Patologia política

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*Luis Francisco Carvalho Filho

Por que alguém inteligente pode ser voluntariamente ingênuo ou desviar o olhar do que não gostaria de ver?

Psicanálise selvagem é a interpretação amadora ou inexperiente dos sintomas, sonhos, palavras e ações de seres humanos. Freud a vincula à ignorância e, por ser o meu caso, não me arriscaria a diagnósticos. Muito além das questões jurídicas, a curiosidade em torno do inconsciente lança o desafio de perguntar.

A Lava Jato caminha desde 2014 e todos sabem que, dia a dia, o cerco se fecha. A perda da realidade, sintoma associado à psicose, explicaria conversas absolutamente comprometedoras que homens públicos calejados mantiveram com empresário investigado em várias frentes da Justiça Criminal?

Conversavam com um amigo? Temer e Aécio eram amigos de Joesley Batista, que por sua vez era amigo de Eduardo Cunha (e por isso ajudava sua família), assim como Lula era amigo de outros? Por que políticos mudam de amigos quando sobem a escada do poder? Os novos amigos, além do conforto material, são capazes de oferecer o conforto moral das antigas amizades? Amigos delatam?

A perda da realidade se vê em situações singelas também, como no nepotismo, cada vez mais inusitado. Sabem que não podem nomear parentes, mas parentes são nomeados, o que gera ações de improbidade, descrédito e prejuízos eleitorais.

Além das mentiras compulsivas, não só nas campanhas, homens públicos deixam-se levar pelo devaneio (sonho diurno) e materializam seus desejos misturando o que não lhes pertence com o que gostariam de ter ou confundindo gestos de amizade com presentes caros e favores inconfessáveis, que geralmente resultam em pequenas ou grandes vantagens?

O que dizer da vaidade desmesurada, do sentimento de intangibilidade, do cinismo?

Por que as pessoas só enxergam a vilania dos homens públicos das outras correntes políticas? Por que a paixão se instala na política? Por que alguém inteligente pode ser voluntariamente ingênuo ou desviar o olhar do que, por ideologia ou medo da frustração, não gostaria de ver?

Temer, no seu primeiro pronunciamento, foi assertivo: “Não renunciarei” –e repetiu a frase bombástica para aplauso tímido de reduzida plateia. Não poderia o presidente da República dizer tudo o que disse, sem utilizar a palavra maldita (para qualquer governante), afirmando, por exemplo, que o seu trabalho seguiria firme e resoluto na direção da recuperação econômica? É só involuntária oferta de mais um refrão para seus adversários ou é ato falho, lapso de palavra, indicativo de que a renúncia está no horizonte?

O estado é de tensão e nebulosidade. A economia volta a desmoronar. O Brasil parece uma empilhadeira de crises.

Lula quer diretas já para ter o veredito do povo e fugir de sentenças judiciais. Apesar de a renúncia e o impeachment serem capazes de levar Temer para as barras dos tribunais, a permanência no Palácio do Planalto também lhe concede uma sobrevida. Quando sai apressado, é visível o estratagema do presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), o primeiro na linha sucessória, de fingir que fala ao telefone para fugir da imprensa. Será que ele tem estampa presidencial, ainda que transitória? E o presidente do Senado?

Enquanto o futuro se desenha, psiquiatras e psicanalistas podem ajudar a explicar os contornos desse drama.

*Advogado criminal. Artigo na Folha de São Paulo, Caderno Cotidiano B2, de 20/05/2017.
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