*Basílio Tenório

Em exaltação à etnia Sateré-Mawé e a Raimundo Ferreira da Silva, o bravo, ecléticoe saudoso Capitão Dico Sateré.

A narrativa sobre “A árvore de pedra” procede do imaginário sateré-mawé através do saudoso Raimundo Ferreira da Silva, o Capitão Dico Sateré. Refiro-me a um líder que, mesmo não sendo da linhagem de tuxauas, entretanto, bateu-se em duelo com poderosa multinacional francesa, Elf-Aquitaine, pugnando pela reparação dos danos ambientais causados, pela referida empresa, às terras dos sateré quando aquela em prospecção de petróleo nos altos rios Andirá e Maués. Saiu vitorioso, mas incompreendido e tipificado entre seu próprio povo. Em razão dessa e de outras epopeias por ele vividas o Sr. Vitor Santana, na época administrador da FUNAI, em Parintins, decidiu mandar biografá-lo e convidou-me para efetuar relevante trabalho.

Desafio aceito, preparei-me e lancei-me à pesquisa. No dia marcado fui ao seu encontro e gravamos sua primeira entrevista. Na oportunidade, entre outros causos mitológicos próprios da sua etnia, narrou a epopeia dos seus antepassados vinculados à uma misteriosa árvore de pedra. Marcamos a segunda entrevista, que não aconteceu em razão do seu falecimento na véspera.

Convém a informação de que a narrativa não foi modificada, mas organizada conforme o rigor metodológico votado para a literatura. Assim, portanto, do imaginário sateré-mawé segundo o bravo, eclético e saudoso Capitão Dico Sateré, no viés das páginas do meu livro intitulado: Cantos, contos e causos, ainda a publicar…

…Aconteceu há muitas e muitas luas atrás. Tempo em que Rio Amazonas ainda era uma torrente de massa barrenta que iria constituir as suas várzeas e por isso não existia quaisquer espécies de vegetais porque as citadas várzeas constituíam incidências de massa esmerilenta que, dias existiam, dias desapareciam.

A terra firme já existia, no entanto, muitos dentre os rios que deságuam no Rio Amazonas, em seus afluentes e subafluentes, não. Também não existiam muitas espécies de árvores nessas terras e muitas espécies da sua fauna. Dentre as etnias que prevaleceram e das que desapareceram, muitas delas também não existiam.

Diz-se dos idos tempos em que as civilizações das matas passaram a existir e que descobriram a forma de manejar o fogo em favor dos respectivos ajuntamentos daí a construção do que a Arqueologia chama de Terra preta de Índio, a consciência de domínio centrada na hierarquia e, assim, construiriam as primeiras malocas.

Naqueles idos a etnia Sateré-Mawé resumia-se em umas poucas almas viventes à margem direita do Rio Amazonas e vivia em situação nômade entre as cabeceiras do Rio Sucundurí, afluente do rio Madeira e as praias do litoral Atlântico. Homens e mulheres ainda não tinham nomes, nem leis e nem os deuses que cultuariam depois.

Das cabeceiras do Rio Sucundurí eles saíam e viajavam, pelas matas, ao encontro do sol nascente. O motivo daquelas viagens, no entanto, há de ser um eterno mistério. Via de regra e por alguma razão, os sateré nascidos pr’as bandas do alto Rio Sucundurí não deveriam morrer na mesma região, mas junto ao mar e ali serem enterrados. Em sentido oposto, os que nasciam no litoral saiam de lá crianças e viajavam uma vida para morrer durante a viagem ou nas cabeceiras do Rio Sucundurí.

Os adultos, sobretudo os que conheciam os lugares de nascimento das gerações antes citadas deveriam morrer em viagem. Seus corpos não eram enterrados, mas cremados e as suas cinzas eram levadas para misturar no alimento dos sateré. Isso para que a podrura dos seus corpos não contaminasse a terra ao longo do caminho por onde os sateré deveriam passar de geração em geração e para que o espírito do extinto se
tornasse habitante nos que ficavam, também de geração em geração. Além desse pensamento, era para que aqueles que não tiveram a felicidade de ver a beleza do mar infinito, nem os encantos das cabeceiras do alto Rio Sucundurí, pudessem fazê-lo através dos que ingeriam as suas cinzas.

