Minha filha Bel enviou para amigos de rede social a minha crônica, A Babel Encantada de biscuit e feltro.

Alguns dias depois.

– Pai, lembra que lhe falei que postei aquele texto da “babel encantada”?

– Sim, claro. E os comentários? (Não pude esconder a falsa modéstia fingida de curiosidade).

– Poucos comentários. Quer dizer, poucos escritos. Uns amigos marcaram a visualização com um, dois, três, quatro “joinha”. Acima de três joinhas é muito bom, pai (falou sorrindo). Outros marcaram com mãozinhas. Teve também muitas carinhas. Carinhas de dúvidas, outras de susto, outras que não diziam nem se aprovavam ou desaprovavam.

– Sei como é isso, hoje. A maioria vai de emojis, para ganhar tempo e não perder as outras visualizações da hora. Muitos vão de áudio.Poucos são aqueles que ainda perdem tempo escrevendo. Nós, brasileiros, estamos adotando a forma de se comunicar dos orientais por meio de ideogramas.

– Mas o que vale é a manifestação, num é mesmo, pai?

– Sim, sim. E essa maneira de se comunicar por emojis não está errada, não. Pelo contrário, no corrido e concorrido mundo de hoje, responder, com rapidez e prontidão, é competência levada em conta pelos chefes, no trabalho, e pelos amigos, nas redes sociais.

– E num é?

– Falando em orientais, não foi um chinês que proclamou essa máxima de que “uma imagem vale mais que mil palavras”?

– Acho que sim. Mas eu queria lhe falar de uma coisa, pai!

– O quê?

– Um engraçadinho que perdeu tempo escrevendo um comentário (disse sorrindo e me caçoando…) me tratou por Babel. Depois pediu desculpas dizendo que havia se atrapalhado com o meu nome,
trocando Bel por Babel.

– Você desculpou o cara, não foi?

– Desculpei, sim. Mas antes exigi que ele repetisse meu nome Bel, por cinqüenta vezes, bem despacito, sem rir, em voz alta porque eu queria fazer a contagem.

– E ele fez isso? Tá parecendo penitência das antigas.

– Fez mermo! Mas inventou outra piadinha: perguntou se eu queria que ele pronunciasse Bel, em espanhol (porque eu falei despacito), em inglês ou em caboquês mesmo.

– E você optou por qual idioma? (Aticei a fera!)

– Disse pra ele que deixasse de graça, que começasse a falar logo, que eu não tinha o dia todo.

– E como ficou?

– Ele cumpriu o castigo. Mas deixou muito a desejar na parte do falar ser rir. Do meio pro fim, começou a rir, e acabamos o castigo, eu e ele, na esportiva, dando muitas risadas.

– Que bom! – concluí.

Depois que minha filha saiu da sala e foi fazer outra coisa, não pude deixar de escapar um sorrisinho pretensioso, de escritor lido e comentado.

O dito engraçadinho certamente percebeu o intrínseco trocadilho no final de A Babel Encantada de biscuit e feltro. Confesso que, quando estava concluindo o texto, fui pressionado pela minha incorrigível mania de brincar com as palavras para deixar cravado o trocadilho. Mas me segurei e procurei escondê-lo nas entrelinhas do fraseado. O texto dizia:

“Por fim, devo esclarecer que o meu home office foi um cômodo adaptado no qual, antes, minha filha Bel guardava suas coisas. A Babel encantada era dela.”

O engraçadinho prospectou o propósito do narrador. Percebi que minha filha queria compartilhar algum sentimento comigo a respeito disso. Não falou expressamente. Mas ficou claro pela forma como ela abordou o tópico que remetia ao seu nome. Acho que ela ficou lisonjeada, mas não queria que a coisa ficasse gratuita na relação com o amigo.

Uma coisa ou outra, o texto pede passagem. A narrativa precisa escoar do peito do ficcionista para o papel, como uma necessidade vital.

Sei que a prateleira significava muito pra ela. Respeitando isso, não me passou pela cabeça reportar um estado de acumulação de biscuit e feltro.

A prateleira Babel reunia lembranças de viagens ou presentes de amigos que viajaram. Ali estava um biscuit com a “lembrança de ouro preto”, um feltro com “lembrança de porto de galinhas”, uma miniatura da Malévola e de diversas personagens da fantasia cinematográfica. A catedral de Brasília, sem dúvida, foi lembrança de viagem à capital federal. Agora, a mesquita azul de Istambul…?Pelo que sei minha filha nunca esteve naquela parte do mundo.Presente que fosse, fazia parte de lembranças de um amigoviajador.

Se o texto passou impressão de bagunça ou de acumulação, fazparte do importante imaginário e maneira de interpretar de cadaleitor. Uma coisa eu posso assegurar que, se havia acumulação, era de inesquecíveis lembranças de lugares visitados por ela ou deamigos que viajaram. E, boas lembranças, quanto mais seacumulam, mais se deseja acumular.

Boas lembranças servem para nos sustentar, nos alimentar, nos darânimo para encarar com serenidade as intempéries do cotidiano.Ainda mais, quando temos que ficar em casa, em tempos dequarentena.

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Alírio Marques
*Amazonense de Itacoatiara. Advogado. Compositor premiado inúmeras vezes no FECANI e no CONPOFAI. Escritor platonista.

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