O início da colonização da Amazônia

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Expulsos os franceses, era necessário que se desse nova estrutura administrativa à terra recém-conquistada.

Alexandre de Moura, de imediato, criou as capitanias do Maranhão, Pará e Cumã, designando a Jerônimo de Albuquerque, Francisco Caldeira Castelo Branco e Martin Soares Moreno, seus respectivos capitães. Em seguida, a 9 de janeiro de 1616, nomeou Bento Maciel Parente, Capitão das Entradas; Baltazar Pestana, Sargento-mor da Conquista; Luís Madureira, Auditor e Ouvidor Geral; Ambrósio Soares, Comandante do Forte São Felipe e Álvares da Câmara, Comandante do Forte São José. Todos esses atos nomeatórios estavam sujeitos à sanção do Governador Geral Gaspar de Moura.

O domínio português só se encontrava consolidado no Maranhão. No Pará e Cumã seus capitães-mores realizaram novo trabalho de conquista, pois tiveram de enfrentar os ataques e revoltas do gentio tupinambá, ainda não pacificado.

As capitanias então criadas não eram hereditárias, eram verdadeiras regiões administrativas, com capitães-mores nomeados pelo Governador Geral do Estado do Brasil e visavam à defesa da terra e ao estabelecimento de colonos, que garantissem a sua definitiva ocupação.

Nos tópicos que se seguem procuraremos apontar a maneira como se processaram as primeiras tentativas de povoamento dessas regiões, bem como as vicissitudes dos seus primeiros governos.

 

a) CAPITANIA DO PARÁ

Na sua delimitação primitiva estendia-se da margem esquerda do Quatipuru até o Tocantins e por este acima, até o primeiro salto.

Francisco Caldeira Castelo Branco, que fora Capitão-mor da Paraíba, nos idos de 1613 a 1615, recebeu o título de Capitão-mor da Conquista do Pará, tendo, na oportunidade, organizado uma pequena frota destinada a dominar aquela região. Compunha-se a frota de três navios, as saber: o patacho Santa Maria da Candelária, de Pedro Freitas; o caravelão Santa Maria da Graça, de Álvaro Neto e o lanchão Assunção, de Antônio da Fonseca. Dela participavam Pedro da Costa Favela e Pedro Teixeira e, ainda, os capuchos Cristóvão de São José e Antônio de Marciana, cuja principal tarefa seria a de missionar os índios. A partida de São Luís deu-se a 25 de dezembro de 1615.

Depois de uma longa viagem, os navios aportaram à barra do Seperará e Antônio de Deus foi o primeiro a desembarcar na Feliz Lusitânia, nome dado à terra.

A 12 de janeiro de 1616, fundou-se a povoação de Nossa Senhora de Belém e o Forte do Presépio, este construído de faxina e taipa. Esses sucessos foram comunicados ao Maranhão por Pedro Teixeira, que durante a viagem pacificou os índios do Caeté, retornando com artilharia, munições e o soldo da tropa.

Castelo Branco geriu a Capitania até 14 de setembro de 1618, quando foi substituído por Baltasar Rodrigues de Melo. Sob o comando deste Capitão o povoado de Nossa Senhora de Belém foi atacado pelos tupinambás do Chefe Guaimiaba, o Cabelo de Velha. Um tiro de arcabuz, disparado por Gaspar Cardoso, pôs fora de combate o valoroso chefe e os seus guerreiros abandonaram a luta já quase vencida.

A 29 de abril de1619, Jerônimo Fragoso de Albuquerque chegava a Belém para assumir o Governo, trazendo ordem de prisão e de remessa para Lisboa dos implicados na deposição de Castelo Branco, entre os quais figuravam Baltasar Rodrigues de Melo e Cristóvão Vaz Bittancourt. Fragoso de Albuquerque veio a falecer no dia 1º de setembro de 1619, ocupando o seu posto Matias de Albuquerque, que dele foi afastado 20 dias depois.

Daí seguiu-se o triunvirato formado por Custódio valente e Frei Antônio de Marciana, aos quais se juntou Pedro Teixeira que, a partir de maio de 1620, tornou-se o único governante.

A 18 de julho de 1621, Bento Maciel Parente assumiu o controle da Capitania como prêmio pelo extermínio dos tupinambás, ficando com ele até 6 de outubro de 1626. Nesse período deram-se as primeiras ações de vulto contra os ingleses e holandeses que se achavam estabelecidos na foz do rio Amazonas.

