Os 80 anos da Batalha Naval

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O Município de Itacoatiara vai comemorar, na manhã do dia 24 deste mês de agosto, o 80º aniversário da famosa Batalha Naval de Itacoatiara. A data histórica foi oficializada pela Prefeitura através do projeto de lei de 11 de agosto de 2011, aprovado pela Câmara Municipal, visando a que “a população comemore o auspicioso evento de forma expansiva e tendente a levantar a autoestima dos itacoatiarenses”. A mensagem que capeou o referido projeto pautou-se na obra de minha autoria “Itacoatiara. Roteiro de uma cidade”, segunda edição (1997), o que me deixou feliz e muito orgulhoso. Segundo Ofício-convite que me foi endereçado, em 26 de julho próximo passado, a cerimônia será prestigiada pela Banda de Música do Comando Militar da Amazônia e o seu ponto alto será a inauguração de um memorial alusivo à Batalha. Convidado para Orador Oficial da solenidade, me esforçarei para cumprir tão honrosa missão.

Há cerca de um mês atrás, nesta mesma Seção, postei um artigo sob o título “O Tenentismo no Amazonas”, aludindo aos movimentos militares de 23 de julho de 1924 e 24 de agosto de 1932 – o primeiro também rotulado de “Bombardeio de Manaus”, e o outro referente à Batalha Naval de Itacoatiara – anteriormente publicado na Revista nº 25 da Academia Amazonense de Letras, editada em novembro de 2003. O texto contém uma advertência: apesar das muitas décadas decorridas, ainda há lacunas de avaliação crítica sobre ambos os eventos, talvez pela pequenez da bibliografia a respeito. Ressalte-se que há mais livros escritos sobre o episódio de 23 de julho de 1924 e quase nada a respeito do de 24 de agosto de 1932.

Na verdade, os historiadores amazônicos costumam aprofundar temas metropolitanos (passados em Belém e Manaus) em detrimento dos relacionados ao interior da região. É incompreensível a teimosia das universidades oficiais UFAM e UEA em não fazer incluir na grade curricular do seu Curso de História o tema Batalha Naval de Itacoatiara. Mas, lá está inserido o Bombardeio de Manaus. Por que o preconceito? No Bombardeio de Manaus houve (se tanto) duas ou três vítimas fatais. No evento de Itacoatiara, além dos dois navios revoltosos (Jaguaribe e Andirá) fundeados defronte à cidade, morreram cerca de quarenta pessoas e quase duas dezenas de feridos foram trazidos para internação na Santa Casa de Misericórdia de Manaus. Os líderes da revolta foram presos e julgados por um Conselho de Guerra instalado à época em Belém!

Queiram ou não queiram os preconceituosos, o episódio histórico da Batalha Naval de Itacoatiara está umbilicalmente ligado à revolução constitucionalista que eclodiu em São Paulo, em 1932, orientada e presidida pelo movimento tenentista que exigiu do presidente Getúlio Vargas a redemocratização do Brasil. A sublevação estendeu-se à Amazônia, começando com o levante de 19 de agosto daquele ano na cidade paraense de Óbidos.

O passo seguinte dos revolucionários foi apreender os vapores Jaguaribe, pertencente à empresa Pereira Carneiro & Cia, e Andirá, da inglesa Amazon River. Ambos, armados em guerra com canhões Krup, de 75 mm., metralhadoras, fuzis e farta munição, acompanhados de duas lanchas, subiram o Rio Amazonas: tencionavam ocupar Manaus e depor o governador do Estado do Amazonas. Porém, a tentativa dos revoltosos, sob o comando de Alderico Pompo de Oliveira fazendo causa comum com os insurretos paulistas teve seu desfecho em 24 de agosto com a vitória da frota legalista em frente à cidade de Itacoatiara, onde – repita-se – estão fundeados os vapores Jaguaribe e Andirá, abalroados pelos navios Baependi e Ingá. E se assim não tivesse acontecido, a cidade de Manaus certamente teria sido atingida – como o foi Parintins, ocupada e saqueada pelos revoltosos – trazendo graves consequências para o comando da legalidade…

A Batalha Naval de Itacoatiara, a única do gênero, no século 20, na América Latina, precisa ser estudada em profundidade e mais divulgada.

Respaldados em textos retirados da segunda edição de meu livro “Itacoatiara. Roteiro de uma cidade” (1997), relembremos que:

