Santa Casa de Manaus

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Corria o ano de 1880 quando em Manaus um grupo considerável de pessoas com alguma influência social e econômica se reuniu para organizar a Santa Casa de Misericórdia de Manaus … 

… sob os auspícios de Nossa Senhora da Assumpção, destinada a obras pias de atendimento a pessoas pobres e necessitadas de atenção a saúde. Cidade pequena, fundamentalmente católica, organizava a sua instituição de caridade nos moldes das demais existentes no país e em Portugal, principalmente.

O documento constitutivo da entidade definia os fins e anunciava as exigências essenciais para que os interessados pudessem se associar à entidade, entre eles ser obrigatoriamente católico, ter mais de 21 anos, ser do sexo masculino, ter bens e condições de subsistência digna e independente, ser caridoso.

Não havia vedação quanto ao ingresso de pessoas do sexo feminino, embora sobre estas recaísse o impedimento de atuarem na administração da entidade, sendo necessário serem filhas-família ou casadas com moral Ilibada.

Eis o que consta do documento original apresentado pelo provedor, o comendador Clementino Guimarães, Barão de Manaus, que foi levado ao conhecimento e aprove-se do bispo dom Antônio de Macêdo Costa para exame sob o ponto de vista da religião católica que a tudo presidia naqueles anos imperiais como seita oficial. Assim procedeu o bispo, reconhecendo que o estatuto proposto preenchia as condições para merecer a advocacia – termo usado na época – de Nossa Senhora em sua defesa.

Desde então foram anos de muita luta para a construção do hospital, sedimentação dos serviços, associação e aquisição de patrocinadores e bens, legados e heranças, até a reformulação estatutária em 1891, fruto da implantação da República, com reconhecimento do governador Eduardo Ribeiro quando a entidade deixou de exigir a condição de católico para ingresso de sócio, facilitou um pouco mais o acesso de mulheres e manteve a participação efetiva de recursos públicos, tal como sucedeu desde o princípio, inclusive com a nomeação de provedor por parte do governo estadual.

Deve ter sido grande a luta dos organizadores, como foi a dos que os sucederam ao longo dos anos em prol da entidade, com muito altos e baixos, mas resistindo a todas as intempéries a ponto de atravessar várias borrascas. Lembro bem do empenho do desembargador João Rebelo Corrêa, de Josephina Mellocomo do Dr. João Lúcio Machado, e pouco mais tarde do meu irmão João dos Santos Pereira Braga em procurar manter a entidade em funcionamento, mesmo diante de sucessivas crises econômico-financeiras.

A recuperação dessa memória histórica se dá no momento mais crucial do símbolo mais expressivo da Santa Casa que é o prédio de seu hospital, na Rua 10 de Julho, mesmo que deixando de referir aqui os muitos outros bens que a sociedade possuía e deve ainda possuir, seja nas imediações do centro da cidade como pouco mais adiante. É lastimável ver o que se dá. É doído. É desolador. É desesperador, enquanto é aguardada a decisão judicial de matéria posta ao exame superior dos órgãos competentes.

Caindo o prédio cai a história. Ruindo o prédio vai ruir parte significativa da memória, da tradição médica e de saúde pública do Amazonas, posto que foram levados ao lixo, ao que parece, há muito tempo passado, os arquivos e importantes registros dos prontuários médicos. Caindo o prédio cai por terra o trabalho de muitas pessoas ao longo desses anos todos, e uma parte do coração de todos os amazonenses.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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