Figura 15: Jornal Sionista A Columna (Rio de Janeiro, 1916).
Fonte: Central Archeives for the History of the Jewish People (pasta David José Pérez).www.nli.org.il/>acesso em 27.03.2016.

Heller (2010), confirma que o trabalho era a primeira coisa com que tinham de se preocupar, pois depois de acolhidos e alojados, seguiam ao encontro dos seus contatos que poderiam ser familiares, amigos ou pessoas de referência.  Os que estudaram na AIU, tinham o segundo grau, falavam vários idiomas, e dominavam noções de contabilidade. No início da década 1900, Izaac Pérez, ainda jovem buscava se reinserir na vida comercial regateando em Apipica Boa Fé[1], região no rio Autaz. Neste rio, existia concessão de linha de comunicação fluvial com Itacoatiara, que era explorada nesse período pelo Coronel Joaquim Pereira Barroncas até 1906 quado foi rescindida pelo governo do Estado. Sendo que os serviços eram explorados por meio do pagamento de passagens, fretamento do transporte de correspondências, e mercadorias, concessão esta que dava suporte à população ribeirinha no que se refere ao acesso de gêneros alimentícios de primeira necessidade, que neste caso, vinha sofrendo forte concorrência por parte de indivíduos que exploravam o comércio na região como regatão (ARAUTO, domingo, 25 de novembro de 1906, Itacoatiara. Anno I, n. 09). Aludindo ao trabalho de regatão, Monteiro (1967), é da opinião de que este poderia oferecer um lucro fabuloso sem grande esforço individual, e que apresentava-se como uma atividade que envolvia lograr a boa-fé coletiva dado que, o seu ofício era uma perpétua vagabundagem e uma experiência prática da pulhice especulatória. Portanto, o imigrante marroquino, assim como os de outras nacionalidades, que ganhavam a sua subsistência com este trabalho, nem sempre eram bem-vistos, já que ele envolvia também um certo conflito de interresses, ainda que não se possa desconhecer, como admite o autor, o papel que estes desempenharam na socialização e acesso da populacao ribeirinha aos produtos de primeira necessidade.

Comentando sobre o trabalho de Izaac Pérez, Israel (1999), confirma que, este, seguia trabalhando pelo interior, porém, diferenciava-se dos demais regatões, pois possuía sólida instrução escolar, neste caso falava, lia e escrevia corretamente, o português, o espanhol, o inglês, e o hebraico. Por essa razão, e pelo apoio e proximidade da família, pressentia que teria melhores oportunidades de trabalho e prosperidade em Itacoatiara, do que em sua fracassada empreitada em Cametá. De acordo com Moreira (1989), a preferência desses imigrantes pelo interior, explica-se pelo receio de contraírem a febre amarela, que era então, no dizer de August Plane (…) intraitable cerbére, gardant la porte de I´Amazone contre les étrangers (PLANE, 1903, p. 207). Realmente, depois do surto epidêmico inicial, segundo informa Arthur Viana (1992) a febre amarela concentrou-se em caráter endêmico nas grandes cidades da Amazônia. Essa incidência, explica o fato de muitos preferirem o interior às capitais Belém e Manaus. Ademais, o quadro reduzido no obituário de imigrantes marroquinos, contido nos mapas estatísticos da obra clássica de Arthur Viana (1992), sobre epidemias, revela que essa atitude preventiva, resguardou muitos judeus de contraírem essa enfermidade.

Benchimol (1998), acrescenta que os jovens e adultos recebiam informações sobre a saúde na região, e de como deveriam se comportar nos sítios, flutuantes, batelões, casa de comércio, portos de lenha, seringais e castanhais para onde deviam se deslocar como caixeiros-viajantes, empregados das casas aviadoras. E nesse caso específico, Izaac seguia trabalhando como regatão pelos rios da região, e municípios próximos, sendo financiado pela Casa Moysés pertencente aos irmãos Moysés e Marcos Ezagui de Itacoatiara.

Fonte: BITTENCOURT, Antônio Clemente Ribeiro. Álbum do Amazonas 1910. Manáos: Courrier & Billiter, 1910 (Indicador Ilustrado do Amazonas).

