O grande líder de uma nação deixa um legado para seus irmãos

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O primeiro produto a ser expropriado de nosso território, ainda no século XVI, foi o pau brasil. Essa essência florestal é uma madeira nobre, chamada pelos indígenas de ibirapitanga, em virtude da obtenção de um líquido que servia para fazer tintura em tecidos, de cor avermelhada. “Brasileiros” eram os apelidos dado aos portugueses que para cá vieram, com medo de a Espanha tomar parte dessa nação. Os espanhóis não aceitavam o marco regulatório acordado no Tratado de Tordesilhas, assinado por ambos, em 1494. Aqueles já eram uma potência nos mares, mas para dominar o comércio, os lusos tiveram que aprender a língua dos nativos, fazendo alianças com seus chefes, levando aos portos do Nordeste para que fosse exportada para a Europa, grande quantidade de madeira, transportada pela mão-de-obra indígena que em troca, recebia inúmeros produtos valorizados pelos povos ancestrais, como espelhos, tecidos, miçangas etc., iniciando o escambo em terras tupiniquins.

A grande lavoura de açúcar, além de aquecer a economia regional, foi introduzida como elemento catalisador para implantar a colonização portuguesa no Brasil, já que clima e solo favoreciam, com sucesso, o desenvolvimento do projeto cujo alvo era o de fixar o homem à terra. No entanto toda produção de açúcar era destinada a exportação, sendo a primeira cultura expandida para todo Nordeste, porém, a mão-de-obra escrava indígena era indiferente ao modo de produção capitalista, porque nas relações econômicas dessa Sociedade não existe a produção de excedentes. Muitos povos foram perseguidos pelos bandeirantes e cuidavam de fugir. As inúmeras etnias tinham na Amazônia seu refúgio para escapar da escravização, miscigenavam-se com o branco e, depois de muito tempo, deram origem ao caboclo, figura regional típica.

As boas colheitas compensavam os altos investimentos realizados, embora o cultivo de apenas um produto tenha deixado um passivo ambiental irrecuperável, o que contribuiu para empobrecimento do solo, com a agravante do fenômeno da desertificação e em consequência a má distribuição de chuvas em vários estados da região nordestina, fatos que aliados ao secular desvio de recursos públicos coloca abaixo da linha da miséria a vida de nossos irmãos. No período colonial a produção internacional era incipiente, o que estimulou outros colonizadores a criar novos engenhos, dado o alto preço pago pelo mercado. O centro administrativo do Brasil Colônia girava em torno dos donos de engenhos. Na Casa Grande morava a elite, auxiliada pelos escravos domésticos; na senzala residiam os escravos cativos que trabalhavam nos canaviais e operavam na casa de engenho, local onde era beneficiada a cana-de-açúcar, de onde eram extraídos dentre outros, o melaço, a cachaça, a rapadura e especialmente o açúcar.

Posteriormente, no rastro da estratégia de ocupação do território foi arquitetado pelos exploradores o deslocamento do foco econômico, agora, passando para a pecuária, levando para os currais das fazendas as tropas, forjando a figura do vaqueiro, estimulando os relacionamentos humanos para que ficasse agregado a terra, com a solidificação de uma família. E parte dessa trilha segue para Pernambuco, Bahia, Ceará, Maranhão e Piauí que, seguindo o curso dos rios, auxiliaram na formação de uma grande região pastoril. Todavia no Rio Grande do Sul a atividade pecuária dos pampas está a serviço do escoamento da produção aurífera das geraes, nas fazendas para a produção de charques tchê e mulas para enfrentar as adversidades de caminhos escarpardos da região serrana até os portos.

No século XVII a frente de expansão com as Entradas e Bandeiras marcha para o Centro Oeste, onde na extração de jazidas minerais sobressaem-se Goiás e Mato Grosso. Nos garimpos de Minas Gerais o ouro faz surgir várias cidades coloniais e, com a riqueza daí advinda, proporciona a Portugal um período de prosperidade e estabilidade econômica para desenvolver outros projetos além-mar. Mas tudo isso não foi feito sem o esforço e a vida de milhares de seres humanos que foram apresados, contabilizados, marcados e cristianizados pelo batismo nos portos longínquos e, para cá trazidos à força. Nas frotas de navios negreiros, também conhecidos como tumbeiros, chegavam reinos inteiros de tribos. Muitos, não aguentando a viagem, as intempéries e os cruéis castigos, eram jogados no mar.

Essa história foi uma verdadeira diáspora africana que marca indelevelmente a cor de nosso país. Aqui sofreram as agruras, mas conseguiram com a organização das fugas, das revoltas, inclusive o Levante dos Malês, construir a resistência e uma nação. Na Serra da Barriga, no Quilombo dos Palmares, verdadeira cidadela negra fortificada, onde davam abrigo aos irmãos, praticavam a agricultura de subsistência e o artesanato e liderados por líder, o imortal Zumbi, assassinado em 20 de novembro de l695, data hoje consagrada como o Dia da Consciência Negra.

Maria Amélia dos Santos Castro, uma mulher muito respeitada na Amazônia, dirigente da Federação de Quilombolas de Barreirinha, e neta de escravos de Angola, mapeou duzentas famílias no Rio Andirá. Mas sei que existem remanescentes em inúmeros municípios amazonenses. Para a Secretaria Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, dirigida por Maria Helena de Barros, representando 1,7 milhão de trabalhadores cadastrados com mais de 1.948 comunidades, a questão maior não é o reconhecimento do Estado em relação aos afro-brasileiros, mas a terra.

Segundo o historiador Francisco Gomes da Silva, meu conterrâneo de Itacoatiara, os últimos escravos a chegarem ao Brasil, em 1854, vieram para residir nas cercanias da nossa gloriosa cidade, e trabalhar numa Agroindústria e oficina de reparos de navios, do empresário e banqueiro brasileiro Irineu Evangelista de Souza, depois Barão de Mauá. Além de obter a concessão para explorar a navegação fluvial na Amazônia, à época, instalou aquela indústria (Colônia Itacoatiara), que mais tarde nominaria o principal bairro de Itacoatiara. Mas lembro-me que na adolescência quando passava as férias na chácara de meus avôs, na Rodovia AM-010, encontrava-me sempre com uma grande quantidade agricultores residentes nas cercanias do Lago de Serpa dirigindo-se à cidade para negociar suas produções. Eram alegres, vibrantes, sorriso aberto, respeitáveis, muitos deles amigos de meus avós e pais. A negritude de sua pele e a paixão pela música são referências de que descendem daqueles nossos irmãos que, em meados do século XIX, ajudaram a construir Itacoatiara.

É o momento de a UFAM – Universidade Federal do Amazonas e a UEA – Universidade do Estado do Amazonas proporem linhas de pesquisas, estudarem e conhecerem os remanescentes quilombolas que felizmente ainda existem no município itacoatiarense, e assim ajudarão a resgatar a memória coletiva desse povo.

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J.R Lopes
É jornalista. Natural de Itacoatiara (AM).

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