Palavra de gringo

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marcelo coelho
*Marcelo Coelho

Fez muito sucesso na internet, já faz algum tempo, a lista de estranhezas sobre o Brasil que o francês Olivier Teboul publicou no seu blog.

Há “brasileirices” conhecidas de todos, como por exemplo a de dizer “vou passar por aí” quando não temos nenhuma intenção de passar em lugar nenhum. Mas Olivier Teboul notou aspectos mais surpreendentes de nosso comportamento.

Ele observa, por exemplo, que para os homens brasileiros quase tudo “é coisa de gay”. Cito o seu blog: “tomar chá é gay. Pedir coca zero: é gay. Jogar vôlei: é gay. Ser francês: é gay. Ser gaúcho: é gay. Ser mineiro: é gay”.

Numa deliciosa sequência, Olivier Teboul assinala hábitos de que realmente não temos consciência (acho). Por exemplo, o de que frequentemente se usa guardanapinho de papel para pegar em sanduíches.

Ele adora que se possa pedir uma pizza meio a meio. Acha tudo salgado demais e doce demais. Não entende que se use “um álcool que parece geleia”. Enfim, são 66 pontos de uma lista bem-humorada e amorosa.

O livro “Palavra de Gringo”, recém-lançado pela editora Língua Geral, oferece ao mesmo tempo bem mais e um pouco menos do que isso. Reúne dez artigos de jornalistas que trabalham como correspondentes estrangeiros no Brasil, das americanas Jenny Barchfield e Julia Michaels à marroquina Lamia Oualalou, passando por Santiago Farrell, da Argentina, e Henrik Jönsson, da Suécia.

O livro traz mais do que uma lista divertida. Muitos dos seus colaboradores trataram de fazer, na verdade, reportagens detalhadas sobre alguma particularidade nacional.

Lamia Oualalou, que escreve para jornais franceses, aborda o crescimento dos evangélicos num artigo bem recente –ela comenta, por exemplo, as reviravoltas de Marina Silva sobre a união homoafetiva.

Nascida em Rabat, Lamia se assustou com a ameaça fundamentalista nas nossas eleições, mas diz que, depois de um tempo nos Estados Unidos, sentiu alívio ao chegar aqui. No país de George Bush, “perguntavam-me se eu era muçulmana, se eu e os membros da minha família eram religiosos, se eu tomava vinho…”

Descobre muita coisa que muitos brasileiros desconhecem a respeito dos evangélicos; já existem, por exemplo, estilistas especializados em dar novos padrões e cores ao figurino, antes tão austero, dos crentes.

Por falar em roupas, o tema volta várias vezes às considerações dos estrangeiros. A americana Jenny Barchfield estranha que as cariocas usem meias grossas, num calorão danado, para a prática de corrida.

O argentino Santiago Farrell acha engraçado que tenha conseguido entrar várias vezes no Palácio do Planalto sem levar documentos –mas nunca sem gravata. O português João Almeida Moreira é barrado na sala de imprensa de um estádio de futebol: usava bermudas.

“O país sinônimo de descontração”, conclui, “é solene e pudico”. Não discordo –do mesmo modo que, nota Santiago Farrell, a cordialidade convive com as inflexíveis determinações da burocracia.

Filas e papelada chamam a atenção de quase todos –em especial do sueco Jönsson, que divertiu seus leitores tentando explicar o que é o reconhecimento de firma em cartório.

Casado com uma brasileira, ele também aprendeu que a melhor forma de resolver uma crise conjugal é simplesmente sair e voltar mais tarde. Viu o mesmo fenômeno numa reunião de condomínio: depois de uma discussão feroz, todos voltavam a se dar bem, sem ter chegado a nenhuma deliberação.

Sinal, para ele, de que temos medo de conflitos, e de buscar soluções comuns.

Nada mais surpreendente do que ler o que Jönsson conta da Suécia. Lá, toda reforma num apartamento é bancada pelo condomínio inteiro. Economiza-se mais, diz ele, ao passo que no Brasil, quando alguém conserta o encanamento de sua casa a pressão acaba estourando o do vizinho.

Coisas de sueco: ele repara que amigos, aqui, tomam cerveja compartilhando da mesma garrafa. Por lá, cada um paga a sua.

Embora isso pareça o oposto do coletivismo das obras em condomínio, talvez a lógica seja a mesma: o princípio de economizar ao máximo, coisa que não vigora, ou se oculta, entre nós.

O que leva a uma chave mais ampla de interpretação. É que é feio parecer pobre no Brasil; mais do que em outros lugares. Daí as gravatas, o horror à bermuda, os estilistas evangélicos. Vai ver que ser pobre também é coisa de gay.

*Jornalista e escritor. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Ilustrada E8, de 10/12/2014.
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