Primavera

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*Fernanda Torres

Obra-prima de Oswald de Andrade, ‘O Rei da Vela’ retornou aos palcos, e sem cheiro de naftalina.

Assisti “Seria Cômico Se Não Fosse Sério” aos 11, “Trate-me Leão” aos 12 e “Macunaíma” aos 13, mas tinha apenas 2, quando “O Rei da Vela” estreou. Eu levaria 50 anos para curar a dor de corno de ter perdido o “Terra em Transe” da Praça Tiradentes.

A obra-prima de Oswald de Andrade retornou aos palcos, e sem cheiro de naftalina.

O Brasil da democracia com d minúsculo de agora, não difere do da crise do café dos anos 30, ou do da ditadura dos 60, quando a peça foi, respectivamente, escrita e concebida. Apesar do luto pela imutabilidade de nossas mazelas, foi o fascínio pela pátria antropotragicômica que me tomou de assalto durante a sessão.

Reafirmei ali, na plateia d’O Rei da Vela, meu laço indissolúvel com o Brasil. É romântico, eu sei, melo patriótico, mas verdadeiro.

Trata-se de uma ópera tupiniquim em três majestosos atos, com direito a aria musicada por Caetano Veloso e arranjada por Rogério Duprat; performances inesquecíveis de Borghi, Starling e Prado, coroadas pelos exuberantes cenários e figurinos de Hélio Eichbauer. Zé Celso concebeu um clássico revolucionário, potente como nunca vi.

Na semana seguinte, botei meu filho num avião com um amigo, achei importante que mais de um moleque visse, e o obriguei a conferir. Quis dar uma surra de ambição estética na turma que chega aos 18.

Ele me telefonou siderado. Coisa rara, agradeceu à mãe a insistência. De uma só tacada, havia juntado a Semana de Arte Moderna com a Tropicália e entendido quem pariu o Asbrúbal. Experimentara um arrebatamento raro, nesse deserto de ideias em que estamos metidos.

Eu me lembro da humilhação que eu sentia, com a idade dele, de saber que o apogeu da música, do teatro e do cinema ocorrera enquanto eu ainda chupava chupeta. A ciência incômoda de que havia despertado em pleno entreato.

Foi o tosco e primitivo Brock que sanou meu complexo de vira lata. Arnaldo, Miklos, Reis, Renato, Cazuza, Herbert, Lobão e, mais tarde, Chico Science, Cássia, Marisa e Adriana, deram cabo da minha inferioridade geracional.

Noto nos meus enteados e no meu filho a mesma angústia que me perseguia, a da falta de pertencimento. E foi por isso que eu quis que ele testemunhasse Oswald, Borghi, Hélio e Zé Celso no seu máximo. Que tomasse gosto pela arte da irreverência cívica, e ganhasse coragem para enfrentar o exército de donas Polocas saudosas da boa e velha censura.

No lançamento do meu livro no Teatro Oficina, o Zé encarnou Rei Lear na cena da tempestade. É onde nos encontramos nesse momento, na planície árida, no olho do furacão. O diretor terminou a noite decretando, como havia feito ao fim do “Rei da Vela”, o começo de uma primavera cultural no país. Alguém gritou alguma chatice sobre Lula e Temer, esse rame-rame insuportável, do qual nos tornamos reféns, e o Zé passou por cima, dizendo que estava falando de arte.

É isso. Meus candidatos para 2018 são Oswald, Mário, Shakespeare, Carlos Gomes, Villa-Lobos, Nelson, Tom, Glauber, Ubaldo, Clarice, Machado, Drummond e Bandeira. Eu os elejo como norte e guias.

Danilo Miranda também tem o meu voto, ele, que há trinta anos, apesar das intempéries, conduz o Sesc São Paulo com a clareza e a grandeza que nenhum engravatado de Brasília possui. Agradeço a Danilo por ter visto “O Rei da Vela” aos 52, e mais ainda, pelo meu filho tê-lo assistido aos 18.

Now is the winter of our discontent.

*Atriz. Escritora. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada C10, de 24/11/2017.
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