*Marcelo Viana

Está claro que a colonização das Américas é muito mais antiga do que se pensava “É preciso um esforço brutal de imaginação para tentar entender o significado da chegada dos primeiros Homo sapiens ao pedaço de terra firme que, dezenas de milhares de anos mais tarde, seria apelidado de continente americano. Nenhum ser humano chegou sequer perto de passar por experiência parecida.” Assim começa o capítulo 1 do livro “1499”, de Reinaldo Lopes.

Até o final do século 20 prevaleceu a ideia, chamada teoria de Clovis, de que a chegada teria ocorrido em uma única vaga, uns 13 mil anos atrás, através da Beríngia, língua de terra que então ligava a Sibéria ao Alasca e se encontra agora submersa sob o estreito de Behring. As populações nativas americanas seriam aparentadas aos povos siberianos, o que é comprovado pela genética.

Mas a verdadeira história é muito mais rica. Não só temos evidências de presença humana muito anterior, inclusive na América do Sul, como também sabemos que o continente foi ocupado por outros povos com características muito distintas.

Luzia, o fóssil humano mais antigo da América do Sul, viveu há 11,5 mil anos. Ao final do século 20 suas feições foram reconstituídas por computador, evidenciando para todos o que pesquisadores brasileiros haviam percebido muito antes: a aparência de Luzia é muito mais próxima do padrão africano, ou aborígene australiano, do que do tipo asiático dos povos nativos brasileiros atuais. Outros fósseis encontrados, sobretudo, na região de Lagoa Santa (MG) comprovam: os brasileiros mais antigos conhecidos eram “negros”.

De onde veio o povo de Luzia, quando e como chegaram aqui, e para onde foram? Foi aventado que teriam vindo da África ou da Oceania, cruzando o Atlântico ou o Pacífico de barco, mas há outras explicações possíveis.

Sabemos que, à medida que se espalhavam pela Europa, Ásia e Oceania, os diferentes grupos de Homo sapiens mantiveram por muito tempo características originais africanas, antes de que as condições locais impusessem diversificações. É possível que os primeiros que cruzaram a Beríngia sejam dessa fase, e que a transição para o tipo asiático tenha ocorrido depois, acentuada por novas migrações da Sibéria. Se foi assim, o povo de Luzia atual somos nós.

Em todo caso, está agora claro que a colonização das Américas é muito mais antiga do que se pensava. Artigo publicado no dia 22 de julho na revista Nature apresenta evidências de presença humana na caverna Chiquihuite, no norte do México, entre 26 e 19 mil anos atrás, sinalizando que a ocupação humana da região pode remontar a 33 mil anos atrás.

Em outro artigo publicado na Nature no mesmo dia, métodos de estatística bayesiana são usados para modelar o povoamento da América do Norte. Os autores apontam que diferentes culturas emergiram simultaneamente e observam que o fenômeno coincidiu com a extinção dos fantásticos mamíferos gigantes que então povoavam as Américas.

*Diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada. Matéria na Folha de São Paulo, Caderno Ciência, de 04/08/2020.
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