Possuídos pela raiva

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Casal mergulha na história do combate à infecção pelo vírus da raiva e vê sua influência na cultura popular

 

RODOLFO LUCENA
DE SÃO PAULO
Sexo, violência e fantasia se combinam com rigorosa pesquisa científica, curiosidade jornalística e informação precisa para a construção de “Rabid: A Cultural History of the World’s Most Diabolical Virus” (Raivoso: uma história cultural do mais diabólico vírus do mundo).

Lançado em julho nos EUA, o livro mergulha em milênios da história humana para buscar as primeiras referências a essa doença assustadora, também vista por olhos de médicos e cientistas.

Depois, trafega pelos séculos mostrando fenômenos culturais que foram -ou, pelo menos, poderiam ter sido- inspirados em algumas características da raiva.

Ao mesmo tempo em que exuma vampiros, zumbis e lobisomens, acompanha crendices que em vários períodos foram tomadas como verdades científicas. E chega até a
histórias infantis contaminadas pelo terrível personagem.

Coautora do livro, a veterinária norte-americana Monica Murphy nunca vira um animal raivoso até começar a obra. Acabou tendo uma dose maior do que a esperada: foi a Bali acompanhar os trabalhos de combate a uma epidemia da doença. Ali, viu desde o morticínio de cães de rua até a peregrinação de voluntários vacinadores.

Por cerca de dois anos, ela e o marido, o jornalista Bill Wasik, trabalharam nas pesquisas e na produção de “Rabid”. Além de Bali, visitaram o laboratório de Louis
Pasteur (1822-1895) -inventor da vacina antirrábica-, em Paris; na Bélgica, estiveram na basílica de santo Humberto, supostamente responsável por milagrosas curas da raiva na Idade Média.

Mas talvez as pesquisas mais fecundas tenham sido realizadas perto da casa dos autores, nas bibliotecas da Universidade de Berkeley na Califórnia. Lá, Wasik encontrou as referências históricas que ajudaram a sustentar sua tese sobre a relação entre a raiva e os mitos e as fantasias criados pela humanidade.

“Para mim, a raiva parecia ser uma espécie de possessão e descobri que, em muitas línguas e culturas, a palavra raiva (“rabid”, “lyssa”, “rage”) tem exatamente essas conotações sobrenaturais”, disse ele à Folha, por e-mail.

Foi buscar na “Ilíada” o que parecem ser as primeiras referências a seres possuídos por algo que os tornava violentos, irascíveis, frenéticos. Lá surge a palavra “lyssa”, que procura definir algo ou alguém em um estágio de fúria animal, insensatez total.

Ao longo dos capítulos, Wisak e Murphy vão trabalhando o aspecto linguístico: como a doença é definida. Também dissecam a evolução dos estudos médicos, da descrição da doença, das formas de tratamento e das pesquisas para descobrir suas causas.

Um texto médico francês de 1857, por exemplo, proclama que a falta de sexo é a exclusiva razão do surgimento da raiva nos cães; no mesmo período, na Itália, um
projeto para prevenção da hidrofobia propunha a criação do que os autores descrevem como bordéis para cães.

Foi também no século 19 que o apetite sexual incontrolável e a ninfomania começaram a aparecer na lista de sintomas da hidrofobia. Algumas histórias partem de fatos para criar mitos, como o de um homem que, acometido pelo vírus, teria realizado 30 atos sexuais em 24 horas…

Quanto aos tratamentos, há desde colocar pelos do cão raivoso nas feridas de mordida até jogar o doente em um barril de água -o objetivo seria reidratar o coitado e fazê-lo perder o pavor à água.

“Rabid” traz um substancial capítulo dedicado ao trabalho de Louis Pasteur. A pesquisa científica é descrita com tintas de aventura digna de “Os Caçadores da Arca Perdida”; os autores não deixam, porém, de encarar com devoção o trabalho do criador da vacina antirrábica.

É um dos melhores momentos do livro, que chega à modernidade, acompanhando a crise em Bali, casos nos EUA e histórias de sobreviventes à doença.

São talvez os episódios mais emocionantes do trabalho, que termina com um balanço da situação atual da doença no mundo -ainda provoca 55 mil mortes por ano- e as perspectivas para a continuação do combate ao mal.

RABID
AUTORES Bill Wasik e Monica Murphy
EDITORA Viking Penguin
PREÇO US$ 12,99 (R$ 26,34) em livro eletrônico na Amazon
AVALIAÇÃO Ótimo

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/1179718-livro-conta-historia-da-infeccao-pelo-virus-da-raiva-e-ve-sua-influencia-na-cultura-popular.shtml

 

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