O poder das formigas

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*Gabriel Alves

 

Estudo mostra que esses pequenos e quase invisíveis insetos ajudam a reduzir pragas         urbanas ao comer centenas de quilos de lixo que deixamos pelas ruas

Já pensou no que uma formiga pode fazer por você? Além de ter um papel fundamental no ecossistema da Amazônia, as formigas são espécies de heróis invisíveis, responsáveis por reduzir pragas urbanas ao comer o lixo que deixamos pelas ruas.

Alguns pesquisadores americanos decidiram medir o tamanho da ajuda de alguns artrópodes, filo de animais invertebrados que têm patas articuladas, como aranhas, formigas e centopeias.

A estratégia foi engenhosa. Os cientistas disponibilizaram comida em canteiros centrais e em parques de Nova York de duas maneiras: com e sem uma grade em volta. Animais maiores, como ratos, não eram capazes de se enfiar por entre as barras.

Conclusão: artrópodes conseguem contribuir tanto quanto ou até mais que roedores e outros animais maiores para a eliminação dos restos de comida.

O prêmio de artrópode do ano vai para as formigas do gênero Tetramorium. Com a ajuda delas, o time dos artrópodes consegue ter um desempenho bem melhor, consumindo 35% mais restos de comida.

O desempenho chega a impressionar no médio prazo. Os artrópodes, capitaneados pelas formigas, conseguem remover 65 kg de restos de comida por ano, especialmente salgadinhos e bolachas, por quilômetro.

Numa avenida como a Brigadeiro Faria Lima, na zona sul de São Paulo, esse esforço significa 300 kg a menos de lixo por ano.

Em toda a cidade de São Paulo, que coleta 12 mil toneladas de lixo todos os dias e tem 17 mil km de vias, esse serviço pode facilmente chegar às dezenas de milhares de toneladas de resíduos removidos por ano.

Elsa Youngsteadt, investigadora principal do trabalho, publicado na revista “Global Change Biology”, diz que o serviço das formigas e outros artrópodes é particularmente importante porque eles impedem o crescimento da população de ratos.

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Formigas

NO MATO

Não é só nas cidades que as formigas têm papel relevante. Ele pode ser até maior do que se imagina em ecossistemas naturais como a Amazônia.

“Se fôssemos capazes de pegar todos os bichos da Amazônia, colocá-los em uma sacola e pesá-la, um terço de todo o peso seria formado por formigas e cupins”, afirma o pesquisador Paulo Sérgio Oliveira, professor de ecologia do departamento de zoologia da Unicamp.

Em peso, teríamos mais formigas que vertebrados, como onças, tucanos e cobras.

Em número, não há como questionar a grandeza desses insetos. Em 1 hectare (10000 m²), há mais de 8 milhões de formigas, e uma mesma colônia pode ter mais de um milhão de indivíduos.

Além de servirem de alimento para diversos animais como pássaros, lagartos e tamanduás, as formigas acumulam a função de espalhadoras de sementes.

Frutas carnosas que caem no chão da floresta podem facilmente apodrecer, e a semente pode ser atacada por fungos. As formigas ajudam tanto ao “limpar” a semente, alimentando-se da polpa da fruta e impedindo que fungos matem o embrião contido na semente, mas também “plantando”, sem querer, a semente no formigueiro.

Mais importante ainda do que salvar e espalhar sementes, porém, é o “serviço funerário” que prestam. Ao se alimentarem das carcaças de animais e de insetos mortos, elas removem detritos e adubam o solo.

Algumas espécies de formigas também são excelentes caçadoras, controlando pragas agrícolas.

Kleber Del Claro, professor do Instituto de Biologia da Universidade Federal de Uberlândia, afirma que as formigas predam o bicudo-de-algodoeiro, um besouro que causa perdas anuais de vários milhões de dólares, e só com a ajuda das formigas é possível reduzir o prejuízo em 30%. Também não é incomum vê-las atacando gafanhotos ou minhocas.

Para o cientista, esses bichos pequeninos e que parecem ser tão inofensivos são, na verdade, os maiores predadores do planeta.

*Biomédico. Articulista da Folha de São Paulo. Matéria no Caderno Ciência+Saúde, de 28/12/2014.
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