Aconteceu que numa daquelas viagens, quando retornavam das bandas do litoral, o guia errou de rumo e o grupo acabou perdido da antiga direção. Só percebeu porque as luas passavam e os sateré não cruzavam nem o Rio Mamurú nem o Rio Mariacuã; regiões das matas medioamazônidas entendidas como o meio do caminho. Foi assim, provavelmente, rodando entre o Xingu, Tocantins e Tapajós, que em certo anoitecer os sateré alcançaram uma região de altas pedreiras e resolveram acampar.

Ao amanhecer, a descoberta. Os componentes do grupo estavam acampados embaixo de uma enorme árvore de pedra, tão gigantesca que abrangia uma grande extensão da mata que a protegia com o seu emaranhado de árvores, arbustos e de cipós. Mas a grande surpresa era que partes daquela árvore de pedra estavam floridas, outras carregadas de frutos de todas as espécies. Curiosos, os sateré experimentaram dos frutos dela. Alguns não serviam para serem comidos de imediato, outros sim e muitos eram saborosíssimos. Juntaram muitos frutos e levaram para as mulheres e para as crianças, que também os saborearam.

Uma vez ali, eles decidiram explorá-la. Um tanto temerosos, assim, como se o fizessem às escondidas seguiram até o tronco dela. Era grosso, muito grosso, enorme. Decidiram então medi-lo. Pegaram uns nas mãos dos outros, a rodearam e concluíram que a grossura do tronco daquela árvore de pedra correspondia à quantidade de todos os homens existentes na terra. Então os sateré temeram a árvore de pedra, a deificaram e ela, em contrapartida, passou a sustentá-los enquanto eles descansavam à sua sombra, se preparando para a nova etapa da viagem.

O tronco e os galhos da árvore eram de pedra, mas a sua folhagem era semelhante às de outras árvores e davam frutos de todas as espécies sem interrupção. Portanto, se os sateré queriam frutos ela os ofertava em abundância. Se eles queriam carne, com seus frutos ela atraia as espécies de caça entre as quais os sateré escolhiam quais seriam caçadas que, depois de assadas, eles comiam. Da mesma forma se queriam comer peixes, eles pescavam nos cardumes que se aproximavam da margem para comer os frutos que
a árvore de pedra fazia rolar até a água do rio.

Certo dia o guia falou para os demais:

-Temos que ir embora…

Sua mulher considerou:

-Não poderíamos esperar um pouco mais, veja minha barriga, teu filho deve nascer a qualquer momento.

-Eu sei, mulher. Mas aonde meu filho nascer eu o tomarei em meus braços e o levarei assim até que ele aprenda a caminhar com as próprias pernas. Portanto, antes mesmo do sol nascer já estaremos partindo rumo às cabeceiras do Rio Sucundurí.

Os sateré se deitaram para dormir. Quando todos dormiam o guia teve um sonho estranho. Em seu sonho o Senhor da árvore de pedra se aproximava e falava com ele:

-Sou o Senhor da árvore de pedra e ordeno que os sateré fiquem um pouco mais.

-Porque devemos ficar? – Respondeu o guia.

-Primeiro, porque tua mulher deve parir o teu filho embaixo desta árvore de pedra. Segundo, porque preciso de ti.

-Porquê precisa de mim?

-Porque os sateré não são os únicos da tua espécie; há outros a ti semelhantes nesta mata adentro e tu precisas ir ao encontro deles.

-Se existem outros a mim semelhantes porque os nossos pais nunca nos contaram?

-Porque eles não sabiam, nunca os viram, assim como tu. Mas tu e os teus descendentes hão de vê-los. Contudo, é preciso preparar-te para este encontro.

-E o que devo fazer?

-Para que faças o que é preciso que faças, cada um dos que te acompanham precisa ter um nome. Isso para que eu possa chamá-los pelos respectivos nomes.

-Vamos ter nossos próprios nomes?

-Sim.

-E como seremos chamados?

-Tu, a partir de agora vais te chamas Itakurú; que quer dizer homem forte, grande líder, o guerreiro valente e destemido que vou te transformar. Aos demais, assim tu deverás chamá-los…

-Mas se eles não concordarem?

-Dirás a eles que é ordem do Senhor da árvore de pedra, aquele que ora sustenta os sateré para que possam chegar fortes até as cabeceiras do Rio Sucundurí. Aliás, Itakurú, um sonho dos sateré que vou realizar…

Ainda em sonho, Itakurú foi levado a entrar no cerne da árvore de pedra. Dentro dela viu com os próprios olhos uma imensa riqueza em ouro, tanto em pó como em pepitas de todos os tamanhos. Disse-lhe o Senhor da árvore de pedra:

-Tu ainda não compreendes isto tudo, mas há de chegar o dia em que todas as nações das matas se haverão de reunir e aqui virão em busca deste tesouro. No entanto, só haverão de levar o que eu permitir que seja levado.

