“Creio que seja verdade, estamos no fim de mais um ciclo da vida política do País, com repercussões profundas que podem deixar sequelas”. 

Tomo emprestado a Sérgio Porto o título de uma de suas músicas, feita especialmente para um espetáculo do Teatro de Revista em 1966, satirizando a obrigatoriedade de que as escolas de samba do Rio de Janeiro apresentassem enredos somente com temas históricos, o que gerou grandes disparates. A composição musical se transformou em enorme sucesso e foi adotada pela linguagem popular para significar, também, uma enorme confusão que ninguém sabe muito bem como começou e nem consegue prever como vai acabar. Por isso mesmo parece bem adequada para os dias que correm, em meio a essa enorme confusão que cresce a cada hora com egos inflamados, oportunistas de plantão, desorganização social, política, econômica e quase baderna geral.

Pode ser que não, mas creio que seja verdade, estamos no fim de mais um ciclo da vida política do País, com repercussões profundas que podem deixar sequelas, mas, ao modo dos ciclos anteriores que também se romperam abruptamente, há de anunciar ou representar uma boa nova. No Império foram vários os rompimentos cíclicos; na República depois de algumas ameaças mais expressivas, deu-se o corte de 1930, outro se faria em 1964 e mais tarde em 1985 o qual se concluiu em 1988 com a Constituição. Agora, no meio de tudo isso, a insegurança aumenta, as incertezas crescem e a balbúrdia urbana parece querer se impor sobre a ordem e a democracia.

No Amazonas há registros históricos semelhantes. Assim foi em 1892-93, tempo das muitas arengas entre Eduardo Ribeiro, Thaumaturgo de Azevedo, Guilherme Moreira, Constantino Nery e os grupos militares antagônicos, quando o povo fez manifestos, saiu às ruas e proclamou o governador que queria; foi assim também em 1913, contra o governo Jonathas Pedrosa, com populares nas ruas e a polícia resistindo à bala e fogo; tivemos ainda as muitas lutas em batalha campal de Guerreiro Antony e seu grupo político que deixavam a cidade em sobressaltos; além do quebra-quebra … queima-queima … de bondes elétricos feitos pelos estudantes em busca da melhor qualidade dos serviços. Vale lembrar as passeatas e invasão de casas de residência de líderes políticos em 1924, com móveis, livros, roupas e louças jogadas pelas janelas, num verdadeiro vendaval que varreu várias ruas da cidade; o mesmo sucedeu em 1930, quando até placas de ruas foram arrancadas por parte da população revoltada com os “decaídos”, pretendendo rifar de vez o nome de algumas personalidades políticas do Estado. E que a massa, guiada por uns nem sempre com interesses democráticos, acaba sendo levada à prática de atos nada recomendáveis à título de resistência, reação, ou defesa de direitos.

Por conta de coisas semelhantes, aqui mesmo em nossa terrinha, outros episódios podem ser relembrados, seja o do governador que acossado pelas forças revolucionárias fugiu de lancha pelos fundos do Palácio Rio Negro há muitos anos passados, seja daquele governante que foi recolhido ao xadrez pelos revoltosos, dois dias depois foi solto por eles, reassumiu o governo e um dia depois voltou para o xadrez, tudo isso para “garantir a ordem pública”; ou ainda daquele deputado que foi cassado por faltar às reuniões da Assembleia de forma contumaz, e, mesmo alegando estar de licença médica, perdeu o mandato somente para abrir vaga para o substituto que era amigo do governador.

O fato é que a Nação vive momentos conturbados nos quais tudo ou nada pode acontecer, e se faz necessário que as instituições estejam fortalecidas para que a travessia seja feita, tal como na música do Sérgio Porto, porque logo depois acabou prevalecendo o bom senso e as escolas de samba voltaram a ter liberdade de escolher seus enredos.

Quem sabe, depois de tudo isso tenhamos o direito e saibamos escolher bem o enredo da vida nacional.

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Roberio Braga
*Amazonense de Manaus. Historiador. Bacharel em Direito, especializado em Direito Agrário, pós-graduado em Administração de Política Cultural e Mestre em Direito Ambiental. Professor da Escola Superior da Magistratura do Amazonas e da Universidade do Estado do Amazonas. Ex-presidente da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Secretário de Estado de Cultura, desde 1997 até esta data.

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