  • Decorridos quase dois anos da posse de Getúlio Dornelles Vargas, em 1930, e não manifestando interesse em constitucionalizar o País, o governo e o povo de São Paulo em julho de 1932 se levantaram em armas, sendo esse movimento conhecido como Revolução Constitucionalista.
  • A revolta paulista está inserida no chamado movimento tenentista que se estendeu à Amazônia, através do levante militar da fortaleza de Óbidos, Pará.
  • Ao lado da revolução de 23 de julho de 1924, em Manaus, a Batalha Naval de Itacoatiara, acontecida em 24 de agosto de 1932, se insere no rol dos movimentos tenentistas que ocorreram em todo o País.
  • A revolução de 1924 começou em Manaus, seguiu em direção a Belém e chegou a ocupar o forte de Óbidos, onde foi debelada por tropas federais.
  • Em sentido inverso, a de 1932, pretendendo ocupar Manaus, começou em Óbidos e terminou em Itacoatiara.
  • Governava o Estado do Amazonas, à época, o tenente Antônio Rogério Coimbra, nomeado interventor federal em 5 de agosto de 1931. Seu governo expirou em 10 de outubro de 1933.
  • Ausente de Manaus o interventor titular, em agosto de 1932 estava interinamente à frente do governo o secretário-geral do Estado Waldemar Pedrosa (mais tarde homenageado pela Prefeitura de Itacoatiara com a aposição de seu nome à rua que margeia a cidade).
  • As forças navais de defesa, comandadas pelo capitão-de-fragata Nelson Lemos Basto, então capitão dos portos do Amazonas, compunham-se de uma flotilha de cinco vapores: Baependi e Ingá, do Loide Brasileiro, Rio Curuçá, Rio Aripuanã e Rio Jamari, da Amazon River, além da lancha Íris.
  • A guarnição de terra, em Itacoatiara, esteve sob a direção do primeiro tenente Álvaro Francisco de Souza, auxiliado pelo tenente Albuquerque, ambos do 27º Batalhão de Caçadores. A eles foram incorporados o prefeito Gonzaga Tavares Pinheiro, o tenente Francisco Júlio e dezenas de civis, habitantes de Itacoatiara. Da defesa da cidade também participaram elementos da Guarda Civil do Amazonas, comandadas pelo capitão Jonathas Correia. Aos cerca de cem praças e voluntários foram distribuídas armas e munições. Trincheiras foram abertas ao longo das ruas da orla, do centro ao Jauari.
  • Exercia o cargo de prefeito municipal o capitão Gonzaga Tavares Pinheiro, nomeado por Ato da Interventoria Federal do Amazonas nº 1.150, de 2 de dezembro de 1931. Exonerado do posto em 26 de fevereiro de 1935.
  • Ele nasceu em Porteiras, Estado do Ceará, aos 8 de dezembro de 1890.
  • Era filho de Joaquim Tavares Pinheiro e dona Eglantina Pinheiro.
  • Foi efetivado, por ato de heroísmo e bravura na Batalha Naval de Itacoatiara, no posto de capitão da extinta Força Policial do Estado (atual Policia Militar), em face do Ato Estadual nº 1,791, de 13 de outubro de 1932.
  • Promovido, por merecimento, ao posto de tenente-coronel da Força Policial, pelo decreto de 1º de agosto de 1946.
  • Reformado no posto de coronel da Polícia Militar do Estado, por decreto de 23 de janeiro de 1951.
  • Faleceu em Fortaleza, às 23:40 horas do dia 22 de fevereiro de 1978.

O depoimento do coronel Gonzaga Tavares Pinheiro a respeito da Batalha Naval de Itacoatiara acha-se arquivado no Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas.

O evento – além de constar dos livros de minha autoria “Itacoatiara. Roteiro de uma cidade” (primeira edição), Manaus, 1965, páginas 73 a 79; “Itacoatiara. Roteiro de uma cidade” (2ª edição), Manaus, 1997, páginas 192 a 204; e “Cronografia de Itacoatiara”, 2º volume, Manaus, 1998 – está referenciado nas obras “Itacoatiara, estudo social, político, geográfico e descritivo”, de Manoel Anísio Jobim, Manaus, 1948, “Outras histórias do Amazonas”, de Antonio Cantanhede, Manaus, 1958, e “Tempos de Esperança”, de Antonio Souto Loureiro, Manaus, 1995.

Habilitem-se, senhores pesquisadores, estudiosos e estudantes de nível universitário, pretendentes a elaborar monografias e teses. O tema Batalha Naval é empolgante e muito diz da grandeza de nossa história e da corajosa trajetória do povo de Itacoatiara.

Quanto à festa do 80º aniversário do célebre feito histórico, a ocorrer na manhã do próximo dia 24, celebremo-la com fervor patriótico e muito amor no coração.

Honra e glória ao passado. Parabéns ao laborioso povo de Itacoatiara…

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3 COMENTÁRIOS

  1. Não querendo ser injusto com o escritor Francisco Gomes, gostaria que também mencionasse a bravura de um revoltoso, o segundo sargento do Exército Brasileiro, caboclo destemido de Itapiranga que comandava um dos navios, chamado Zoroastro Maia Pereira. Meu tio foi preso, primeiro no Vigésimo Sétimo Batalhão de Caçadores, em Manaus e posteriormente em Belem. Respondeu Conselho de Guerra e faleceu no Rio de Janeiro.

  2. PARABÉNS PELA RESENHA , CONCORDO COM MAIS ESTUDO E DIVULGAÇÃO DA CELEBRE BATALHA, SOU OFICIAL DA RESERVA DA MARINHA, E OS TEMAS NAVAIS SÃO POUCO ESTUDADOS, COMO TUDO O QUE REPRESENTA CIVISMO E NACIONALISMO NO BRASIL, ESTAMOS PORTANTO PRÓXIMOS DE CELEBRAR OS AINDA 84 ANOS E POUCOS AMAZONENSES SABEM O QUE DE FATO OCORREU, QUE BOM QUE ITACOATIARA CELEBRA ESTE MOMENTO IMPORTANTE DA HISTORIA DO BRASIL.

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