Vivemos uma tragédia

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*Ullisses Campbell

A mais premiada atriz brasileira completa setenta anos de carreira e diz estar sem esperanças diante da crise politica e das descobertas feitas pela Lava-Jato. 

“Um dia, a história vai pôr Babilônia em seu lugar. Foi a primeira novela da TV Globo com dois terços dos personagens negros sem que nenhum deles entrasse em cena servindo à mesa” 

Já não me levanto da cama com o ímpeto dos 50 anos. Mas, se tiver de correr, saltar e pular por um personagem, eu faço. Posso acabar no hospital depois. Mas eu faço” 

Fernanda Montenegro não havia completado 50 anos quando, em 1976, nas páginas de VEJA, refletiu sobre a longevidade de sua carreira. “Quando a gente chega à casa dos 40 anos, deixa de ser novidade”, ponderava a atriz, sugerindo que era preciso ficar alerta para não cair no esquecimento. Aos 87 anos, e setenta de carreira, Fernanda é a memória das artes cênicas no país. Seus filmes, novelas e espetáculos teatrais já lhe renderam mais de, uma centena de prêmios e a única indicação de uma atriz brasileira ao Oscar. Lavrar o inventário de sua obra implica, portanto, confrontar o que de melhor foi produzido nos palcos e telas do Brasil. Mas Fernanda diz não valer-se de troféus para medir seu grau de satisfação. “Nunca almejei esses títulos. Aceitei minha vocação como um bicho impetuoso”, fala a VEJA, em entrevista concedida por telefone, de Lisboa. Se Fernanda se resignou ao ímpeto de seu talento, o mesmo não se pode dizer sobre o momento atual. Em raro desabafo sobre a política e a Operação Lava-Jato, a atriz afirma estar decepcionada com o PT e incrédula com os que ocuparam seu lugar. “A Lava-Jato nos mostrou que todas as tendências e correntes ideológicas estão unidas no crime. A propina conseguiu algo incrível: unir esquerda e direita.”

A senhora votou no Lula. Como vê as descobertas da Operação Lava-Jato? É uma coisa trágica. Esses corruptos invadiram Brasília feito ETs e dominaram o país. Sempre votei no Lula, mas minha decepção começou há tempos, em 2012, quando ele visitou Paulo Maluf para pedir apoio à candidatura de Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo, bem antes da Lava-Jato. Ali, a máscara caiu, e ele virou um anti-herói. Sempre vejo as coisas do ponto de vista da dramaturgia. Nessa cena, o antagonista disse ao herói: “Se você quiser meu apoio, venha ao meu reino”. Ele foi e achou que ia sair vivo.

Lula é réu em cinco ações criminais e pode ser preso. Do ponto de vista da dramaturgia, trata-se de um grand finale? Vai ser preso mesmo? O momento é tão surpreendente que não sabemos o que vai acontecer amanhã. Brasília continua como se nada estivesse acontecendo. A equipe do Temer está toda envolvida com corrupção. Mas, quando gritam “Fora, Temer”, não temos quem colocar no lugar. A Lava-Jato nos mostrou que todas as tendências partidárias e correntes ideológicas estão unidas no crime. A propina conseguiu algo incrível: unir esquerda e direita.

A senhora acredita que a corrupção vai diminuir? Estamos mergulhados nessa lama desde sempre. Não vejo esperança neste governo, nem em nada. Somos um país em que metade da população não tem saneamento básico, e os corruptores aparecem na televisão falando com uma naturalidade cínica, quase cênica, como compravam os políticos. Nossa desgraça está nas valas que correm a céu aberto e na podridão que comanda o país. E o pior é que nem começamos a passar as coisas a limpo. Ainda estamos na fase de pôr as cartas na mesa. Muitas descobertas virão à tona. Vivemos uma tragédia. Porém, ainda estamos no terceiro ato.

A senhora não é adepta de manifestações políticas em público, mas entoou o coro “Fora, Temer” no Festival de Teatro de Curitiba. Sua postura mudou? Aquilo saiu sem demagogia nem popularismo. Eu estava numa sala com alunos de 20 e poucos anos, como uma bisavó. Só acho que o Temer tinha de ter saído junto com a Dilma, já que era uma chapa só. Eles foram cúmplices, coniventes, aderentes. No Brasil, sem o PMDB, ninguém se elege. Quando acaba o primeiro turno das eleições, os dois candidatos sempre empatam e vence quem formar coligação com o PMDB, que é uma praga desde a época do Sarney.

Por que recusou o convite de José Sarney para ser ministra da Cultura? Fui convidada tanto por Itamar Franco quanto por José Sarney, mas nunca cogitei aceitar. Eu mal me aguento do lado de cá. Se fosse ministra, acabaria como marionete de assessores. Por uma deformação profissional vinda do teatro, sempre enxergo a vida pelo olhar dos personagens que interpretei. Não tenho como exercer outro ofício.

O artista deve se posicionar politicamente? Quem quiser que se manifeste. Temos de ter uma visão democrática. Mas quem optar por se posicionar tem de ter paciência para aguentar as discordâncias. Sempre vai ter gente a favor e contra.

