Pegada Hídrica

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Em continuação ao assunto “pegada hídrica” iniciado na semana passada, hoje resgato algumas importantes pegadas hídricas amazônicas. Começo dizendo que a história natural da Terra registra dois importantes episódios associados ao clima e à água na Amazônia. O primeiro foi a glaciação ocorrida mais ou menos 18 mil anos atrás que transformou grande parte da água do planeta em gelo fazendo o mar recuar cerca de 100 metros abaixo do nível atual deixando muitas terras emersas e permitindo que os primeiros migrantes atravessassem o Estreito de Bering da Ásia para a América do Norte. Esses primeiros habitantes pouco a pouco foram expandindo seus domínios, atingindo a América Central, chegando à Amazônia por volta de 11 ou 12 mil anos atrás (versão oficial). Aqui, imagina-se que a escolha do local de moradia tenha sido a margem dos rios que constituem despensa farta.

O desastre hídrico

O segundo episódio aconteceu por volta de 5 a 6 mil anos atrás quando um significativo degelo fez subir o nível do mar represando os rios amazônicos e dando origem às abençoadas várzeas, embora tenha deixado, como efeito colateral, a destruição dos vestígios dos grupos humanos ancestrais que habitaram o beiradão. Essa transgressão marinha é uma das razões que dificulta a reconstituição da ocupação do espaço amazônico pelos povos primitivos, restando a terra-firme como esperança para as pesquisas arqueológicas e antropológicas desvendarem nossa história pré-cabralina.

Os registros históricos mais detalhados se referem à chegada dos primeiros colonizadores brancos, merecendo destaque cronológico, para as nossas pegadas hídricas, a descoberta da foz do Amazonas cujo mérito viaja entre Duarte Pacheco Pereira (1498), Vicente Yañes Pinzon (1500) que descreveu o “Mar Dulce” e Diego de Lepe (1503 ou 1505) segundo os historiadores. Os melhores documentos dos nossos primórdios se referem à viagem de Francisco de Orellana que, em 1541, percorreu o rio Amazonas de oeste para leste e, talvez acometido por delírios eróticos, imaginou uma tribo formada por nuas mulheres guerreiras que nunca mais foram vistas.

Um lapso sem muita história

Como os indígenas não tinham escrita, a transferência da história e da cultura era feita pela linguagem falada e por registros gráficos que se perderam com o extermínio das tribos e por não existirem pedras duras na região da Amazônia Central. Por isso os ancestrais vestígios das pegadas hídricas, da história, da geografia, da geomorfologia e da biologia se perderam para sempre.

Os registros científicos

O primeiro registro científico das marcas hídricas amazônicas foi feito por Johan Von Spix e Carls Friedrich Von Martius em 1831 que, observando o pulso de enchente e vazante, definiram o fenômeno como “drama of nature”.  Alguns anos depois Alfred Wallace (1853) descreveu as águas tipificando-as como azuis, amarelas e pretas, colorindo a pegada hídrica.

Em épocas mais recentes destaco o cientista germano-amazônico Harald Sioli que durante 50 anos publicou inúmeros trabalhos sobre a água na Amazônia e foi o articulador do convênio entre o INPA e o Instituto Max Planck que viabilizou muitas pesquisas sobre os nossos sistemas aquáticos e formou muitos pesquisadores regionais. Entre as marcas hídricas reveladas por Sioli destaco aquela que diz: “os rios funcionam como sistema renal da paisagem”.

Do ponto de vista literário, Agnello Bittencourt (1925) escreveu que “o rio mar desempenha um papel econômico de primeira ordem”; Leandro Tocantins afirmou que “O rio comanda a vida” (1952); Julio Verne fez registro notável em seu livro “A jangada: 800 léguas pelo Amazonas” ambientado em 1852. E como membro essencial dessa seleta literária, inscrevo o poeta Thiago de Mello e seu belíssimo livro “Amazonas pátria da água” (1987).

Por questões de espaço, fragmento o tema e volto a ele na próxima semana refletindo sobre antigas e recentes pegadas hídricas, mas quero finalizar este texto lamentando que o “drama of nature” de Spix e Martius tenha se transformado em drama humano por conta de gerações de governantes incapazes de entender que a tríade essencial da Amazônia é constituída por floresta, etnias e água.  Não existe nenhuma outra Nação no mundo que tenha tão extensa cobertura florestal, seja louvada por tantas línguas, e abençoada com essa enorme quantidade de água.

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Ozório Fonseca
Biólogo, Mestre em Ecologia, Doutor em Ecologia e Recursos Naturais. Professor Visitante na UFRGS (1983-1995). Diretor do INPA (1995-1999), Professor da UFAM e da UEA. Membro Honorário da Academia Amazonense de Medicina; Membro Titular da Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Filho do ex-prefeito de Itacoatiara Osório Alves da Fonseca (1889-1960) e da professora Francisca de Menezes Fonseca (1906-1988). Nascido em Manaus, porém criado em Itacoatiara. É o nosso querido mestre do Principado de Itacoatiara (título que conferiu à nossa cidade).

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