fernanda torres
*Fernanda Torres

Com a vacina em dia, catei o marido, os filhos e fui dar adeus ao James Bond de Daniel Craig.

O mundo desmoronando aí fora, o Brasil no ralo, 600 mil mortes, a inflação, a Bolsa, o dólar, o inominável, o centrão e o Guedes… Eu sei. Me perdoe, leitor, mas hoje vou apelar para o escapismo.

Com a vacina em dia e os anticorpos em alta, catei o marido, os filhos e fui dar adeus ao James Bond de Daniel Craig, na primeira sessão de cinema, depois de dois anos de isolamento.

Eu não deveria reagir como reagi. Que importância tem um assediador sexista, macho branco parido na Guerra Fria? Nenhuma. Mas 007 faz parte do meu imaginário e é difícil ignorá-lo.

Confira cenas do filme ‘007 – Sem Tempo para Morrer’

Daniel Craig no novo filme de “007”, “Sem Tempo Para Morrer” Nicola Dove/Divulgação

Daniel Craig e Ana de Armas no novo filme de “007”, “Sem Tempo Para Morrer” Nicola Dove/Divulgação

Às novinhas, nascidas na era da reparação feminista, pouco interessa o capeta. Mas eu cresci com tesão no Capitão Kirk, gamei no Sean Connery ainda na infância e sonhei caber no biquíni da Rachel Welch, em “Dr. No”. Por mais que lute, ou esconda, guardo memórias cálidas de certos ícones da masculinidade tóxica e fui grata a Craig pela ressurreição do duplo zero.

O Bond louro de Craig amou e foi traído pela estonteante Eva Green; quase virou eunuco, nas mãos de Mads Mikkelsen; foi patolado por Javier Bardem e verteu lágrimas por Judi Dench. Apesar do DNA condenável, o espião que me amava evoluiu a ponto de merecer existir no planeta MeToo. Assim eu acreditava.

Se você tem planos de conferir “Sem Tempo Para Morrer“, aconselho pular de página. Daqui para frente, é tudo spoiler.

Seguindo as novas diretrizes, o filme abre com Bond curado da ninfomania, afastado do serviço secreto e prestes a se casar. Logo, o hiato romântico com a heroína de “Spectre”, a ótima Léa Seydoux, evolui para a costumeira cena de ação, uma perseguição de carros de tirar o fôlego na belíssima Matera, cidade encravada nas rochas da Itália meridional.

A sessão prometia. Lashana Lynch, futura 007, é introduzida na trama pouco adiante, em outro bom momento de tiro, porrada e bomba na Jamaica. Não quero repetir com Lashana a injustiça sofrida por Craig ao assumir o papel. Aguardemos. Idris Elba, um candidato e tanto a encarnar o espião, foi descartado porque era preciso adequar Ian Fleming ao tempo presente, refundando sua criatura na pele não só de um negro, mas de uma mulher. Eu já sabia da guinada, mas nada me preparou para o desfecho.

No final da fita, os diálogos sofríveis se juntam à péssima interpretação de Rami Malek. Seu vilão é um simulacro do Freddie Mercury que lhe valeu o Oscar. Não bastasse o sub malvado, ainda arrumaram uma atriz mirim, filha, pasmem, do velho Bond. Errar é humano, “Spectre” e “Quantum of Solace” também escorregam na saída, não é todo dia que se cospe um “Skyfall”.

Feliz, no domingão com a família, eu deixara o senso crítico em casa, mas a dez minutos da conclusão, percebi horrorizada o rumo que as coisas tomavam. Primeiro, envenenaram James, depois, armado com uma pequena pistola, o puseram para enfrentar um exército de metralhadoras. Furado como peneira, ele se arrastou até a laje da fortaleza da ilha do Doutor Nada onde, combalido e ereto, foi pulverizado por uma chuva de mísseis arrasa quarteirão, lançados pelo MI6.

Veja imagens dos 25 filmes da franquia ‘007’

Cena do filme ‘Sem Tempo para Morrer’, o mais recente capítulo da franquia 007 Divulgação

No filme ‘007 Contra Spectre’, Bond vai ao México e, após ignorar ordens dos superiores, é suspenso do cargo de agente secreto Divulgação

James Bond vê Londres em cena de ‘007 – Operação Skyfall’, filme que ganhou dois Oscar Divulgação

Era a malhação do Judas. “Mataram o James Bond?!”, perguntou-me um dos filhos chocado. “Sim, meu bem, assassinaram o personagem”.

Que o condenassem à solidão de Amir Klink, velejando pelos mares antárticos, a léguas de distância do sexo oposto. Que o jogassem no mar com uma pedra amarrada ao pescoço, ainda haveria a esperança de uma fuga à la Houdini, a chance de um “to be continued”. Mas, não. C’est fini, caput, acabou, game over. Nunca mais “my name is Bond, James Bond”.

Thor também vai virar Thora, nem em Asgard há mais lugar para o martelo dos alfas. Indiana Jones é outro. Eu até entendo Harrisson Ford não ter mais joelho para correr atrás de tesouros, e Phoebe Waller-Bridge é muito, mas muito melhor do que o sofrível Shia LaBeouf, que me causou arrepios quando vestiu o chapéu do pai. Mas a questão de gênero foi catastrófica para “Men in Black”. “Men in Black”, cujos heróis eram um negro e um representante da terceira idade.

A indústria baseada em pesquisas de tendência parece agir em bloco, transformando toda mudança em receita de bolo. Mais do mesmo. Pastiche. É como a calça jeans desbotada, no comercial da Levi’s dos anos 1970, e a publicidade da Coca-Cola do último capítulo do “Mad Men”. Revolução em lata.

Amo “Atomic Blonde” e Mystique, gosto das mulheres Maravilha e não tanto da Viúva Negra. Adoro “Fleabag“, “I May Destroy You”, “Sra. Maisel” e a Tina, no “Mad Max”. Gosto de Lawrence em “Red Sparrow” e sou devota de Ana Terra, Capitu, Marcela, Virgília, Karenina e Bovary. Mas precisava matar o James?

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada, de 27/10/2021.
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