Sobre a personalidade autoritária

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Quando acabou a II Guerra Mundial, surgiram algumas iniciativas para reconstruir as ruinas a irracionalidade dos conflitos que ceifaram tantas vidas humanas, num holocausto bem maior que o massacre de milhões de judeus por parte do nazismo sobre o qual costumamos e devemos meditar. É o massacre da dignidade humana, da estupidez do homem como lobo do homem, uma compreensão aloprada do liberalismo inglês proposto por Hobbes, ao pontuar as bases ideológicas do modo de produção capitalista.  Daí a instituição da ONU, e demais tentativas de montar uma torre de vigilância e ordenamento das nações, para mitigar a tentação autoritária do homem sobre seu semelhante. É bem verdade que todo este movimento revela-se tímido diante de tanta violência nas relações humanas do Cotidiano, da Memória e da História, como sugerem os diálogos entre Hanna Arendt e Walter Benjamin, e suas proposições de resgatar o primado da condição humana.

Nesta dialética entre o caos e o logos da reconstrução, emerge da II Guerra um movimento filosófico muito expressivo na releitura dos clássicos do Marxismo, da Psicanálise, do Positivismo e do Humanismo cristão, uma reflexão filosófica  que identifica na Modernidade e nas atrocidades, a permanência e imanência  do autoritarismo. Na perspectiva, portanto, de reconstrução da liberdade e do respeito à alteridade,  se constituiu a chamada Escola de Frankfurt, cujos representantes foram obrigados a fugir da Alemanha nazista para consolidar, nas Universidades norte-americanas, novos instrumentos metodológicos de compreensão e afirmação da condição humana e das contradições sociais em que ela se insere. No contraponto do autoritarismo, erguem-se as premissas filosóficas do diálogo, não apenas entre as pessoas, mas também entre as correntes predominantes do pensamento liberal, marxista e neo-freudiano do Século XX.  É a reflexão atrelada à conscientização que busca os fundamentos históricos e psicossociais do diálogo, a etapa necessária à construção dos pilares do consenso. Teodoro Adorno, Jürgen Habermas, Walter  Benjamin, Erick Fromm e Herbert Marcuse desenvolvem argumentos na direção do consenso, sucedâneo ao pós-guerra e referência desordenamento  da sociedade industrial. Para eles, compreender  a linguagem, o discurso e a narrativa têm importância decisiva na estruturação das premissas do consenso e, por decorrência, da Ética, um conceito a se resgatar e fazer prevalecer.

Esta construção dar-se-á pela “pluralidade de vozes”  que argumentam a busca do movimento consensual. E essa construção permite a todos aqueles que buscam o diálogo, na perspectiva do consenso, resgatar o sentido objetivo Democracia, da representação institucional no Estado de Direito e, principalmente, o papel real e original da Política como instrumento de ordenamento ético e dialogal da  Polis, da vida social. Com isso, e a partir dessas premissas, o filósofo Theodor Adorno desencadeia os estudos interdisciplinares da Personalidade Autoritária, para ilustrar os descaminhos do nazi-fascismo, os danos e riscos de sua insistência nas relações pessoais, sociais e institucionais na história e na dinâmica da sociedade industrial. A personalidade autoritária é incompatível com o espírito público, é avessa ao diálogo e se constitui na absoluta inviabilidade do consenso. Ela se desconstrói no imediatismo da egolatria e semeia o ressentimento da desconstrução. O avesso de tudo que o o país e a cidadania carecem para instaurar um tempo de entendimento e de inadiável comunhão.

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Alfredo Lopes
Alfredo é filósofo e ensaísta. Consultor do Centro da Indústria do Estado do Amazonas - CIEAM.

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