A senhora interpretou uma lésbica na novela Babilônia, em 2015. e protagonizou um beijo gay. A obra teve forte rejeição do público. Porquê? Eu mesma pedi ao Gilberto Braga que escrevesse a cena do beijo no primeiro capítulo. Demos (Fernanda e a personagem da atriz Nathalia Timberg) um beijinho afetuoso, de amor, sem língua ou qualquer outra coisa. Aí ocorreu aquela rejeição toda, que me surpreendeu. Queriam preparar o público para que o beijo entre as duas personagens ocorresse só no fim da novela. Não aceitei, pois minha personagem começava a trama casada com a personagem da Nathalia havia quarenta anos.

Não fazia sentido esperar seis meses para beijar no último capítulo. Mas o público ficou chocado porque o beijo foi entre duas velhas. Se fosse entre jovens, ninguém reclamaria.

O beijo espantou os telespectadores? A rejeição ocorreu também por outro motivo, bem mais velado, a meu ver. Um dia, a história vai pôr Babilônia em seu devido lugar. Foi a primeira novela da TV Globo a ter dois terços dos personagens negros sem que nenhum deles entrasse em cena servindo à mesa. Os negros estudavam e se formavam. Isso foi desafiador. A grande estrela de Babilônia era a Gloria Pires, que começava como amante de um motorista negro. Depois, apaixonou-se por um personagem mestiço. Nem sei se hoje se fala essa palavra. Vou falar miscigenado. Os negros ascendiam com o passar da trama. Era a negritude no protagonismo. Todos os negros prosperaram, e as mulheres brancas se apaixonaram por eles. Mas só quiseram falar do beijinho das duas senhorinhas lésbicas, meu pai do céu!

A senhora está escalada para a próxima novela das 9. Qual será seu papel? Vou interpretar uma velhinha chamada Mercedes, que é uma vidente que se prepara para o fim do mundo. Ela vai tentar salvar o que puder do apocalipse. Também acabei de fazer um filme do Cláudio Assis que tem a política como temática. Quis Deus que meus próximos trabalhos estejam ligados indiretamente ao momento delicado que vivemos. Gravar uma novela Inteira não é muito cansativo? Vou ver se dou conta. O que pesa é que uma novela desse horário é praticamente um longa-metragem por dia. O tempo em que fica no ar é muito extenso por uma exigência de mercado. Quando faço novela, a vida para. Fico fora do ar. Mesmo quando não tenho gravação, fico parada para não cansar a memória e manter na cabeça os blocos de texto para falar no dia seguinte. É um desgaste físico e psicológico violento.

A senhora prefere cinema, televisão ou teatro? Teatro. É no palco que eu ganho energia. É claro que já não me levanto da cama com o ímpeto dos 50 anos. Mas, se tiver de correr, saltar e pular por um personagem, eu faço. Posso acabar no hospital depois; Mas eu faço. Hoje, eu me olho no espelho e me sinto bem, com saúde, bem-disposta. Só que a gente nunca sabe das entranhas. Peço a Deus que eu esteja bem. Enquanto eu tiver memória para estudar textos e puder andar, vou continuar sei lá até quando.

Um ator consegue, hoje, viver apenas do teatro? O teatro não sustenta mais ninguém. Em termos econômicos, morreu faz tempo. A não ser que seja mantido pelo governo ou por um mecenas. Mas isso é raro. A ajuda governamental teve início na época da ditadura. Como os militares não deixavam a gente falar, criaram o Serviço Nacional de Teatro, que começou a dar ajudinhas em forma de dinheiro público. A partir de então, distorções foram criadas e perduram. Quando se vai ao teatro hoje, o estacionamento pode custar mais que o ingresso. Guardadas as devidas proporções, o pipoqueiro chega a faturar mais do que o ator em cena.

A senhora usa a Lei Rouanet? É uma estrutura muito complexa, que não uso há dez anos. E, sinceramente, prefiro não usar por uma decisão de caráter dramatúrgico. Se a lei fosse uma personagem, é como se eu tivesse lido o seu perfil e, depois de um certo momento, não sentisse entusiasmo para interpretá-la.

Melhor atriz, dama do teatro. Esses rótulos a incomodam? Acho tudo esquizofrênico. Não sou uma entidade. Não vim para esse ofício conscientemente. Nunca almejei esses títulos. Aceitei a minha vocação como um bicho impetuoso. Essa coisa de estrelato vem da indústria cinematográfica hollywoodiana decadente. Por isso eu sempre me volto para o teatro, onde ser estrela não existe.

Tem medo de morrer? Tenho, mas é inarredável. Sem querer, a gente começa a se preparar. Perdi o homem com quem vivi a vida inteira, meus familiares’ amigos, vários colegas de profissão. Com isso, a gente começa a se despedir de cada pessoa com quem se juntou na vida. Quando o Fernando (Fernando Torres, seu marido) morreu, parte da minha memória afetiva foi embora com ele. Ele não foi só o meu marido. Foi o único homem da minha vida. Ela não seria a mesma se ele não tivesse feito parte.

A senhora se incomodaria em ser tema de uma biografia não autorizada? Meus melhores amigos já morreram. Meus inimigos também. Sendo assim, podem fazer. Minha vida é pública. Se for urna pesquisa benfeita, devem publicar. Se sair algo errado, eu provarei que é mentira.

O que a incomodaria, então? Há textos horrorosos que circulam pela internet cuja autoria é atribuída a mim. Queria dizer que eu não tenho nada a ver com aquilo. São coisas horrendas. Se Deus existir, por favor, que Ele mande um raio na cabeça de quem os espalhou.

*Jornalista. Entrevista com a atriz Fernanda Montenegro. Matéria na Revista Veja nº 2528, de 03/05/2017.
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