Zona Franca

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Considero uma grande pobreza a defesa da Zona Franca de Manaus pelos políticos da oposição. Que o governador do estado simule uma resistência contra as “ameaças” que a todo momento os estados do sul, especialmente São Paulo, disparam contra este malfadado entulho autoritário compreende-se, Já é hora de começarmos a propor novas alternativas econômicas para a cidade de Manaus e liquidar com. esse modelo baseado em incentivos fiscais inspirado em ações coloniais do século XIX. A Zona Franca não passa de um enclave exportador que fez de Manaus e do Amazonas um nicho de projetos industriais eletroeletrônicos e projetos agropecuários de menor porte. No que toca à divisão do trabalho, as indústrias da Zona Franca operam as fases finais de acabamento do produto. Fases que exigem um número maior de mão-de-obra.
Extensões de grandes conglomerados multinacionais, as indústrias da Zona Franca são administradas de maneira exógena e seu capital pouco é afetado pela disponibilidade local. São indústrias que tudo trouxeram de fora, da tecnologia ao capital majoritário, e que do Amazonas somente aproveitaram a mão-de-obra barata e os privilégios fiscais. Com essa estrutura industrial altamente artificial, a capital amazonense teve seu quinhão da política de integração nacional no, estilo do regime de segurança nacional, que já foi abolido até na China. A promessa de quarenta mil empregos levou quarenta anos para acontecer, além de ajudar a provocar uma explosão demográfica em Manaus.
De cerca de duzentos mil habitantes em 1968, a cidade pulou para seiscentos mil em 1975.Considero o modelo desenvolvimentista imposto pela Ditadura Militar um erro brutal, diria esmo um crime. E pela lógica, a implantação da Zona Franca uma decisão estúpida. Primeiro, porque transformou Manaus num tumor canceroso que está destruindo o tecido social do Estado do Amazonas. Este blastoma social direcionou a nossa economia para a mão única da indústria de montagem. Na verdade, quem gera a nossa renda é o comércio, que aqui deixa os impostos, pois a Zona Franca drena a maior parte dos recursos para fora, além de sorver recursos do tesouro que beneficiam multinacionais como a Sansung, a Sony e a Honda, em detrimento de investimentos nas melhorias sociais que o estado tanto necessita. E mais, sabemos que a mão única da economia industrial primária é instável e já levaram à catástrofe cidades como Detroit, Cleveland e Buffalo, só para citar três delas inseridas na maior economia do planeta. Nenhuma sociedade pode sobreviver com uma capital que representa 60% da economia e 55% do eleitorado, deixando lá atrás, comendo poeira, os demais municípios. A capital amazonense não é uma cidade simples. Os desafios são inúmeros e o processo histórico da cidade se fez-com raras exceções-, sem planejamento, sem espírito republicano. Nos últimos anos Manaus experimentou um crescimento populacional como nenhuma capital brasileira, comparável apenas ao fenômeno de migração interna que explodiu a população de São Paulo nos anos 50. A tragédia é que as duas cidades não desenvolveram políticas que respondessem às demandas dos novos habitantes. Ao contrário, permitiu-se até mesmo o crescimento de preconceitos que isolaram ainda mais os imigrantes. O ensino, é evidente, foi degradado e nivelado por baixo, permitiu-se a invasão desordenada das’ terras urbanas e as massas miseráveis serviram apenas como pasto eleitoreiro. O resultado foi a criação de uma Manaus agonizante e sem identidade, em permanente autodestruição. Não consigo ver no horizonte uma política capaz de reverter tal situação, fruto de um populismo degenerado que tem desprezo pela ordem democrática. Também tenho dificuldade em acreditar que, na atual correlação de forças, alguma mudança seja possível. E segue o atoleiro da renúncia fiscal.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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