Sangue inca ainda corre nas veias de sul-americanos

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Reinaldo José Lopes
*Reinaldo José Lopes

Pesquisadores analisaram DNA de famílias que dizem ter ligação com governantes do império.

Análises genéticas sugerem que o sangue dos antigos imperadores incas ainda corre nas veias de pelo menos alguns sul-americanos modernos. Pesquisadores do Peru, do Brasil e da Bolívia estudaram o DNA de famílias atuais que diziam ter ligação com os governantes do império e acharam duas “assinaturas” do genoma masculino que parecem bater com a tradição.

“Lógico que o ideal seria a gente conseguir DNA antigo de alguma das múmias dos imperadores para fazer uma análise comparativa, mas achar esses restos é praticamente impossível hoje”, explicou à Folha o geneticista Fabricio Santos, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), que é um dos autores brasileiros da pesquisa.

Entre os incas, havia o costume de tratar os imperadores mumificados como membros ainda vivos da família —eles tinham sua própria casa luxuosa e até eram levados para “participar” de reuniões do conselho imperial. Do ponto de vista dos colonizadores espanhóis, que desejavam converter a população nativa ao catolicismo, essa prática “pagã” não cheirava muito bem, de forma que muitas múmias reais acabaram sendo queimadas.

Embora tenham transformado as múmias em churrasco, os invasores europeus adotaram uma política mais conciliatória em relação aos membros vivos dos clãs imperiais, confirmando seus títulos tradicionais de nobreza e isentando seus membros do pagamento de tributos e de trabalhos forçados, por exemplo.

Durante séculos, tais famílias, muitas das quais moradoras da região de Cusco, no Peru, continuaram a reivindicar status especial, sendo conhecidas como os “Panakas” (o termo não tem relação com a palavra “panaca” em português). “Ainda hoje algumas buscam reconhecimento oficial do governo peruano, com base em registros de batismo da época colonial, por exemplo”, diz Santos.

CROMOSSOMO Y

Como acontecia no caso de outros grandes impérios da história, entre os incas o poder era passado de modo patrilinear, ou seja, de pai para filho do sexo masculino. Por causa desse princípio, os pesquisadores decidiram analisar principalmente variantes do cromossomo Y, a marca genética da masculinidade (os homens carregam em seu DNA os cromossomos sexuais X e Y, enquanto as mulheres têm dois cromossomos X).

A equipe liderada pelo geneticista José Sandoval, da Universidade de San Martín de Porres, obteve amostras de DNA de 18 homens e uma mulher, pertencentes a 12 famílias de origem supostamente imperial que vivem em San Sebastián e San Jerónimo, dois distritos de Cusco. Além do cromossomo Y, também foi analisado o mtDNA (DNA mitocondrial), material genético que só existe nas usinas de energia das células, as mitocôndrias, e que só é passado pelo lado materno, de mãe para filho ou filha.

cromossomos imperiais

 

Por um lado, o resultado mostrou que as variantes do cromossomo Y carregados por muitos dos “Panakas” não têm parentesco próximo umas com as outras. O que é esperado, aponta Santos: muitas famílias podem ter continuado a produzir descendentes apenas pelo lado materno, o que apagaria a marca da ascendência paterna imperial, sem falar em coisas como adoções ou infidelidade conjugal, que também bagunçariam o cenário.

Por outro lado, os geneticistas identificaram dois conjuntos diferentes de cromossomos Y, ambos apelidados de “Awki” (“herdeiro do trono” em quíchua, a língua franca do império), que parecem bater com o que diz a tradição. O conjunto Awki-1, presente em oito indivíduos de cinco famílias diferentes, parece remontar a um ancestral que viveu há pouco mais de 500 anos, segundo os cálculos dos pesquisadores. A data coincide com um período de rápida expansão do Império Inca.

Já o conjunto Awki-2 está presente em apenas um indivíduo das famílias “Panakas”, mas corresponde também ao cromossomo Y de outros homens espalhados pelos Andes, cujo DNA tinha sido estudado em pesquisas anteriores. Essa variante teria surgido há cerca de 900 anos, antes do surgimento do império, mas numa época em que os ancestrais da realeza inca já estavam adquirindo algum poder político na região, segundo as tradições pré-colombianas.

Curiosamente, ambos os grupos também parecem se encaixar, de modo geral, com os mitos que a realeza inca costumava contar sobre suas próprias origens. Havia duas versões: a de que eles teriam surgido numa caverna do distrito de Pacarictampu, 50 km ao sul de Cusco; ou na ilha do Sol, no lado boliviano do lago Titicaca (380 km a sudeste da cidade peruana). De fato, há uma associação forte dos conjuntos de cromossomos Y tanto com populações do lago Titicaca quanto com outros grupos da parte sul dos Andes.

“Achamos melhor não bater o martelo ainda sobre a questão do local de origem. Mas vamos continuar estudando a questão”, diz Santos. O estudo acaba de sair na revista científica Molecular GeneticsandGenomics e também foi apresentado pelos pesquisadores para as famílias que doaram seu material genético.

*Jornalista e escritor. Artigo na Folha de São Paulo inserida no Caderno Ciência+Saúde, B7, de 07/04/2018.
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