Os clubes

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A fundação dos clubes de futebol foi um marco de civilização na Manaus do começo do século XX. Clubes significaram um avanço nos costumes de uma cidade. Clubes esportivos, sociais ou políticos, representaram a primeira forma de organização leiga da sociedade ocidental, e desempenharam papel importante nas mudanças que ocorreram a partir do século XVIII.

Não há clubes no mundo rural, nas sociedades camponesas. Há confrarias religiosas ou o senso de paróquia na rotina sazonal do mundo arcaico, mas nas cidades que começam a explodir demograficamente a partir da revolução industrial, a hegemonia da natureza perde para a lógica do trabalho e do lucro, pondo no lugar dos rituais de semear e colher a rotina repetitiva das esteiras de montagem, no lugar da terra fecundada a graxa e a fumaça das máquinas. Neste novo mundo que se pretende racional não há lugar para misticismo. A modernidade industrial é leiga e materialista, e pedia uma nova forma de organização social e convivência.

Os clubes foram a resposta. O primeiro clube fundado na cidade tinha um sabor colonialista, já que a iniciativa partiu dos ingleses residentes na capital amazonense, geralmente altos dirigentes, engenheiros e burocratas das empresas britânicas no Amazonas, como a Manaus Harbour e a Manaus Tramway Sistem. O clube não se fechava para os nativos, embora os nativos pudessem frequentar como convidados e nunca como sócios. No entanto, o exemplo dos ingleses agradou.

Especialmente por unir a convivência, as recepções dançantes, com a prática esportiva. Regatas e futebol eram quase os objetivos desses clubes, mas os bailes, as recepções e a programação cultural preenchiam o calendário anual. Ainda fui contemporâneo dessa Manaus em que os clubes estavam presentes na vida das pessoas. Minha família era nacionalina e passei minha infância frequentando a sede do Nacional da rua Saldanha Marinho.

Papai era nacionalino ferrenho, e chegou a fazer parte da diretoria do clube. Tenho algumas fotos de festas carnavalescas em que apareço meio emburrado, já que nunca fui muito adepto das folias momescas. Mas na adolescência diversifiquei minha agenda, frequentando outros clubes, como as festas dos sábados nos Bares, os bailes da segunda-feira gorda do Rio Negro e a Boite Moranguinho do Ideal Clube. Eu gostava muito das festas dos Bares, que ficava na nos altos de um casarão eclético que ainda está lá, embora abastardado pelos anúncios e placas do comércio vagabundo que tomou conta do centro de Manaus. O clube era dos sírios-libaneses, que já tinham o Sheik Clube, na avenida Getúlio Vargas. Embora não fosse sócio, a Manaus dos anos 60 era uma cidade de vida simples e ao mesmo tempo sem perder um certo refinamento. Eu e meu irmão, Deocleciano, sempre fomos bem recebidos nesses clubes. E os Barés, como quase todos os clubes da cidade, interrompiam o baile à meia-noite para o que chamavam de “hora de arte”: recital de poesias, números de dublagem ou demonstração de danças de salão. Vale a pena registrar o número apresentado pelo cronista social Little Box, que não perdia a oportunidade de cantar sua versão tragicômica da música “Filme Triste”. Lembro que uma vez na “hora de arte” de uma festa de sábado no Olímpico Clube, quando ainda funcionava em sua sede histórica na esquina da Leonardo Malcher com a avenida Constantino Nery, Little Box recitou poemas de J.G.Araújo Jorge, arrancando suspiros das meninas casadoiras. Os clubes de Manaus preenchiam a vida e promoviam a sociabilidade.

Pertencer a um clube era pertencer à sociedade amazonense. Mas é um mundo que se acabou. Alguns desapareceram ou perderam suas características, como o Luso Sporting Club, hoje pintado de cor de rosa e praticamente abandonado, ou o Sheik Clube, que virou uma barulhenta academia de ginástica. E Manaus não é mais ingênua.

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Márcio Souza
Dramaturgo e historiador nascido em Manaus. Ex-presidente da FUNARTE. Professor Adjunto da Universidade da Califórnia, em Berkeley (USA). Membro da Academia Amazonense de Letras. Presidente do Conselho de Cultura da Prefeitura de Manaus.

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