 

b) CAPITANIA DO MARANHÃO

Jerônimo de Albuquerque foi Capitão-mor do Maranhão de 9 de janeiro de 1616 a 11 de fevereiro de 1618, data de seu falecimento.

Em fevereiro daquele mesmo ano, Bento Maciel Parente organizou uma entrada no Pindaré na busca de fabulosas riquezas do Maranhão. Fustigado pelos guajajaras, recolheu-se a São Luís, sem nada encontrar.

Foi segundo Capitão-mor Antônio de Albuquerque, filho de Jerônimo, que logo entrou em choque com Maciel Parente, preso e enviado para Pernambuco. Parente granjeou a simpatia do Governador D. Luís de Souza (1616/1621), que o encarregou da guerra de extermínio aos tupinambás. Desprestigiado, Antônio de Albuquerque renunciou a 6 de abril de 1619, sendo substituído por Domingos ou Diogo da Costa Mahado. Nessa época, Jorge de Lemos Bittencourt compromete-se a introduzir na Capitania 200 casais açorianos a troco de 400$000, o que de fato ocorreu. Em 1621 já haviam chegado 40 casais.

A 22 de março de 1619 Maciel Parente, no comando de um regimento, iniciou o extermínio dos tupinambás. Empenhado nessa missão, três anos após, isto é, em junho de 1622, já havia destruído todos os aldeamentos de Cumã, Tapuitapera e do Caeté.

Após esse feito, dirigiu-se a Belém com 80 soldados e 400 índios, recrutados no Nordeste, com os quais dizimou os silvícolas ali existentes. A esta altura dos acontecimentos, o Capitão do Pará, Fragoso de Albuquerque instou a que se encerrassem tais carnificinas, no que foi repelido. Os poucos tupinambás que restaram no Caeté foram mais tarde eliminados por Álvaro de Souza. Os do Pará subiram o rio Amazonas e se instalaram na ilha Tupinambarana.

O livro “Relação Sumária das Cousas do Maranhão”, editado em Lisboa a 7 de março de 1624, de autoria de Simão Estácio da Silveira, informa haver Maciel massacrado mais de 500.000 índios, número este que julgamos superestimado. Como prêmio por este genocídio, recebeu a Capitania do Pará.

Domingos ou Diogo da Costa Machado foi substituído por Antônio Muniz Barreiros, a 20 de abril de 1622. Lembramos que Antônio Barreiros era filho do Provedor-mor do Brasil, que lhe conseguiu o posto, a título precário, pois já havia sido criado o Estado do Maranhão. Mesmo assim, Barreiros governou até 3 de setembro de 1626, data em que assumiu o 1º Governador Geral Francisco Coelho de Carvalho.

 

c) CAPITANIA DE CUMÃ

Esta Capitania estendia-se do rio Cumã até o rio Caeté. O seu primeiro Capitão Martim Soares Moreno, que se destacara na conquista do Ceará, saiu de São Luís a 2 de janeiro de 1616, para ocupar aquelas terras. Sob as suas ordens seguiam 20 soldados e 1 alferes, embarcados em 6 canoas, fazendo-se acompanhar de Frei Cosme da Anunciação em missão de catequese ao gentio. Nesse mesmo ano, Moreno viajou para a Espanha, mas seu navio foi ter a São Domingos. O veleiro em que reembarcou foi tomado pelo pirata Fleury, do Havre, tendo na luta então travada, perdido uma das mãos e recebido uma cutilada no rosto.

Levado como prisioneiro para a França, ali foi reconhecido, e de Dieppe vieram parentes de franceses mortos no Maranhão, que conseguiram sua condenação à morte.

A sua libertação, após 10 meses de cárcere, muito custou ao Embaixador Duque de Monteleon. Mais tarde, Moreno voltou ao Brasil, sendo então nomeado donatário da Capitania do Ceará.

Enquanto sucediam tais fatos, Cumã foi governada por Matias de Albuquerque até 1619. Coube-lhe sufocar a revolta dos tupinambás do chefe Amaro, que foi sacrificado na boca de um canhão, graças ao auxílio de 50 soldados e 200 índios, aliados de Manuel Pires.

Após Matias de Albuquerque a Capitania parece ter-se extinguido, sendo, a seguir, recriada sob o cunho da hereditariedade.

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Antonio Loureiro
Historiador amazonense. Membro das academias Amazonense de Medicina e Amazonense de Letras. Ex-presidente do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas.

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