Paulo Sampaio

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Na semana passada, precisamente ao amanhecer de 25/07/2017, perdi mais um amigo e um grande referencial de homem público: Paulo Pedraça Sampaio. A má notícia deixou-me abatido, trouxe-me à lembrança alguns acontecimentos da recente história política do Amazonas, e aqui pontualmente ressalto as paliçadas políticas em oposição ao regime autoritário, inaugurado em 1964 e cessado somente com a eleição em 1985 do presidente Tancredo Neves, das quais participamos – o ilustre extinto, este escriba e outros bravos companheiros de Itacoatiara. Uma época trágica e ao mesmo tempo desafiadora porque despertou nos espíritos democratas o desprendimento e a coragem que os levou à luta em defesa das liberdades públicas – muita vez com risco de suas próprias vidas. Época sem dúvida marcante, que, no período ântero-posterior ao AI-5, ainda se nos demonstrou mais fortemente perigosa, por que acelerou o processo de desrespeito a direitos fundamentais da pessoa humana e colocou em risco a tradição democrática do povo brasileiro.

Fotografia de Paulo Sampaio ainda jovem, lá pelos seus 40/45 anos de idade.

Pois foi na gloriosa Cidade da Pedra Pintada, terra de muita história cívica e repleta de tradições, que o cidadão Paulo Sampaio revelou-se grande líder popular, paladino da liberdade e valente defensor das boas causas públicas – marcou enfim com letras de ouro a história política do nosso Estado. Aos 92 anos partiu deixando os filhos Ilsa Maria, Ivaneide, Luiz Carlos, Paulo José, Nair Cristina e Márcio André, além de 15 netos e 21 bisnetos. Sua estrela de bons serviços brilhará para sempre entre seus compatrícios.

Nascido em Manicoré, aos 25 de janeiro de 1925, Paulo Sampaio veio para Itacoatiara em 1939, onde se casou com a jovem Nair Calixto, filha da tradicional família itacoatiarense – a qual passou a chamar-se Nair Calixto Sampaio. Nascida a 3 de setembro de 1929, dona Nair faleceu em Manaus no dia 8 de maio de 2014. Portanto, partiu na frente, e hoje desfruta do descanso celestial ao lado de seu amado esposo.

Espírito boêmio, na juventude Paulo Sampaio fez companhia a Hely Ruben de Paiva (mais tarde despachante aduaneiro), Guarany Barbosa e José Farias. Além destes, foi contemporâneo de Sebastião Higino de Vasconcellos Dias (gerente e mais tarde superintentende regional do Banco do Brasil), Manoel Mendes da Silva (servidor do SESP), César do Carmo Garcia (metalúrgico), Francisco Ferreira Athaide (farmacêutico e vereador), José Tomás de Aquino (comerciante e vereador), João Valério de Oliveira (advogado, vereador e deputado estadual) e vários outros.

 Fotografia de Paulo Sampaio aos cerca de seus 60 anos de idade.

Homem de ideias avançadas entrou na política em 1946 e logo fundou a secção local do Partido Comunista Brasileiro (PCB), tendo como principais companheiros Aldo Moraes e César Garcia. Decretada a extinção do partido, Paulo Sampaio passou a trabalhar na clandestinidade, liderando movimentos de massa e de trabalhadores, organizando sindicatos operários na cidade e no interior. Participou ativamente das campanhas “O Petróleo é Nosso” e “Pela Paz Mundial”. Ao lado de João Valério, José de Aquino e Francisco Athaide, criou o Centro Cultural “Castro Alves”, que teve curta duração. Foi um dos fundadores do antigo e tradicional Comercial Esporte Clube, hoje extinto.

Em 1959, precisando de espaço político para atuar de modo efetivo, deu ingresso no Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), de Plínio Ramos Coelho, Bernardo Cabral e Almino Afonso. Naquele ano disputou uma das vagas à Câmara Municipal de Itacoatiara, sendo eleito, juntamente com Francisco Athaide, Luiz da Paz Serudo Martins e Argos do Amaral Valente. O então titular da Prefeitura era o pecuarista e também grande homem público, Acácio Soares de França Leite.

Fotografia de 20/01/2005: Paulo Sampaio e sua esposa Nair Calixto Sampaio,
quando ele completou 80 anos.

Quando da tentativa de invasão de Cuba pelos Estados Unidos da América, no mesmo ano de 1959, Paulo Sampaio criou grande problema político, ao apresentar na Câmara Municipal uma moção a favor do então candidato a ditador Fidel Castro. Presidente-fundador da secção local do Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), não foi reeleito vereador em 6 de outubro de 1963. Suplente, só assumiu em 17 de setembro de 1965, tendo como companheiros de Câmara Geraldo Braga Filho, Antônio Gesta Filho, Adolfo Fontenele Olímpio, Antônio José Figueiredo, José Tomás de Aquino, Jurandir Pereira da Costa e Acácio Leite.

Cassado, antes do final do ano, e preso pelo Exército, foi recambiado para a prisão em Manaus, juntamente com o suplente de vereador Argos do Amaral Valente. Solto, Paulo Sampaio impetrou mandado de segurança contra o ato da Câmara e voltou à atividade legislativa municipal, onde permaneceu até 1969, em virtude da prorrogação em um ano dos mandatos de prefeitos e vereadores – promovida pelo governo militar sediado em Brasília.

Fotografia de 25/01/2010: Paulo Sampaio, ladeado pelos filhos,
na comemoração de seus 85 anos de idade.

A partir de 1965 passou a trabalhar como advogado provisionado. Candidato a prefeito nas eleições municipais de 1968 e 1972, não logrou êxito, perdendo respectivamente para Jurandir Pereira da Costa e Aurélio Vieira dos Santos. Candidato a deputado estadual pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), em 1970, recebeu 2.070 sufrágios, mas foi esbulhado nessas eleições perdendo a vaga para a deputada Léa Alencar Antony. Tentando outra vez, foi eleito em 15 de novembro de 1974, ingressando magistralmente na Assembleia Legislativa do Estado (ALE-AM) no início de 1975. Líder da bancada da oposição, sua luta parlamentar foi pela moralidade administrativa e em defesa da posse da terra rural. Em diversas oportunidades, por sua postura altiva, combatividade e presença frequente na tribuna, Paulo Sampaio foi agraciado com os títulos de “Melhor Deputado” e ou “Deputado Mais Atuante”.

Infelizmente não reeleito para a ALE-AM, na eleição seguinte, de 1978, Paulo Sampaio recolheu-se à atividade de empresário no campo da metalurgia. Ainda no pleito de 1982 tentou sem sucesso a Prefeitura de Itacoatiara. Desencantado, abandonou a política e, logo em seguida, caiu gravemente enfermo. Para tristeza de seus familiares e amigos, após vários anos de sofrimento, veio a falecer.

À sua ausência, neste momento, só nos resta lamentar e proclamar bem alto o nosso adeus ao grande homem público. Descansa em paz, Paulo Sampaio!

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