O país do autoengano

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*Juca Kfouri

Nós, brasileiros, adoramos um autoengano.

Dizemos que somos o “país do futebol”, embora jamais tenhamos sido.

Fomos durante cerca de 40 anos, entre mais ou menos os anos 50 e 90, o maior produtor de talentos do futebol mundial, o país do “jogo bonito”, o que, também, há décadas, deixamos de ser.

Nosso principal campeonato, o Brasileiro, tem média de público na casa dos 15 mil torcedores por jogo.

O da Alemanha tem média três vezes maior.

A segunda divisão alemã tem média maior. A inglesa idem.

O futebol turco tem média superior e o dos Estados Unidos também.

Aliás, os americanos têm gostado tanto do jogo, têm progredido a tal ponto que não será surpresa se muito antes do que se imagina ganharem uma Copa do Mundo.

A audiência do futebol por aqui está em queda.

Outra coisa: o diário “Lance!” acaba de publicar sua quinta pesquisa com o Ibope sobre o tamanho de nossas torcidas.

Não há maiores surpresas, como não surpreendeu que os marineros tenham posto os tucanos a escanteio e ameacem os petistas.

Os rubro-negros seguem à frente com 16,2% da preferência nacional, embora tenham caído um ponto percentual, seguidos pelos corintianos, que cresceram, e foram os únicos, com 13,6%, exatamente o dobro dos são-paulinos, com 6,8%.

Mas, mais uma vez, e pela quinta vez, o contingente dos que declaram não se interessar por futebol é maior do que a maior das torcidas, a do Flamengo: 23,4 x 16,2.

Sim, 23,4 dizem não ligar nem para a seleção brasileira.

Na Argentina o mesmo tipo de pesquisa mostra que o primeiro contingente é o de torcedores do Boca Juniors (41,5%) e o segundo de torcedores do River Plate (31,8%). Para não falar do Borussia Dortmund que tem média de 80 mil torcedores por jogo em sua casa.

Some-se a isso a reverência que os ingleses têm pelo jogo –uma visita ao Old Trafford, em Manchester, escancara o sentimento–, e, por favor, deixemos para os bonifácios patriotas esta bobagem de “país do futebol”.

Porque a primeira medida para começar a resolver os problemas do futebol brasileiro é identificá-los sem subterfúgios, coisa que a maioria da cartolagem avestruz se recusa a fazer. Vai ver, até agradece que não sejam solucionados porque quanto menos torcedores, menor pressão, já que o contingente que existe é suficiente, com sobras, para atender seus mesquinhos interesses.

Os que podem resolvê-los, os profissionais engajados na ideia do futebol-empresa, ocupariam o espaço dela, tudo que mais teme.

Acabamos de ver uma nova leva de clubes aderindo a mais um Refis, o que pode diminuir o interesse pela Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte.

Enquanto Marin beija Havelange na CBF, o futebol definha e a Alemanha, bem…, a Alemanha, 7 a 1!

*Cientista Social. Desportista Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno Esporte, página D6, de 1/9/2014
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