Neste domingo, em mais uma manifestação da inquietação popular, o Brasil olhou para si mesmo, com óculos focados numa constatação: a crise institucional que paralisa a nação. É improvável, entretanto, pretender que a mudança de uma pessoa seja a panaceia de todos os males que sacodem o país. É urgente e inteligente olhar um pouco mais além das aparências, como diria Platão, elas confundem o discernimento. Há que se dar um passo adiante e investigar a relação dos problemas com o desequilíbrio geral da economia, o clima, o terrorismo e a distribuição, escabrosa e injusta da riqueza, que leva a violência e a barbárie em âmbito global. É constrangedor, nesse contexto, convocar os militares para voltar ao poder pelo uso da força e combate da corrupção. Eles próprios repudiam essa convocação. Que a justiça prossiga seu trabalho contra tais mazelas, as de agora e as que ainda permanecem impunes, pois temos outras questões tão ou mais graves para cuidar no cotidiano. Manaus e Osasco, em fins de semana recentes, por exemplo, deixaram seus cidadãos apavorados, tal como as vítimas do Estado Islâmico e de outros grupos da violência em espiral, por todo o planeta.

Vamos às ruas, sim, também, pela não-violência, pelo clima, pela Amazônia, yes!, pela Amazônia que, apesar da nova cartografia do IBGE, segue ocupando dois terços do território de um Brasil apartado. Vamos protestar contra a violência que se engendra a partir de suas fronteiras, contra a indústria do narcotráfico, e comércio ilegal de armas, frutos do descaso federal, ou da escassez de soberania, apontada pelo general Villas Bôas, comandante do Exército. Ele, assim como o general Theóphilo, comandante da Amazônia, topam certamente essa empreitada cívica, em comunhão com os demais atores do setor privado, da academia, agências do fomento, para formular uma nova economia de brasilidade integrada. Energia alternativa, logística rápida e adaptada às condições amazônicas e banda larga de integração digital, e alianças científicas e tecnológicas, nacionais e estrangeiras, transparentes e coerentes, são algumas bandeiras de uma nova concepção integrada da Hileia no contexto da soberania que define rumos da brasilidade sem xenofobia mas também sem ingenuidade. Só assim, dá pra rechaçar as ações de ocupação do tráfico, já incrustadas  nas fronteiras, incluindo a cooptação das etnias locais, que se revezam com as manobras de ocupação do preservacionismo obscuro, que quer imobilizar o Corredor Triplo A, dos Andes ao Atlântico, com 1,3 milhão de quilômetros quadrados, sob a batuta de Ongs estrangeiras, para impedir que o Brasil acesse US$ 23 trilhões de riquezas em território amazônico. “Eles querem nossos bens, não o nosso bem”, como insistia o Boto Navegador, o senador Gilberto Mestrinho, citando o padre Antônio Vieira.

Qual a diferença entre o Corredor Triplo A e a Reserva da Biosfera, sob a batuta da Unesco? No mapa da imobilização preservacionista, nenhuma. As coordenadas geográficas englobam o banco genético de biomas comprovadamente preciosos e a maior província mineral do planeta. Esses projetos, que excluem a interferência do Brasil da gestão amazônica, se travestem de várias formas, como se deu historicamente com o Instituto Hudson, do Grande Lago amazônico,  ou Instituto da Hileia Amazônica, que queria ocupar a Amazônia em nome da Unesco, sim, da Unesco, para “abrigar refugiados de guerra e oferecer segurança alimentar aos famintos do planeta.” E teve muito cientista brasileiro que subscreveu essa sugestão, até a instalação do INPA, há 63 anos, para estudar o tesouro do Eldorado verde, que é a biodiversidade amazônica. O Brasil ainda desconhece esse inventário e sua utilização competente e sustentável na geração de riqueza.  Mais recentemente, atores da Universidade do Estado do Amazonas, dentro do Doutorado Interinstitucional em Administração de Projetos, o Dinter,  entre UEA e  USP, e em comum com a secretaria executiva de Ciência, Tecnologia e Inovação, se mobilizam para formar linhas de pesquisa em Gestão da Amazônia, mobilizando atores da Amazônia Continental, para troca, nivelação do conhecimento para gerenciar negócios e oportunidade da região em favor da região. Ou haverá outra forma de conservar um bem?Infelizmente, além do General e do Boto, muita gente que foi ou deixou de ir pra rua, não se dedicou  passear na floresta para conhecer as sugestões de saídas para o país e para a humanidade a partir  da Amazônia. Que tal?

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Alfredo Lopes
*Escritor amazonense, com 11 títulos sobre a Amazônia, e mais de 2 mil ensaios. Formado em Filosofia com pós-graduação em Administração e Psicologia da Educação. Consultor eventual do BID, Grupo Simões, do CIEAM e diretor da FIEAM.

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