*Rodrigo Zeidan 

Desmatar dá pouco retorno a curto prazo, mas grande custo a longo prazo.

A Amazônia não dá lucros. Não existe uma reserva de ervas medicinais a serem descobertas, gerando trilhões de dólares de royalties. Não há riquezas imensas no subsolo a serem exploradas, nem terras férteis que façam valer a pena derrubar árvores. Não precisamos ter medo dos pesquisadores surrupiarem as nossas riquezas naturais, nem dos gringos invadirem o país para tomar a floresta.

Pelo pouco potencial comercial é que, na área da Amazônia Legal, que corresponde a mais de 60% do território brasileiro, vivem somente 12% dos habitantes do país.

Em um país no qual desmatamento gera grandes ganhos financeiros, não sobra nada. Na Islândia, antes da chegada dos seres humanos, quase 40% do país era coberto de florestas. No início do século 20, elas já haviam sido dizimadas; a cobertura florestal chegou a meros 0,5% da área do país.

Desmatamento é um problema de ação coletiva. Gera pouquíssimo benefício para quem desmata, mas muitos custos para o resto da sociedade. Mas mesmo para quem em tese se beneficia, desmatar tem custos. É preciso mobilizar máquinas e equipamentos para áreas de fronteira onde não há infraestrutura adequada. Se é ilegal, há o risco de perda total do investimento, e até cadeia, se houver apoio para fiscalização. É um investimento de risco, que só vale quando a possibilidade de retorno é elevada, o que só acontece quando é possível vender por preços altos produtos relacionados ao desmatamento, como madeira, bois e produtos agrícolas.

Desmate, queimadas e trabalho escravo afetam cadeia da carne

Área queimadas na fazenda Bacuri, cerca de um ano depois do “dia do fogo”. A fazenda tem multas por desmate ilegal e nela foram registrados, em agosto de 2019 e de 2020, focos ilegais de incêndios, na área embargada da fazenda e na área de floresta. A fazenda foi fornecedora indireta de carne da JBS, aponta investigação do Greenpeace Christian Braga/Christian Braga/Greenpeace

Animais na fazenda Bacuri Christian Braga/Christian Braga/Greenpeace

Área localizada dentro da fazenda Bacuri, no Pará Christian Braga/Christian Braga/Greenpeace

No caso da extração ilegal de madeira, ao longo das últimas décadas esforços públicos e ações da sociedade civil criaram mecanismos para desestimular esse mercado, como obrigatoriedade de certificação para exportação e pactos como o Pacto para Madeira Legal e Sustentável, no Brasil.

A extração ilegal de madeira ainda existe (estudo realizado pela ONG Imazon estima que 70% da madeira explorada no Pará é ilegal), mas é bem menos rentável do que foi no passado.

Em relação à produção agrícola, o solo de grande parte da floresta amazônica é surpreendentemente pobre, diante do que se esperaria de uma densa cobertura vegetal. Não é impossível produzir soja ou outros produtos em solo amazônico, mas a combinação de custos de desmatamento e baixa produtividade limita os ganhos puramente monetários.

Sobra, então, a pecuária, essa sim a atividade que ainda é marginalmente rentável, em perspectiva míope de curto prazo, em solo de desmatamento. Em parte, rebanhos foram deslocados pelo crescimento da soja em outras partes do país. Mas é mesmo a expansão do setor o que mais contribui para destruição das florestas no Brasil; o desmatamento alimenta parte das mais de 230 milhões de cabeças de gado no país.

Do ponto de vista agregado, a destruição da Amazônia gera minúsculo aumento de atividade econômica no curto prazo (pelo aumento do setor agropecuário ou exploração mineral), mas gigantescos custos de longo prazo – por exemplo, a mudança no regime das chuvas aumenta o custo de todos os outros produtores do país, além de mudar todo o contexto ecológico, de biodiversidade e da dinâmica climática.

Os danos sociais são imensos e ignorar o desmatamento não passa o crivo nem da mais pura exploração comercial.

Do ponto verdadeiramente econômico, desmatamento é um crime contra a humanidade. É exatamente pela Amazônia não dar retorno de curto prazo que precisamos preservá-la.

*Professor e doutor em economia. Matéria na Folha de São Paulo. Caderno Mercado, de 17/10/2020.
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