Sinuca de bico

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A expressão “sinuca de bico” é das mais comuns que conhecemos na voz do povo, usada todas as vezes que desejamos explicar que uma pessoa, diante de caso concreto, se encontra sem alternativa viável, ou seja, num beco sem saída.

Esse é o cenário atual e tal expressão nunca esteve com uso tão apropriado como agora, nesse angustiante momento da vida política brasileira.            .

Enredamentos à parte, sejam eles válidos, verdadeiros, comprováveis ou não, nada disso vai interessar porque para as nuvens da política partidária e eleitoral sempre acaba prevalecendo a versão e não o fato, como todos sabemos, e, por isso mesmo, após os últimos acontecimentos no curso de investigações do Ministério Público Federal, muitas autoridades do poder central se encontram, no mínimo, em situação vexatória e encalacradas.

Também vale a pena trazer à memória de uns e ao conhecimento de outros a expressão tradicional da contação dos primórdios da República de que o povo assistiu bestializado ao movimento de tropas por algumas ruas do Rio de Janeiro naquele dia 15 de novembro de 1889, sem saber o que estava acontecendo para depois tomar conhecimento da queda do Gabinete do Império e do próprio Império, e posse do poder pelos generais condecorados em outras batalhas, os quais se viram obrigados a tomar o governo para defender a dignidade da tropa.

Diverso do que sucedeu naquela época, e conforme o dito popular, os atuais dirigentes da Nação estão enterrados em uma verdadeira “sinuca de bico”, mas o povo não está assistindo a tudo bestializado, ao contrário, a grande maioria está participando de forma ativa dessa fase crucial por todos os meios e modos possíveis, inclusive os mais modernos mecanismos de expressão e comunicação.

O Amazonas já viveu situações muito parecidas em diversas passagens de sua história, seja em épocas revolucionárias, em períodos de exceção ou de governos constitucionalmente eleitos. Um caso curioso foi o do interventor Álvaro Maia na célebre prisão do criminoso colombiano e do habeas-corpus concedido pela justiça, que resultou no fechamento do Tribunal de Justiça e substituição de todos os desembargadores, mas descambou na demissão do governador pelo Presidente Vargas. Em outra época, quando as questões políticas entre o governador e o vice (1908-12) se acirraram a tal que mandaram prender o governador no meio da rua, ainda de pijama no passeio matinal pela calçada de sua residência, obrigando-o a se proteger na casa do vizinho que era cônsul de governo estrangeiro.

Em outra data o caso pitoresco do governador Thaumaturgo de Azevedo (1892) que, tendo recebido comissão de rebeldes no palácio e ouvindo desaforos políticos e pessoais, não tirou por menos, sacou da navalha e, numa rapidez impensável, cortou parte da língua de um dos oradores que defendiam a sua renúncia, mas, ao final, saiu pela portados fundos do palácio, tomou o navio e zarpou de Manaus como “o diabo foge da cruz”, mas não desistiu de ser governador do Amazonas e se candidatou em várias eleições posteriores, sem conseguir êxito.

A maior “sinuca de bico” de tantas que podem ser rememoradas na história amazonense e  coisas de passado bem distante, entretanto, foi aquela em que colocaram Antônio Bittencourt (1910) entre ver a cidade ser bombardeada por forças federais ou renunciar ao cargo de governador constitucional para satisfazer ao desejo ardente de poder de seu vice-governador e ao interesse dos senadores Pinheiro Machado e Silvério Nery, os oligarcas que comandavam a política no Norte.

E o que fez o velho Bituca: renunciou ao cargo para salvar a pele dos amazonenses e a cidade que ele amava.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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