Pobreza e cognição

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*Drauzio Varella

Pessoas mais pobres muitas vezes exibem comportamentos que tendem a mantê-las em estado de pobreza. Embora essa afirmação pareça politicamente incorreta, é baseada em farta literatura especializada.

Diversos estudos mostram que nas camadas de renda mais baixa, é maior a proporção daqueles que cuidam mal da saúde, aderem com irregularidade aos tratamentos médicos, têm mais filhos, dificuldade para cumprir horários e produtividade mais baixa, comportamentos que reduzem as chances de melhorar de vida.

As explicações clássicas para esse fenômeno envolvem a falta de escolaridade, de transporte eficiente, de acesso à assistência médica, violência urbana, desorganização familiar e preconceito social.

Psicólogos e economistas das universidades Harvard e Yale publicaram um estudo na revista “Science” que propõe outras explicações.

Para testar a hipótese da qual partiram, eles realizaram um experimento em laboratório e outro em campo.

No primeiro, participantes com rendas mensais variadas foram colocados diante de quatro cenários hipotéticos que requeriam tomadas de decisões financeiras. Precisavam resolver como gastar algumas quantias pequenas mesmo para o bolso de pobres e outras elevadas para os pobres e razoáveis para os mais ricos.

Imediatamente após escolher a melhor opção em cada caso, o participante era submetido a uma bateria de testes para avaliar as funções cognitivas.

Quando a decisão a ser tomada envolvia pouco dinheiro, pobres e ricos apresentaram performance comparável nos testes cognitivos. Quando precisavam decidir como gastar somas maiores, entretanto, os pobres apresentavam resultados piores nos testes de cognição.

O estudo de campo foi realizado em dois distritos de Tamil Nadu, na Índia, entre 464 lavradores, em que mais de 60% dos rendimentos vinham da colheita de cana.

Num intervalo de quatro meses, os participantes foram entrevistados e responderam aos mesmos testes de cognição duas vezes: uma antes da colheita, ocasião em que enfrentavam pressões financeiras, e outra depois de receber o pagamento da safra.

A média de erros cometidos nos testes foi maior antes da colheita do que depois dela, quando a situação estava mais confortável.

Tomados em conjunto, os dois experimentos ilustram como restrições financeiras, endêmicas na pobreza, podem provocar deficiências na capacidade cognitiva. A ordem de magnitude dos efeitos observados corresponde a uma queda de 13 pontos no Quociente de Inteligência (QI).

Os autores afastaram o estresse provocado pela falta de dinheiro, como a causa desse fenômeno, porque há evidências contrárias. Por exemplo, o estresse melhora a memória de trabalho, aquela que empregamos a todo momento na rotina diária.

Para eles, a pobreza captura a atenção, dispara pensamentos intromissivos e reduz as reservas cognitivas. Ser pobre não significa apenas viver com pouco dinheiro, mas conviver com reservas cognitivas mais baixas.

A pobreza interferiria com as habilidades cognitivas, não por algum tipo de condicionamento genético ou deficiência individual, mas por que o contexto social agressivo impõe sobrecargas que comprometem o desenvolvimento pleno.

Essa depleção do funcionamento mental obedece ao chamado “modelo de reserva limitada de autocontrole”.

Para atingirmos um objetivo, é o autocontrole que nos permite adotar comportamentos e condutas que nos conduzam da condição indesejada na direção daquela que almejamos. Não conseguimos, no entanto, utilizar essa estratégia em sua plenitude, porque a capacidade de autocontrole é limitada e exaurível.

Num estudo, pessoas obesas induzidas a resistir à oferta de um chocolate delicioso, apresentaram performance mais medíocre nos testes de capacidade mental e no controle de emoções negativas. Em seguida, aumentaram o número de calorias ingeridas às custas de alimentos mais calóricos.

Como na maior parte do tempo, os mais pobres enfrentam problemas de solução mais difícil, têm maior probabilidade de enveredar por caminhos deletérios como engordar, fumar, beber em excesso e gastar de forma menos sensata.

A frustração continuada de necessidades e desejos esgotam nossas reservas mentais.

*Medico e escritor. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada E11, de 04/10/2014.
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