-E porque o senhor não lhes mostrará esta parte do seu tesouro?

-Porque não tiveram a sorte de se encontrar comigo, de falar e de estar comigo, assim, como tu me encontraste e estás falando comigo. Quando eles aqui chegarem já serão homens maus. Mas, venha até aqui Itakurú e veja isto aqui.

Era uma tábua de pedra em forma de um remo, semelhante àqueles que os sateré remavam em suas canoas atravessando os rios por onde passavam. A referida tábua de pedra possuía estranhas inscrições sobre linhas retas e sinuosas, outras em forma de figuras geométricas e ainda outras semelhantes ao alfabeto braile, mas simetricamente desenhadas em pepitas de ouro.

Curioso, Itakurú perguntou:

-O que é isso?

-É o meu tesouro mais valioso nesta árvore de pedra. Ele vale mais que todo o ouro aqui acumulado porque nele está a essência de tudo o que tua descendência há de ser no futuro. É por isso que estás aqui e por isso ordeno que fiques comigo.

-Mas os sateré precisam partir e eu devo conduzi-los para que os nossos filhos cheguem em paz lá nas cabeceiras do Rio Sucundurí.

-Não, Itakurú, eu ordeno que fiques para que o teu filho, assim como os filhos dos teus companheiros sejam paridos sob a minha proteção. Amanhã, ao meio dia, volta aqui para que eu te diga o que deverás fazer.

O guia acordou assustado, e suando. Os sateré aguardavam o despertar dele para seguires viagem, e sua mulher lhe falou:

-O sol já aparece em cima da mata, te apressa… Mas ele respondeu:

-Não vamos mais viajar. Não agora, o faremos depois que todas as mulheres tenham parido os seus filhos.

Tendo dito assim calou-se e ficou distante, pensativo. Sua mulher perguntou-lhe:

-Que tens, a ponto de não falar com os sateré?

Ele contou do sonho que teve e, a ela pedindo segredo, falou o que iria fazer no momento seguinte. O sol estava quase a plumo, como a árvore de pau d’arco, em cujo tronco ele se encontrava sentado. Ele se levantou e adentrou a mata; sozinho.

No tronco da árvore de pedra não havia ninguém e falou para si mesmo: foi mesmo um sonho. O guia sateré já retornava quando uma voz o chamou:

-Itakurú, porque estás indo embora?

Ao ouvir aquela voz chamando-o, ele estremeceu. Entretanto se aproximou, olhou para todos os lados e não viu ninguém. Foi quando a voz lhe falou novamente:

-Pode entrar, Itakurú, você já conhece a porta.

Assim, tal como no sonho, ele se aproximou e no tronco da árvore de pedra a porta se abriu e ele entrou, agora acordado. Tudo o que ele viu em sonho estava ali, menos aquela pedra que tinha a forma de um remo; ela se encontrava nas mãos do Senhor da árvore de pedra que caminhava para ele, dizendo:

-Itakurú, eu sou o Senhor da árvore de pedra e isto que tenho em minhas mãos é o grande tesouro que te mostrei em sonho.

-O tesouro! – exclamou Itakurú.

-Sim, isto, aqui, é Purantim e nele estão contidas as minhas Leis, que de ora em diante passam ser dos sateré. Por força delas os sateré se haverão de transformar em uma grande nação, uma das maiores e mais importantes entre os povos da floresta…

Itakurú, estacou e o Senhor da árvore da pedra prosseguiu acalmando-o:

-…Receba-o, Itakurú, e transmita aos sateré de geração em geração os meus ensinamentos que nele contém.

Itakurú estendeu a mão e recebeu o Purantim das mãos do Senhor da árvore de pedra. Com o Purantim nas mãos ele viu e tocou naquelas inscrições para ele ainda incompreensíveis, e falou:

-Mas, eu não entendo isto aqui.

-Eu sei, mas assim que saíres por aquela porta todo o conhecimento do Purantim vai sair de dentro desta árvore de pedra e repousar no teu entendimento. Tu serás sábio, e assim, o senhor entre os filhos da tua nação. Serás o Tuxaua, aquele que governa em nome do Senhor da árvore de pedra e todos vão te respeitar, te reverenciar e te temer porque esta é a minha ordem conforme este Purantim sagrado, que ora te entrego.