Heller (2010) informa ainda que, a experiência dos judeus, como Izaac Pérez, de largar-se em viagens longíncuas e, não raro, perigosas, não era uma novidade na cultura judaica marroquina. Em especial, pode-se dizer, dos sefarditas do Magreb, para os quais a liberdade de ir e vir era uma constante. Como exemplo, cita os mercadores judeus no Marrocos, que até fins do século XVIII, que tinham por hábito levantar suas caravanas logo após as festas da Páscoa judaica, na primavera, e só voltavam às vésperas do Ano Novo, no outono. Após as festas das cabanas, que se segue ao Ano Novo e ao dia do Perdão, novamente tomavam seus camelos e seguiam viagem para só retornar às vésperas da próxima Páscoa magrebina. Assim era e quase sempre, envolvendo riscos de assaltos por parte de bandidos do deserto ou de acidentes. Essa atividade nômade, pode nos levar à interpretações comparativas mais gerais, mas evidentemente, não cabe, por enquanto, discutir até que ponto essa prática mercantil de vida amazônica, pode conduzir a um processo de assimilação étno-cultura-religiosa. Parece evidente que tal processo será, sempre, decorrente, ou de poderosas e duradouras pressões externas ao indivíduo/grupo, ou, ao contrário, por um enfraquecimento acentuado de um daqueles polos de tensão que constituem os meandros da identidade comunal. Essas são questões, que antecedem àquela mais crucial, e que podem ser tratadas a partir desta realidade prática, evidenciada pelo esforço de sobrevivência e busca de fortuna e riqueza em seu novo habitat amazônico.

Essa busca por riquezas não estava dissociada dos projetos e planos de constituição familiar. E, nesse sentido, Heller (2010), revela que, tão logo se fixavam em algum lugar, vila ou cidade e asseguram a sobrevivência econômica, apressavam-se em arranjar casamento, pois este sempre foi um dos primeiros mandamentos a ser seguido pelos homens. Neste sentido, a experiência narrada por Benchimol (1998), coletada em depoimentos de descendentes, explica que, os novos emigrantes, recém-saídos da AIU ainda no Marrocos, apressavam seus casamentos para chegar à nova terra com suas famílias já constituídas.  No entanto, muitos viajavam como pioneiros da família, sozinhos, na expectativa de, depois de acomodados às novas condições, mandarem chamar suas futuras esposas ou mesmo aquelas que deixaram no país de origem. Muitas acabaram esquecidas enquanto seus maridos e prometidos morriam do outro lado do Atlântico. Entretanto, para alguns desses imigrantes, o envolvimento afetivo com a mulher nativa era mais urgente e prático, por esse motivo, lançavam-se ao concubinato ou amancebavam-se com mulheres caboclas. Não foram raros os casos de encantamento do imigrante pela sensualidade cabocla, e o resultado foram as famílias mistas de judeus que adentravam pelos seringais e pelos afluentes do Amazonas, Madeira, Urubu, Autaz negociando pélas de borracha, castanha e outros produtos da floresta

[1]Administrava o Distrito Municipal de Apipica Boa fé como subprefeito, o major Antônio Gonçalves de Carvalho. Existia também no referido Distrito uma escola municipal mantida pelo Estado, sendo conduzida pela professora, Izabel Moreira do Nascimento (ARAUTO, domingo 28 de outubro de 1906, anno I, número:05, p. 02)

(Continua próxima semana)

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Claudemilson Oliveira
*Amazonense de Itacoatiara. Claudemilson Nonato Santos de Oliveira é professor da rede estadual de ensino (SEDUC), onde atua desde 2000. Tem mestrado em Sociedade e Cultura na Amazônia-PPGSCA/UFAM. É vinculado a dois grupos de pesquisa cientifica registrados na CAPES: Núcleo de Estudos e Pesquisas das Cidades da Amazônia Brasileira-NEPECAB/UFAM e Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Alfabetização Científica-NEPAC/INPA. É membro fundador da Academia Itacoatiarense de Letras -AIL. Atua como militante em defesa das Comunidades Tradicionais Quilombola e Indígena. Articulou em 2014 junto a Fundação Cultural Palmares-FCP, autarquia do Ministério da Cultura a certificação do Quilombo de Sagrado Coração de Jesus do Lago de Serpa.

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