ditadura militar ou civil-militar”. No mais, é peremptória: “Houve um golpe e o que se instalou a partir daí foi uma ditadura comandada pelos militares”.

O poder político -indivíduos, grupos ou partidos – usa de todas as ferramentas possíveis para construir a narrativa mais adequada para fins da própria perpetuação. Um dos embates mais importantes se trava no campo da memória.

O jornalismo é um dos vetores mais relevantes na construção da memória coletiva por meio da compreensão e recuperação do passado, a partir de um discurso construído no presente. Os críticos da mídia, em geral, destacam a frequente incapacidade e falta de vontade do jornalismo de lembrar, recontar e comparar fatos do passado e do presente.

Autor de “Seduzidos pela Memória: Arquitetura, Monumentos e Mídia” (2000), o alemão Andreas Huyssen afirma que é comum que a mídia seja acusada de amnésia, contraditoriamente ao fato de que nunca houve tanta informação disponível sobre o passado e com acesso tão rápido e simples.

Huyssen explica que nem sempre é fácil traçar uma linha de separação entre passado mítico e passado real. “O real pode ser mitologizado tanto quanto o mítico pode engendrar fortes efeitos de realidade”, analisa ele no livro.

Em outras palavras, a recuperação do passado pelo jornalismo é indispensável, além do óbvio e obrigatório relato detalhado e fiel do presente, o que não significa que o passado deve reger o presente, porque este fará do passado o uso que preferir. O passado se converte em princípio de ação para o presente. Seu uso exemplar permite entender o que está por acontecer.

A tentativa de integrantes do governo Bolsonaro de recontar a história do mais recente período ditatorial brasileiro, jogando no lixo conceitos básicos de história e ciência política, deve ser combatida com mais vigor pela imprensa. Essa postura embaralha ainda mais um ambiente em que notícias falsas conspurcam fatos.

O filósofo Tzvetan Todorov escreveu que a memória deve ter prestígio entre os inimigos do totalitarismo porque qualquer ato de reminiscência, por mais humilde, é uma forma de resistência antitotalitária.

O jornalismo tem a história como ferramenta de apoio e esclarecimento. Em qualquer sociedade, uma forte vinculação ao presente impede sua transformação em futuro, assim como uma desconexão completa com o passado limita o entendimento do ponto em que se está e aonde se chegará, como definiu Todorov.

Se os que ocupam hoje o poder buscam recriar um passado falso, por convicção ou estratégia, cabe ao jornalismo iluminar os fatos passados e as intenções futuras dos que agem no presente.

*Jornalista. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Opinião, de 07/04/2019.
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