Não se sabe quanto tempo Itakurú ficou ali. Sabe-se, no entanto, que enquanto ali esteve o Senhor da árvore de pedra o transformou. O fez sábio e a ele entregou os fundamentos da nação sateré que dali em diante seria aquele punhado de gente nômade entre as cabeceiras do Rio Sucundurí e o litoral Atlântico.

No devido tempo Itakurú saiu de dentro da árvore de pedra com o Purantim nas mãos. Retornou para onde se encontravam os seus pares e enquanto caminhava seu corpo resplandecia dourado. Seu caminhar era diferente e seu rosto emanava força e poder. Era o conhecimento do Purantim que já se encontrava nele.
Ao vê-lo se aproximando os sateré se curvaram, temerosos. Mas ele os tranquilizou dizendo:

-Agora tenho um nome, eu sou Itakurú, o Tuxaua entre os sateré, cuja autoridade me foi conferida pelo Senhor da árvore de pedra que nos alimentou, nos protegeu do sol e da chuva e que agora nos oferece as sementes dos seus frutos para levarmos conosco assim que partirmos. Já não iremos para as cabeceiras do Rio Sucundurí, mas iremos construir moradas nas melhores terras ao longo do caminho. Uma vez ali faremos roçados onde plantaremos as espécies entre as sementes que o Senhor da árvore de pedra nos deu
para plantarmos e para que comendo dos seus frutos tenhamos longa vida.

Eu sou Itakurú, e foi o Senhor da árvore de pedra quem me deu este nome. Ele também ordenou que eu lhes desse os seus nomes, isso porque ele quer chamá-los pelos seus próprios nomes, como me chamou de Itakurú.

Eu sou o Tuxaua, o senhor entre os meus irmãos sateré e só deixarei de ser no devido tempo, depois que eu for morar com o Senhor da árvore de pedra. Quando isso acontecer o meu filho que vai nascer, aqui, neste lugar, haverá de me substituir; como o filho dele o substituirá e assim deverá ser enquanto existir esta árvore de pedra.

Então os sateré permaneceram acampados conforme ordenou o Senhor da árvore de pedra, através de Itakurú. Depois que todas as mulheres pariram os seus filhos e que eles já podiam caminhar, em nome do Senhor da árvore de pedra Itakurú ordenou a partida. Assim, guiados pelo Tuxaua Itakurú eles partiram.

Caminharam muitas e muitas luas e sempre parando para que fossem plantados e depois colhidos os frutos das sementes que o Senhor da árvore de pedra lhes havia ofertado. Enquanto isso as crianças cresciam, as mulheres engravidavam e pariam, ao mesmo tempo em que eles avançavam na caminhada.

Chegaram ao rio Mamurú, onde estabeleceram uma maloca provisória. Fizeram os primeiros roçados onde plantaram, colheram e prosseguiram viagem. Cruzaram o Rio Mariacuã, quando alcançaram o Rio Uaicurapá e porque se agradou da terra Itakurú ordenou outra parada para fazer roçados, plantio e colheita.

Enquanto os sateré aguardavam a contrapartida da terra, Itakurú reuniu um grupo de valentes e saíram pelas matas. Foi assim que ele se encontrou com os Pariqui, com os Mundurucu, com os Mura, com os Sapupé, com os Parintintin, […], com os Guanavena e por causa da fertilidade da terra travou-se o primeiro combate entre nações indígenas desta região do Amazonas.

Ao retornar da guerra, a grande surpresa. A terra havia correspondido e os sateré plantaram ananás, taperebá, cupuaçú, araçá do igapó (camu-camu) e todas as espécies de sementes trazidas daquela árvore de pedra.

Entre aquelas sementes, o guaraná. Uma vez que a planta se aclimatou e produziu frutos em abundância, Itakurú ordenou que os sateré se estabelecessem em definitivo naquelas terras entre os rios Uaicurapá, Andirá, Maués e os seus afluentes, onde o povo se tornou uma grande nação. Terras que ele conquistou com a sabedoria adquirida com o Senhor da árvore de pedra, com a sua força e com a força dos seus guerreiros.

Então as luas foram passando. A nação sateré cresceu, tão grande ficou que se dividiu em centenas de malocas e todas ao comando dos descendentes do tuxaua Itakurú, todavia, sob as Leis do Senhor da árvore de pedra existentes no Purantim.

*Amazonense de Urucará. Professor, memorialista, pesquisador e escritor. Licenciado em História, pela UEA. Mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia, pela UFAM. Fundador e ex-presidente do Instituto Geográfico e Histórico de Parintins (IGHP).
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