*Clóvis Rossi

Africanos ensaiam integração, que patina por aqui.

A África, geralmente considerado o continente perdido, por seu atraso econômico e social e por sua permanente instabilidade institucional, acaba de dar um passo adiante: entrou em vigor o AfCTA (sigla em inglês para Tratado de Livre Comércio Africano).

Até especialistas do próprio continente admitem o atraso: “Desde que a primeira revolução industrial levou a um crescimento no comércio internacional, a África permaneceu à margem da economia global”, escreveram BrahimaCoulibaly (BrookingsInstitution) e NgoziOkonjo-Iweala, ex-ministro de Finanças da Nigéria, para “Project Syndicate”.

Consequência, a parcela africana no comércio global de mercadorias estagnou em 3%, de resto similar à sua participação na produção mundial de manufaturas.

É para mudar tais números que vem o novo tratado: seu ponto de chegada é a criação de um mercado continental único de bens e serviços integrado por 55 países, 1,2 bilhão de pessoas, cerca de US$ 3 trilhões de economia conjunta (R$ 11,6 trilhões). Números à parte, prevê também a livre circulação de capitais e viajantes a negócio.

Formidável, não? Claro que não é (ainda) o caso de correr para se instalar na África, você, brasileiro desanimado com a marcha à ré da economia e com as pobres perspectivas à frente.

O que entrou em vigor é apenas o tratado, um instrumento legal, firmado por 52 dos 55 países africanos.

Vinte e três já o ratificaram em seus respectivos parlamentos. Falta, por enquanto, a grande potência regional e o país mais povoado, a Nigéria, além de Benin e Eritreia.

Depois haverá ainda um longo caminho para a derrubada das tarifas de importação e todos os passos seguintes até se chegar a um mercado comum.

A ideia é reduzir em 90% (perto da eliminação, portanto) todas as tarifas de importação de bens de consumo, exceto aqueles considerados estratégicos.

Só esse passo, quando for dado, provocará um crescimento de 52,3% no comércio interafricano, calcula a Comissão Econômica para a África das Nações Unidas.

Entusiasma-se desde já o comissário de Comércio e Indústria da União Africana, o zambiano Albert Muchanga, em entrevista à agência espanhola Efe: “Este tratado transformará a vida dos africanos”. Mais: “O mercado que estamos criando vai promover investimentos em grande escala e a produção vai aumentar na África”.

Claro que é sempre prudente tomar com o máximo de cautela as proclamações otimistas de autoridades, de qualquer continente. Mas é inevitável comparar o passo adiante que a África está dando com o marasmo em que chafurda o Mercosul e, por extensão, o Brasil, o maior e mais rico país do bloco (aliás, a Argentina, segundo maior e mais rico, está no mesmo triste diapasão do Brasil).

O Financial Times observa, em texto a respeito do novo passo africano, que só há um bloco no mundo no qual o comércio intrarregional é inferior ao da África.

Adivinhou, se disse que é o Mercosul: nos dois casos, só cerca de 20% do comércio é feito com os parceiros do bloco ou, no caso da África, com os países do próprio continente.

Outra comparação triste, para africanos: os países africanos estão mais conectados a outros continentes do que à própria África, constata o Financial Times.

Vale, no entanto, também para a América do Sul: é muito mais fácil para um brasileiro viajar de São Paulo para Miami, por exemplo, do que para Quito (para não mencionar Caracas).

Vale também para o Mercosul e a América do Sul em geral o comentário para o Financial Times de KarimTazi, dono de Richbond, grupo manufatureiro marroquino com investimentos na Costa do Marfim e no Quênia: “Para um acordo comercial realmente funcionar é preciso que os governos queiram implementá-los. Eles precisam dispensar a cobrança de tarifas alfandegárias e ativar a logística”.

No ritmo em que vão os governos sul-americanos, talvez não demore tanto tempo assim para que a América Latina seja o continente perdido (no caso, subcontinente).

*Jornalista. Membro do Conselho Editorial da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Mundo, de 03/06/2019.
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