O melhor ex-presidente dos EUA

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*Nizan Guanaes

Ser um dos maiores presidentes dos EUA já é um feito extraordinário, mas ser o melhor ex-presidente dos EUA é um feito sem precedentes. E Bill Clinton é o melhor ex-presidente dos EUA.

O encontro anual que realiza todo ano, no mesmo período da Assembleia-Geral das Nações Unidas, não só rivaliza com o evento da ONU, como começa a suplantá-lo. Afinal, as coisas que se decidem no evento saem do papel e são executadas. Nestes dez anos, os compromissos assumidos na Clinton Global Initiative (CGI) passam de US$ 100 bilhões e beneficiarão estimadas 430 milhões de pessoas em mais de 180 países.

Ao invés de lero-lero, o encontro é baseado em “big data” (os dados fundamentais para resolver os problemas) e, depois, em planejamento, execução e cobrança de resultados pelo time do CGI. Os que desempenham são exaltados, os que não desempenham são colocados na geladeira. É uma ONU tocada por Jim Collins e Vicente Falconi.

Com a exceção de um Obama, ninguém discursa. São sempre bate-papos em que a economia, o dinheiro e o show business discutem assuntos profundos, mas de maneira prática. A palavra que Clinton mais gosta é “how” (como). Para pessoas ansiosas como eu, é o céu. E é por isso que a CGI atrai tanto a iniciativa privada.

Um ex-presidente tem menos poder, mas tem mais foco e rapidez. Por isso, Clinton é um dos homens mais poderosos e influentes do mundo. Ele é voz ouvida em toda crise, a união buscada na controvérsia. Tenho tido o prazer de conviver com ele nos últimos cinco anos e o privilégio de chamá-lo de amigo. Ao acompanhá-lo pelo mundo, posso dizer que o homem que está no palco é o mesmo que conversa numa mesa de jantar com meu filho ao tomar uma Coca-Cola atrás da outra.

Ele é amado e respeitado por grandes mentes do mundo como Steve Jobs e Eric Schmidt. E disserta profundamente sobre os temas atuais. Aliás, tira os temas das profundezas da profundidade e fala de forma que o cidadão comum entenda. Isso se faz com preparo, equipe, obsessão e insônia -e plugado e nutrido pelas principais universidades americanas.

Em que palco o mega empreendedor chinês Jack Ma, do Alibaba, foi pisar e brilhar logo depois de seu extraordinário IPO? Onde você vai ouvir o ator Matt Damon falando de algo que ele entende muito, água? Onde ouvir Brad Pitt falando com igual autoridade sobre construção popular tipo Minha Casa, Minha Vida? No palco do CGI.

Carlos Slim, Bill Gates, Jack Ma, os Googles, os Facebooks, as Harvards, as Stanfords… Todo mundo que você já ouviu falar e gente que você ainda não ouviu falar, mas vai ouvir, estão no encontro.

Não leu ainda um livro chamado “Abundance”, de Peter Diamandis? Leia. Ele é chairman e cofundador da universidade mais moderna do mundo, a Singularity, e lançou um livro extraordinário que mostra o que os jornais escondem: que vivemos no melhor momento da humanidade. Não é um livro sobre otimismo, mas sobre tecnologia. E como ela será capaz de gerar abundância sem precedentes para resolver nossos enormes problemas.

É fácil de entender isso graças ao Google. Qualquer adolescente hoje tem em mãos mais informação do que Churchill ou Stalin na época deles. É lógico que, diante de tantas dificuldades e desafios, é difícil digerir o que Diamandis está dizendo. Mas são ideias disruptivas como essas que fazem o encontro anual do CGI ser bem diferente da Assembleia-Geral da ONU.

A ONU é sobre os velhos problemas de sempre. O CGI é sobre as novas soluções. Sobre conceitos que tiram o nosso sono ao mesmo tempo em que nos fazem sonhar.

E foi assim, ao se transformar no maior ímã global de inteligência, poder, capital e talento, que um dos melhores presidentes dos EUA se reinventou e se tornou o melhor ex-presidente dos EUA. Fazendo o que os governantes do mundo todo falam e não fazem. Mas, sobretudo, apaixonando a gente ao falar sobre coisas que os governantes não pensam, não imaginam e não falam.

*Publicitário baiano. Colunista da Folha de São Paulo. Artigo no Caderno B8 Mercado, de 30/09/2014.
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